Dançando com o Satanás de John Milton: O Coringa e o fascínio pelo mal | K. B. Hoyle

Joaquin Phoenix em "Coringa"

É comum encontrarmos críticas à obra Paraíso Perdido, de John Milton, dizendo que Satanás é o herói acidental da história. Simpático, eloquente e fascinante, o ser mais maligno de todos os tempos se tornou, nas mãos de um mestre poeta, uma figura trágica. Por causa de sua representação de Satanás na obra, William Blake disse que Milton se aliou ao “partido do Demônio sem o saber”. Uma história bem contada pode transformar até o personagem mais perverso em alguém com quem poderíamos sentir empatia – quer o autor tenha desejado isso ou não. Do mesmo modo que isso ocorre com o Satanás de Milton, isso também parece ocorrer com o Coringa de Joaquin Phoenix.

Retratar vilões e oferecer exames honestos dos pecados são funções cruciais para contar histórias boas e morais. Como G. K. Chesterton escreveu: “Se os personagens não são maus, o livro é.” A maldade, porém, não é benigna. Assim, a maneira pela qual ela encontra expressão em nossas histórias – e nos personagens de nossas histórias – é algo ao qual devemos sempre prestar muita atenção, porque nossas histórias também funcionam em nós.

Jamais esquecerei a experiência de sentar em uma sala de cinema e ouvir uma plateia rindo quando, na tela, o Coringa explodiu um hospital. Meu marido e eu trocamos olhares horrorizados de perplexidade, porque não havia – pelo menos não deveria haver – nada engraçado sobre qualquer ato de terror, muito menos um ato de terror perpetrado contra os fracos, os enfermos, os desamparados. O filme, é claro, foi O Cavaleiro das Trevas, o segundo sucesso da trilogia Batman de Christopher Nolan (agora conhecida como Trilogia Cavaleiro das Trevas), e o ator que interpretou o Coringa foi Heath Ledger.

O Coringa é um personagem que é iconicamente mau há muito tempo – alguém em quem realmente não há bem. Como arqui-inimigo do Batman, o Coringa fez uma transição fácil das páginas dos quadrinhos para as telas pequenas e, eventualmente, grandes, porque ele é tal personagem. Um maníaco homicida que se veste de palhaço, alguém que ri e brinca enquanto mata, rouba e causa estragos em Gotham City – o Coringa representa um terror niilista, irracional e enigmático, e faz tudo isso com um sorriso no rosto. Este é um personagem que sempre deve evocar horror, e antes de 2008 e de O Cavaleiro das Trevas, entendia-se claramente que havia um mal no Coringa. Agora, porém, estamos à beira do lançamento do filme Coringa, um filme independente que promete contar a história de origem do Coringa de uma maneira que inspire empatia. Mas a empatia com um personagem perverso como o Coringa é um ponto que devemos explorar como sociedade? Não posso evitar de conectar os pontos de volta ao O Cavaleiro das Trevas e dizer onde acho que erramos com o Coringa.

Ledger como Coringa em 2008 foi cativante e convidou a um fascínio especial por um personagem mergulhado na loucura e no mal. No Coringa, os dois sempre foram sinônimos, como se a doença mental não tivesse outra saída senão maldade, mas Ledger se perdeu no personagem, desaparecendo tão completamente que o homem real dificilmente é discernível sob a fachada – se é que existe. Sua performance é tão emocionante quanto enervante, e foi o último projeto concluído de Ledger antes de sua morte prematura e trágica, um papel pelo qual ele ganhou um Oscar postumamente. Como o Coringa, Ledger é a estrela incontestada desse filme. Mas o Coringa de Ledger não é o herói, nem o anti-herói de O Cavaleiro das Trevas – o Coringa é o vilão, um antagonista da mais alta ordem.

Pelo menos ele deveria ser.

