Cristo, Cultura e Carson | David T. Koyzis

Este artigo foi publicado em 3 de abril de 2009 na revista “Comment”, uma publicação da CARDUS: www.cardus.ca. Texto original aqui.

Apenas compreendendo a narrativa central da Bíblia é que podemos esperar resolver, de forma adequada, a questão de Cristo e a cultura.

Nos últimos anos, os cristãos têm se conscientizado da necessidade de refletir sobre a relação entre cristianismo e cultura e sobre a importância de uma cosmovisão cristã consistente para viverem a vida redimida em Cristo. No entanto, há quase seis décadas, muito antes de ser publicada a recente onda de livros sobre cosmovisão, o teólogo H. Richard Niebuhr escreveu seu clássico tratamento do assunto, Cristo e Cultura, o qual, em minha juventude, ajudou a me orientar no assunto, enquanto eu buscava sabedoria sobre ele.

Niebuhr identificou os cinco famosos padrões básicos:

– Aqueles que seguem a posição “Cristo contra cultura” rejeitam a cultura maior e veem a vida em comunidade cristã como uma contracultura permanente, caracterizada por um conjunto de princípios completamente diferente. Tertuliano e Leo Tolstoy são os típicos defensores desta visão, assim como, para atualizar Niebuhr, o teólogo menonita John Howard Yoder, Stanley Hauerwas e aqueles que se veem como articulando e vivendo um testemunho profético do lado de fora da cultura.

– A posição “Cristo da cultura” identifica a causa de Cristo com tudo o que é bom na cultura maior, acomodando-se ao padrão da cultura daquilo que é bom. Niebuhr vê isso tipificado em Pedro Abelardo, o protestantismo liberal moderno, o gnosticismo (em sua forma extrema), e os teólogos protestantes alemães Albrecht Ritschl e Friedrich Schleiermacher.

– “Cristo acima da cultura” descreve a abordagem sintética da filosofia e teologia escolásticas. Seus proponentes não são nem a favor, nem contra a cultura maior; eles aceitam livremente os paradigmas filosóficos de, digamos, Aristóteles ou os estoicos, afirmando que estes últimos podem nos levar apenas até um certo ponto da verdade, em seu uso da razão pura. A revelação divina é necessária para nos conduzir ao restante do caminho – em direção a verdades que transcendem aquilo que a razão humana pode conhecer por conta própria. Clemente de Alexandria e Tomás de Aquino são os exemplos típicos dessa posição.

– Os campeões (se é que podem ser chamados assim) da posição “Cristo e cultura em paradoxo” abordam a questão dualisticamente, mantendo em tensão as exigências do Evangelho e os imperativos da cultura maior. Os cristãos são membros de dois reinos e devem lealdade a ambos. Certamente, a fidelidade ao evangelho deve ter prioridade, mas, uma vez que somos seres humanos pecadores, ainda estamos sujeitos aos poderes terrenos constituídos, cuja autoridade pode, no entanto, colocar-se em uma tensão considerável com o evangelho. De acordo com Niebuhr, o apóstolo Paulo, Marcião, Lutero e Kierkegaard são os que melhor se encaixam nesta categoria.

– Finalmente, há “Cristo, o transformador da cultura”, cujos partidários visam nada menos do que a conversão do mundo. Apesar de toda a sua diversidade, Niebuhr agrupa nesta categoria o autor do Evangelho de João, Agostinho, Calvino, Wesley, Edwards e o socialista cristão inglês F. D. Maurice.

Embora Niebuhr nunca afirme isso com muitas palavras, não é preciso ler muito as entrelinhas para descobrir qual das cinco posições ele favorece. Os leitores rapidamente percebem a expectativa do autor de que eles, também, apoiarão a conversão da cultura acima de tudo.

No entanto, há uma qualidade peculiar no raciocínio de Niebuhr que é captada pelo prolífico autor Donald A. Carson em seu novo livro, Cristo e Cultura: uma releitura (São Paulo: Vida Nova, 2012). Em lugar algum de seu livro Niebuhr argumenta que a posição conversionista é a mais consistentemente bíblica das cinco. De fato, colocando os apóstolos Paulo e João em duas categorias diferentes, ele implicitamente enfraquece a unidade canônica das Escrituras, vendo-a como vários documentos díspares entre os quais os leitores podem escolher, com base em compromissos anteriores. Devido ao fato de que grande parte da disciplina de estudos bíblicos foca-se nos textos bíblicos como documentos distintos ou mesmo compostos, refletindo as diferentes prioridades dos autores e editores, muitas vezes há uma certa relutância em situá-los dentro de uma narrativa redentora maior que os mantêm unidos.

Em suma, a corrente acadêmica principal de estudo bíblico tende a enfatizar a diversidade em detrimento da unidade, o que talvez não seja de surpreender, dado que tanto crentes como não-crentes estão envolvidos neste esforço acadêmico. Uma vez que não se pode esperar que os incrédulos atentem para a uma mensagem central das Escrituras, com seu evidente apelo à conversão e obediência, todos os estudiosos da Bíblia estão sob uma enorme pressão para aceitarem os parâmetros de sua área definidos por padrões de um mínimo denominador comum.

A ironia é que isso faz com que a própria cultura na qual os cristãos se encontram exerça uma influência determinante sobre qual das cinco posições eles adotarão para si. Uma vez que se entende que a Bíblia não fala com uma só voz, nós, os leitores, podemos decidir qual destas vozes seguiremos. Para qual autoridade nós apelamos ao fazer isso? Isso não é claro de forma alguma, mas, ao que parece, isso significa, na prática, tornar “Cristo da cultura” a posição padrão, apesar das intenções contrárias de Niebuhr.

Contra a abordagem de cafeteria de Niebuhr, Carson oferece uma teologia bíblica robusta, que considera melhor a natureza unívoca da Escritura:

“Os cristãos reconhecem a diversidade da Bíblia em geral e do Novo Testamento em particular, mas insistem que a Bíblia como um todo constitui o cânon – e que a ‘regra’ deste cânon encontra-se na totalidade de sua instrução, e não em oferecer limites para opções possíveis.”

Carson isola vários temas não-negociáveis, os quais, em conjunto, nos fazem enxergar as Escrituras como um todo: a criação e a queda em pecado, a idolatria como o centro de definição do pecado, a eleição de Israel e a entrega da lei de Deus, a redenção em Cristo e a nova aliança e, finalmente, o novo céu e a nova terra como a conclusão culminante da história. Apenas compreendendo a narrativa central da Bíblia é que podemos esperar resolver, de forma adequada, a questão de Cristo e a cultura. Isso necessariamente nos leva para além de Niebuhr.

O restante do livro de Carson se ocupa com temas relacionados apenas de forma tangencial ao argumento de Niebuhr, mas que, apesar disso, são relevantes para a questão mais ampla sobre a relação do cristão com a cultura. (Pode-se suspeitar que esses capítulos foram escritos de forma independente e para diferentes finalidades, sendo mais tarde reunidos no presente volume.) O capítulo 3 é dedicado a uma conversa com o pós-modernismo, focando especialmente em um debate em andamento com James K. A. Smith, do Calvin College (que, aliás, resenhou o livro de Carson para a Christianity Today). O Capítulo 4 trata da “sedução da secularização, o misticismo da democracia, o culto da liberdade, e o desejo de poder.” Carson dedica o capítulo 5 ao tema da Igreja e Estado, levantando as abordagens distintas de uma série de pensadores acerca da questão, incluindo Jeffrey Stout, Hauerwas, Yoder, Oliver O’Donovan e Jacques Maritain.

No sexto e último capítulo, Carson finalmente chega ao teólogo e estadista holandês Abraham Kuyper, cujo impacto sobre o cristianismo norte-americano aumentou em relação à geração passada, pelo menos em parte devido à influência de Nancy Pearcey e Charles Colson, bem como aos numerosos acadêmicos e universidades cristãs simpatizantes em todo o continente. Carson acredita que, em seus últimos anos, Kuyper perdeu seu caráter confessional. No pensamento de Kuyper, a “antítese entre a crença e a descrença, entre a graça redentora e a graça comum, diminuiu.” Mais ainda, “a segunda metade da carreira de Kuyper pode ser vista como um afastamento sutil daquilo que é a força motriz central na linha da história bíblica.”

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É claro que permanece em aberto se Carson está sendo justo com Kuyper e seu legado. Talvez fosse melhor deixar os estudiosos de Kuyper avaliarem isso para nós. No entanto, quaisquer que sejam os defeitos em sua crítica (por exemplo, a relação entre a graça redentora e graça comum dificilmente é antitética), Carson está certo em observar que, onde os esforços para transformar a cultura tornam-se muito intelectualizados e dissociados das fontes de piedade genuína, o resultado é, se não precisamente uma “morte súbita”, como ele colocaria, pelo menos um definhamento gradual da vitalidade da igreja.

Isso nos traz de volta a Niebuhr. Sem uma base criacional e bíblica sólida para os nossos esforços, qualquer tentativa de transformar a cultura será pouco mais do que tentar impor nossas próprias aspirações subjetivas a todos os outros, estejam eles dispostos ou não a isso, ou – de forma mais significativa – estejam ou não essas aspirações em conformidade com a ordem normativa da criação, entendida através das Escrituras. Além disso, dada a presença abrangente e o poder absoluto das culturas das quais nós mesmos fazemos parte, há também toda a possibilidade de que elas nos transformem primeiro, mesmo que reivindiquemos o oposto. Se devemos ficar confortáveis com a cultura à nossa volta, isso pode ser porque, pela graça de Deus, esta última respondeu aos nossos esforços bem-sucedidos e se tornou mais simpática à verdadeira fé. No entanto, é igualmente provável que podemos ter sido inconscientemente cooptados pela cultura. Como podemos notar a diferença? Isso não será fácil, mas o ponto de partida está em mergulharmos na Palavra escrita de Deus e habitarmos em sua história, como Lesslie Newbigin coloca. Em qualquer situação, devemos fazer todo o esforço para permanecer vigilantes e manter os nossos olhos continuamente na cruz de Jesus Cristo.