No entanto, assim como o Satanás de Milton, o Coringa de Ledger pode ter sido um pouco fascinante, um pouco sedutor. Gostei de O Cavaleiro das Trevas e, por um longo tempo, me apeguei à esperança de que a nossa experiência naquele cinema fosse isolada – que certamente a resposta generalizada ao papel convincente de Heath Ledger como Coringa fosse menos um fascínio apaixonado por sua maldade e mais uma justa repulsa. Mas eu era professora na época e, à medida que o filme continuava sendo exibido no cinema, observei em meus alunos adolescentes uma reação ao filme repleta de adoração pelo Coringa. Em minha mente, O Cavaleiro das Trevas foi um ótimo filme de super-herói porque mostrou a depravação desesperada do mal supremo e retratou como um herói como o Batman de Christian Bale pode até ter que assumir a culpa pelos pecados que não cometeu em si mesmo para salvar os outros. Mas quanto mais eu insistia que a história era sobre Batman como o Cavaleiro das Trevas, mais eu ouvia outros elogiando o Coringa por uma performance tão emocionante que fazia o Batman quase desaparecer. O Coringa de Ledger era o vilão, mas, aos olhos de muitos, ele se tornou um personagem digno de elogios.

O que perdura em O Cavaleiro das Trevas é o desempenho de Ledger como Coringa. Já vi o filme várias vezes desde o lançamento no cinema e não há mais nenhuma dúvida em minha mente em relação a isso. O filme me convida a um fascínio por Ledger como Coringa. Simplificando, é um filme divertido de assistir. A loucura do Coringa é um entretenimento. Eu me apego a um desejo de torcer pelo herói, mas, no meu coração, sou cativada pelo vilão, que é a verdadeira estrela do show. Não faço ideia se, como Milton, Christopher Nolan involuntariamente criou um Satanás tão convincente, mas não há como negar seu poder. Às vezes, as pessoas simplesmente se superam; às vezes, a cena é roubada e isso não é culpa ou intenção dos contadores de histórias ou de outros personagens e atores. Mas, acho que há uma pergunta importante que devemos fazer nas histórias em que o vilão ofusca o herói: de quem é a história?

Quando determinamos qual história está sendo contada, determinamos por quem nos simpatizaremos – por quem sentiremos empatia. Quando o público se simpatiza com o vilão, como no caso de Paraíso Perdido, o vilão se torna mais importante que o herói e seus objetivos não parecem tão ruins, afinal, não importa o que o vilão faça para alcançá-los. Tudo pode ser justificado em tais histórias. Empatia é uma marca do nosso estado natural. Quando os contadores de histórias incentivam a empatia por um personagem maligno, mostrando que o mal é realmente bom, engraçado, irreverente ou fascinante, isso é uma forma de manipulação que chega próximo de ser gaslighting.[1] O que você está vendo não é tão ruim. “Por que está tão sério?”

“Por que está tão sério?” É uma pergunta retórica – o Coringa de Ledger gosta de perguntar às suas vítimas e àqueles que se opõem a ele durante momentos tensos e cruciais em O Cavaleiro das Trevas, geralmente quando ele está envolvido em algum ato de tortura ou assassinato. Devemos ver a ironia na pergunta; devemos entender sua maldade. Mas a repetição de seu refrão adiciona uma camada de leviandade aos momentos em que o público deve ser cativado pelo horror.

Essas coisas não são motivo de riso, mas o Coringa ri, e a história convida o público a rir também. “Por que está tão sério?” Risos quando um hospital explode. “Vamos colocar um sorriso nesse rosto.” Ou, talvez, como a nova interpretação do Coringa promete agora: “Traga os palhaços.” Talvez o Coringa tenha sido incompreendido o tempo todo. Se o Coringa foi levado à loucura pelas circunstâncias e, portanto, na loucura faz coisas más, ele realmente não pode ser responsabilizado por suas ações. Tal Coringa nem precisa de um Batman para se opor a ele. Ele brinca demais com nossas simpatias para isso.

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Eu não sei exatamente que tipo de história o novo filme do Coringa terá, mas com base no trailer, algumas coisas parecem claras. A performance de Joaquin Phoenix será tão notável quanto a de Heath Ledger, e o filme terá sucesso por causa disso. Ele já ganhou o Leão de Ouro no Festival de Veneza – uma conquista tão incomum para um filme de quadrinhos quanto foi para Heath Ledger ter ganhado um Oscar em 2009 por interpretar o personagem. No que diz respeito à história, o trailer e a sinopse do enredo indicam que Arthur Fleck – como essa versão da identidade alternativa do personagem titular é nomeada –é um solitário na sociedade. O trailer mostra ele tentando se encaixar, fazer terapia, se apaixonar, tentando ser gentil com as pessoas e fazer um trabalho servil como palhaço de calçada. As coisas parecem se deslocar quando a terapeuta diz que não pode mais se encontrar com ele, e como ele é repetidamente intimidado nas ruas. Pelo menos uma cena mostra-o sentado ao lado da mãe inválida no hospital, e ele é ridicularizado abertamente por um comediante que admira na televisão. Ele se encontra vulnerável e exposto – figurativa e literalmente – no espaço de um trailer de dois minutos, e não podemos deixar de sentir simpatia por ele, mesmo quando rajadas maníacas de risada escapam de seus lábios. Mesmo quando o trailer salta para um clipe do Coringa em que ele possivelmente comete um assassinato num beco.