Apesar dos aspectos positivos da abordagem de Carson, há duas áreas em que ele faria bem em esclarecer melhor. Em primeiro, embora ele entenda corretamente a criação como o evento inicial na narrativa bíblica maior, ele não explora isso tanto como deveria. No clássico livro de Albert M. Wolters, A Criação Restaurada (São Paulo: Editora Cultura Cristã, 2006), o autor dedica seu capítulo mais longo à criação, destacando, assim, sua importância. Naquilo que é muitas vezes chamado de “mandato cultural” (Gênesis 1:26-28), Deus chamou suas criaturas, portadoras de sua imagem, para a tarefa de produzir cultura para a sua glória. Neste sentido, a criação é muito mais do que um único evento; ela engloba toda a ordem do cosmos – natureza e cultura – junto com todas as suas ricas potencialidades que nós, seres humanos, somos unicamente chamados a desdobrar e desenvolver. Eu duvido que Carson negaria isso, mas seria bom vê-lo traçar as implicações desta ideia de uma forma mais completa do que ele faz em seu livro.

Em segundo lugar, a eclesiologia de Carson precisa distinguir melhor entre a igreja como instituição e a igreja como corpus Christi, ou corpo de Cristo. Como instituição, a Igreja é chamada por Deus para proclamar a Palavra, administrar os sacramentos e manter uma disciplina correta, isto é, para nutrir e ajudar os crentes em sua vida de obediência diante da face de Deus. Em Atos 15, lemos sobre o primeiro encontro sinodal da igreja no sentido institucional, que consistia em uma reunião dos apóstolos para decidir como lidar com o afluxo de não-judeus para dentro da igreja. Desde então, concílios ecumênicos e outros órgãos deliberativos têm se reunido para decidir questões doutrinais e outros assuntos.

No entanto, a igreja como corpus Christi não é apenas um agrupamento de cristãos individuais. É a igreja em sua totalidade, a qual se manifesta não só no culto congregacional e assembleias eclesiásticas, mas em todas as esferas da vida em que os seres humanos vivem, trabalham e se divertem. A igreja como instituição diferenciada tem um mandato único e insubstituível dado por Deus – um que não pode ser cumprido por qualquer outra instituição, seja ela familiar, estatal, empresarial ou sindical. Mas, como a antiga Israel, a igreja como corpus Christi tem o mandato de servir a Deus e ao próximo em cada chamado e ambiente cultural, e não apenas na igreja institucional. Neste sentido, o mandato da igreja abrange também o mandato do Estado de fazer justiça pública, a tarefa da família de educar filhos a se tornarem adultos responsáveis e a vocação das empresas de serem mordomas do potencial da criação, entre muitas outras atividades normativas. A tarefa do corpus Christi não é, portanto, delimitada institucionalmente, mas está vinculada ao mandamento divino central de amar a Deus e ao próximo em todas as áreas da vida.

Muitos cristãos perdem de vista esta distinção fundamental entre igreja como instituição igreja e como corpus Christi. No entanto, reconhecer isso nos permitirá compreender melhor como a nossa membresia do corpo de Cristo produz impacto sobre uma vida obediente em todo o espectro das atividades humanas, sem desviar, de forma alguma, a igreja institucional de sua missão única.*

* Nota do tradutor: É proveitoso indicar o trabalho do autor Guilherme de Carvalho neste assunto, apresentado nos dois primeiros capítulos do livro Fé Cristã e Cultura Contemporânea (Viçosa, MG: Ultimato, 2009). Guilherme inclusive aponta que a falta de uma eclesiologia clara é um dos pontos cegos nas discussões sobre missão integral e que somente uma reconsideração das principais tradições protestantes de eclesiologia – anabatista, luterana e calvinista – pode levar a um progresso considerável neste assunto.

Traduzido por Fernando Pasquini e revisado por Jonathan Silveira.

David T. Koyzis é doutor em Filosofia pela Universidade de Notre Dame e atualmente é professor de Ciência Política na Redeemer University College, em Ancaster, Ontário, onde leciona desde 1987. Em 2004, sua obra Visões e ilusões políticas, publicada por Edições Vida Nova, foi premiada em primeiro lugar na categoria não ficção/cultura pela The Word Guild Canadian Writing Awards.
cristo-cultura-releituraEsta obra trata de um tema de suma importância - como os cristãos devem interagir com a cultura em que vivem. O autor faz uma releitura da tipologia clássica de H. Richard Niebuhr e mostra que as cinco opções de como cristãos devem se relacionar com a cultura, propostas por Niebuhr, são reducionistas e, na pior das hipóteses, antibíblicas. Carson propõe uma solução unificadora. Lançando mão dos pontos decisivos do enredo bíblico, como a queda, o chamado de Abraão, a vinda do Messias, sua morte, ressurreição e segunda vinda, e a dádiva do Espírito Santo, o autor argumenta que, somente quando todas as categorias bíblicas são consideradas simultaneamente, é possível contribuir para o entendimento correto da cosmovisão cristã e suas implicações na relação diária do cristão com a política, as artes, a educação, e todas as demais áreas da cultura.

Publicado por Edições Vida Nova.

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