A sinopse oficial do enredo da Warner Brothers diz que Coringa é um “conto preventivo mais amplo”, mas esse é o tipo de “conto preventivo” que corre o risco de produzir aquilo contra o qual nos adverte. Embora valha a pena pedir empatia cultural e pedir que examinemos o que devemos uns aos outros, é perigoso fazer isso sugerindo que a sociedade cria assassinos em massa por falta de empatia. Essa história não apenas transfere a responsabilidade pelo pecado do indivíduo para as vítimas, mas também lança os próprios perpetradores como vítimas. Se a moral da história é que os jovens perdidos podem se sentir compelidos pelo tratamento da sociedade a fazer coisas terríveis e tóxicas, não se deve pegar um jovem perdido e transformá-lo em um assassino e em uma estrela irresistível de sua própria história, o próprio herói. Minha preocupação é que, em Coringa, a Warner Brothers tenha produzido uma história de origem de vilão sem nenhum herói. Assim, o vilão se torna o herói e a vilania é normalizada, ou pior, se torna algo com o qual o público pode ter empatia.

Se o trailer é confiável, Coringa nos incentiva a ver o retrato de Phoenix do Coringa – e sua queda na loucura – como um passo para a autorrealização. À medida que Arthur Fleck cai, ele sobe e, por ficar sozinho e sem oposição, somos convidados a nos fascinar com sua jornada. O problema não é que o filme seja sobre ele ou que ele tenha a capacidade de carregar o personagem com tanta desenvoltura, mas sim que não há luz para ser lançada contra sua escuridão. Na ausência de um herói, o vilão se torna o herói. Na ausência de um protagonista, o antagonista desempenhará esse papel.

Eu acho que somos fascinados por esses personagens e essas histórias porque, no fundo, temos medo de que exista uma natureza tão depravada como a que estamos vendo na tela do cinema. Gosto exige simpatia e, às vezes, nos vemos no pior dos pecadores e nos perguntamos o que nos levaria (ou poderia nos levar) à maldade. As únicas coisas que nos fascinam são aquelas que, no fundo, nutrimos um carinho. É isso que torna os Coringas de Ledger e Phoenix tão perigosos: eles são como o Satanás de Milton, convidando-nos a vê-los como heróis de histórias que nunca pretendiam ser sobre eles e convidando-nos a amar o pecado que devemos odiar.

Esse tipo de narrativa é irresponsável em qualquer época, mas não estamos vivendo em qualquer época. Estamos vivendo em um pós-O Cavaleiro das Trevas, uma época de gravação pós-aurora do cinema. Vivemos em uma época em que há muitos jovens à deriva, procurando significado, identidade e pertencimento. Não queremos que eles encontrem esse significado em histórias que refletem versões de si mesmas em conflitos de heroísmo e vilania. Precisamos de histórias que descrevam o mal, e precisamos de atores habilidosos para retratar personagens perversos. O que não precisamos é contar histórias que tornem esse mal empático, heroico ou tão fascinante que subverte toda a bondade. Quando aplaudimos personagens como o Coringa – que são totalmente maus – enviamos a mensagem de que o mal talvez não seja mau, mas apenas diferente. Além disso, um fascínio pela maldade não é sábio nem bom, e qualquer história que diga que o resultado final do quebrantamento seja uma loucura ou que loucura e maldade sejam necessariamente sinônimos, é uma história ruim.

Em razão do perigo inerente a essas histórias, qualquer um que optar por se envolver nelas deve fazê-lo com discernimento. Muitos anos antes de Joaquin Phoenix ou Heath Ledger usarem maquiagem de palhaço, Jack Nicholson retratou o icônico vilão nas telonas em 1989 para Batman, de Tim Burton. O Coringa de Nicholson também tem um slogan. Antes de assassinar pessoas, ele gosta de perguntar: “Você já dançou com o diabo sob a pálida luz do luar?” Ele nunca explica a expressão além de dizer que “apenas gosta de como ela soa” – uma devassidão que é típica do personagem – mas eu me vi refletindo sobre a questão à luz do próximo lançamento de Coringa. Dançar com o diabo, com Satanás, que é totalmente mau, é convidar um perigo conhecido para uma posição de intimidade com você. É estar fascinado pelo mal, ser romanceado por ele. Quando contamos histórias em que o vilão é o herói, convidamos o diabo para uma dança e pensamos que ninguém vai se queimar. Mas as histórias e os personagens que as habitam afetam a todos nós. Se você vai dançar com o diabo, lembre-se de que ele é o diabo.

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[1] Nota do tradutor: Gaslighting ou gas-lighting é uma forma de abuso psicológico no qual informações são distorcidas, seletivamente omitidas para favorecer o abusador ou simplesmente inventadas com a intenção de fazer a vítima duvidar de sua própria memóriapercepção e sanidade. Casos de gaslighting podem variar da simples negação por parte do agressor de que incidentes abusivos anteriores já ocorreram, até a realização de eventos bizarros pelo abusador com a intenção de desorientar a vítima. O termo deve a sua origem à peça teatral Gas Light e às suas adaptações para o cinema, quando então a palavra popularizou-se. O termo também tem sido utilizado na literatura clínica. Fonte: Wikipedia.

Traduzido e revisado por Jonathan Silveira.

Texto original: Dancing with Milton’s Satan: The Joker and a Fascination with Evil. Christ and Pop Culture.

K. B. Hoyle é uma escritora premiada, palestrante, e foi professora de educação clássica. Ela e seu marido têm quatro filhos. Saiba mais sobre ela e seus livros em kbhoyle.com.

24 Comentários

  1. Maria Inês disse:

    Não li sobre p filme Coringa, mas acho um pouco exagerado essa análise. Afinal todo criminoso é um ser humano, é algo aconteceu na sua vida para se tornar mal. Normalmente essas histórias querem mostrar as consequências sociais do preconceito, discriminacao, bullying, etc. Não existe a personificação do mal, pelo menos não no nosso mundo real.

    • CARLOS LOUREIRO disse:

      Maria Inês vc está equivocada!
      A ocasião faz o roubo o ladrão já nasce pronto.
      Espero que vc entenda.

  2. Ellen disse:

    Ok.
    Mas não existem vilões no mundo real, assim como não exitem heróis. Existem apenas pessoas que podem se comportar bem ou mal em certos momentos e por diversas razões. Não há nada que justifique o mal, mas o mal não é uma pessoa. Humanizar um vilão é tão importante quanto humanizar um herói. É justamente por serem humanos que nos identificamos com ambos.
    Nos dias hoje em que as pessoas criam heróis para si, e consequentemente, vilões que são o próprio mal encarnado, acho importante a lembrança de que as pessoas não sao binárias.

    • Querida, penso estar te faltando um pouco de “mundo real”. Assistir “O silêncio dos Inocentes” pode ajudar você a descobrir, por exemplo, que o mal é uma pessoa e que, sim, há vilões no mundo real.

    • Fabricio Sampai disse:

      Diz isso para o Anti-Cristo e o espírito do anti-cristo que permeia desde o início dos tempos. Ok?

  3. Ageu Magalhães disse:

    Excelente análise. Nesta época de desconstrucionismo, a inversão dos valores é sempre exaltada. Mas “Ai dos que ao mal chamam bem e ao bem, mal; que fazem da escuridade luz e da luz, escuridade…” (Is 5.20)

  4. Muito boa reflexão que traduz um pouco do meu incômodo com essa história. É claro a intenção de mostrar o vilão de uma perspectiva suave, de modo que a platéia vai aos poucos nutrindo simpatia por ele sem se dar conta. É o vilão dizendo: “Se você olhar com meus olhos, verá que não sou mau”. “Se você entender minhas razões, verá que tenho razão”. “Se você caminhar um pouco comigo, irá gostar de mim”. Isso é relativismo moral. É sedutor porque, ao mesmo tempo em que desculpa o vilão, desculpa a nós também.

    • Manoel Junior disse:

      Isso me lembra outro filme com o Coringa: Esquadrão Suicida. Onde a Doutora Harleen Quinzel, psiquiatra do Coringa, “danç[a] muito tempo com o Diabo”, enlouquece e transforma-se na vilã Arlequina. Nas palavras da Amanda Waller (outra personagem do filme): ‘Ela pensou que estava curando ele, mas estava se apaixonando por ele’.

      A vileza é sedutora porque podemos ser tão maus, senão pior, que qualquer vilão.

      Só a Graça de Deus para nos salvar!

      Por mais histórias onde o bem vence o mal, a sanidade vence a loucura e o guerreiro vence o dragão.

  5. Manoel Junior disse:

    “Os antigos contos de fadas têm como herói um ser humano normal: suas aventuras é que são impressionantes e impressionam-nos exatamente porque tratam de um ser normal. Mas, no moderno romance psicológico, o herói é anormal: o centro não é central. Nessas condições, as mais terríveis aventuras deixam de afetá-lo devidamente, e o livro torna-se monótono. Pode-se escrever uma história de um herói entre dragões, mas não uma história de um dragão entre dragões. O conto de fadas aborda aquilo que um homem ‘são’ fará em um mundo louco: o romance realista, com toda a sua sobriedade, mostra-nos o que um indivíduo essencialmente lunático fará em um mundo estúpido”. CHESTERTON, G. K. Ortodoxia.

    (https://www.sociedadechestertonbrasil.org/a-douta-imaginacao-e-a-louca-imaginacao/#_ftn13)

  6. William Rodrigues Alves disse:

    Excelente texto!!! O mal, já não é tão mal assim!!

  7. Sandra disse:

    Sempre assisto a esses filmes com meus filhos. No final, tenho o cuidado de aparar as arestas! Mas, as vezes, eles dizem que estraguei a história. É porque não prestam atenção a essas sutilezas, porém não desisto e faço a minha parte. Agora estou em dúvida se deixarei assistirem ao Coringa!

  8. Lucas Silvestre Pereira disse:

    Contos de heróis fascinam o coração de quem lê. O bem vencendo o mal, a justiça superando as trevas, isso me cativa.
    Dizer que a análise é exagerada e não toca o mundo real é deixar de lado o poder imaginativo do ser humano. Nós somos moldados pelo que nos fascina, certamente alguém que aplaude o vilão possui um desejo intrínseco de amor pelo mal. Todavia, o que clama ao herói a redenção, anseia pela redenção do lado de cá; em qualquer esfera.

  9. Samara Geske disse:

    Excelente análise! Como a autora menciona no início de seu texto o Paraíso Perdido de Milton, gostaria apenas de mencionar como o personagem criado pelo poeta teve consequências concretas para a construção da cultura moderna atravessando o tempo e chegando até nós hoje em forma de filmes como o Coringa. Por muito tempo, a imagética medieval retratou Satanás como uma besta chifruda e horrenda. É somente com o Romantismo que Satanás se transformará nesta figura trágica, humanizada, poderíamos dizer, duplo dos poetas “malditos” como Rimbaud e Baudelaire, que escreveram respectivamente “Uma estação no inferno” e “Litanias de Satã”. O Satanás de Milton, no qual se inspiraram os poetas românticos, é um anjo infeliz e desesperado, que se sente como um pária, um marginalizado, um maldito, imagem que os poetas logo arrogaram para si mesmos. Com o Romantismo, podemos dizer que o “mal” e o “diabo” foram “romantizados”. Não custa lembrar também que no Romantismo, tanto na Europa quanto no Brasil, tivemos também uma “romantização” da morte na juventude, da doença e da melancolia. Enfim, como a autora nos lembra, tiraram o diabo para dançar e ele está ainda dançando por aí sem parar…

  10. Paola Barros disse:

    Não assisti ao filme novo do Coringa e, por isso, não posso opinar. Mas devo dizer sim que O Cavaleiro das Trevas é uma obra prima do cinema, que causa emoções e confronta o telespectador como a muito tempo não acontecia. Só tem um problemão nesse textão todo: o vilão não causa empatia! Ninguém em sã consciência gostou do Coringa do Heath Legder e quis sair imitando, nenhuma criancinha ainda em ser o Coringa quando crescer. O Batman continua sendo O Batman mesmo após esse filme. O que embasbacou e causou comoção geral foi a atuação de um jovem ator criticado por sua escolha para um papel tão icônico que o desempenhou de uma forma jamais vista. Não tem como não se empatizar com um ator, esposo e pai que morreu de forma tão trágica tão precocemente. Tão promissor e, ao mesmo tempo, tão perdido. Tão perfeito em sua atuação que chegamos a nos perguntar até que ponto o próprio Coringa não foi responsável por tal tragédia. Não houve uma romantização do personagem, mesmo porque em nenhum momento o filme nos conta sua real história, foi simplesmente uma atuação brilhante, assustadora, confusa, repulsiva, engraçada, tão natural e espontânea que suscitou nós fãs dos quadrinhos a sensação de “Era isso que o Coringa sempre deveria ter sido, um completo louco. Por que nunca fizeram isso?!” Concluindo, tudo que escrevi é para dizer que não, ninguém riu de um hospital cheio de inocentes sendo explodido, todo mundo riu do alívio cômico, artifício usado comumente, que o ator, de forma genial, o fez espontaneamente, fora do roteiro, digno de Palmas e de reconhecimento sim. Parem de demonizar tudo. O cinema carece de obras densas com boas atuações que elvem as pessoas a reflexão. E não, não estou relativizando nada, antes que digam. E não, não faz sentido cutucar as pessoas dizendo que o herói é o outro cara do filme, o foco não é esse. O que realmente aconteceu foi algo semelhante ao fenômeno Marvel: nunca ninguém tinha visto algo parecido e tão bem executado. Só isso.

    • Hamsés Sousa Cunha disse:

      Desculpe-me discordar de você minha querida, mas um rapaz nos Estados Unidos, de cabelos pintados cometeu um ato terrorista alegando ser o Coringa. Existe sim, influência do mundo imaginário no comportamento das pessoas, principalmente aquelas que não têm seus valores muito bem cristalizados

  11. Davi de Campos Munhoz disse:

    Excelente análise! Mostra o discernimento que quem está na luz deve ter. Para quem não acredita que haja vilões, basta relembrar as notícias policiais da última semana – marido mata esposa e a esconde na geladeira de casa, viaja para SP e ao se deparar com policiais que queriam socorrê-lo numa batida, toma a arma do tenente de 30 anos e o mata, além de ferir outras pessoas. menino de 12 anos mata e desfigura colega de escola, que é encontrada pendurada numa árvore. A coisa está cada vez mais assustadora!!! Esse tipo de cosmovisão apresentados nos filmes que nossos jovens devoram, é um dos gatilhos da alta criminalidade e alto número de jovens suicidando-se. Vivemos dias em que muitas pessoas, e infelizmente muitos cristãos desavisados , estão sendo enganadas pela antiga serpente. A análise é brilhante!

  12. Hamsés Sousa Cunha disse:

    Estou pasmo! Escrevi um texto esta semana e postei no Facebook, exatamente abordando esse tema. E agora, encontro essa preciosidade de artigo. A seguir, o meu texto, afim de comparação.

    https://m.facebook.com/story.php?story_fbid=10214539702624229&id=1170728625
    A “SÍNDROME DO CORINGA”
    Está acontecendo!!! Bem aqui!!! Bem agora!!! Está aí, diante dos seus olhos!!! Você não está vendo?! Não sabe?! Não percebe?! Está perguntando “o que”?! Não está entendendo nada?! Abra os olhos!!!
    Estou falando da completa, articulada, tramada e escandalosa inversão de valores.
    Explico…
    Me lembro de um tempo, quando eu era só um menino, ainda nos anos 80 e 90, aqui no interior de Minas Gerais; em que minha geração ainda admirava os heróis. E quando digo heróis, hoje, tenho que explicar que tipo de heróis, ou o conceito de “herói”. Houve um tempo em que o herói era o “mocinho”; ou seja, o contrário de “bandido”. Houve um tempo em que nossa cultura exaltava o ideal do herói, íntegro, honesto, que luta pelo bem contra o mal (e os conceitos de bem e mal eram bem definidos e distintos), apesar dos maus exemplos que apareciam aqui e ali. Houve um tempo em que se admirava o Superman por sua ética, por falar a verdade, por ser um referencial de hombridade, de justiça, de integridade e honestidade. Até o Batman era correto no que fazia, e tinha ética, fazendo dupla com o Robin. Os bandidos, nós os rechaçávamos! Ainda que lá no fundo nós tínhamos um impulso para o mal; ainda que nas brincadeiras de polícia e ladrão, alguns de nós vibrávamos em ser os bandidos fora da lei, correndo e fugindo; ainda sim, tínhamos a consciência de que isso pertencia ao mundo da imaginação; e que seria inaceitável essa conduta na vida real. Ninguém, em sã consciência, admirava personagens como Lex Luthor, Coringa, Esqueleto, Darth Vader. Éramos fãs do Homem de Aço, Heman, Batman, e Luke Skywalker. Estes eram referência do bem, e somente o bem, em seu conceito mais verdadeiro e genuíno. Mas o tempo passou. E eu, hoje beirando aos 40, presencio ao que vou chamar de a “SÍNDROME DO CORINGA”. O que significa isso? Significa que eu assisti ao processo de inversão completa dos valores. Explico melhor! Primeiro, o “herói” foi desconstruído. A cultura midiática, influenciada, é claro, por ideologias completamente aversas aos valores da moral judaico-cristã, foi mudando aos poucos o conceito de “herói”. Aos poucos esse herói foi entrando em crise, e mudando seu comportamento; cedendo em um valor aqui e outro ali; abrindo mão de princípios que nele antes eram cristalizados. Daí surge o conceito de “anti-herói”. Veja que ele ainda não é o “vilão”, mas um herói que não é “tão perfeitinho” assim; que comete um deslize moral de vez em quando. Que passa a relativizar sua ética para atingir aos resultados esperados. Que para se fazer “justiça”, acaba se tornando um “justiceiro”; que não se dá tão bem com a lei. Mas ainda assim, ele estava punindo os “vilões” da história. É verdade que já existiam anti-heróis na literatura e na cultura pop como Robin Hood, o Justiceiro, Demolidor, e rebeldes sem causa como Han Solo, que já encantavam a muitos. Mas essa mudança ficou muito bem emplacada num dos maiores filmes da cultura pop, um dos grandes campeões de bilheteria, “Batman, o Cavaleiro das Trevas”. Já no título da trama, vemos o antagonismo. Pois “cavaleiro” trazia anteriormente um certo conceito de honra; e dificilmente, há algumas décadas atrás, seria aceitável chamar um herói de “cavaleiro das trevas”. Em meu tempo de criança, os heróis seriam os “Cavaleiros da Luz”. Mas não pára aí o problema e a transformação cultural. No filme em questão, surge de forma emblemática a figura do “Coringa”, interpretado pelo emblemático ator Heath Ledger. Simplesmente o Coringa, que é o “vilão” da trama, rouba a cena. E de tal forma foi a sua atuação, é claro, orquestrada por alguém que construiu aquele enredo, que o Coringa meio que obriga o Batman a adotar posturas nada corretas; e Batman e Coringa se confundem. Ali já estava perfeitamente cristalizado no personagem do Homem Morcego o conceito de anti-herói que vinha sendo construído ao longo dos anos. Conceito esse que passou a habitar o imaginário e admiração de toda uma geração de jovens, adolescentes, e também muitos adultos. Vieram então muitos outros anti-heróis seguindo essa esteira que fizeram sucesso como Deadpool, e tantos outros, que, mesmo sendo chamados de “heróis”, eram rebeldes, e praticantes normais de desobediência civil. Até o Superman, em de seus últimos filmes, matou alguém um vilão violentamente quebrando seu pescoço, o que me chocou, pois o Superman sempre prezou pela vida, até dos vilões. Filmes como Velozes e Furiosos, que enaltecem a chamada “vida louca”, passaram a ser os preferidos, com seus personagens principais, ou seja, os protagonistas, que em minha opinião, fica até difícil de chamá-los de heróis. Contudo, não é aqui o fim dessa história e desse texto. O ponto onde quero chegar é que o processo de desconstrução do herói e tudo aquilo que ele simbolizava continuou. E agora nós chegamos a um novo patamar. Onde não mais os heróis ou anti-heróis são os protagonistas. Um coisa que pertencia apenas aos filmes de terror passou a ser normativo. Ou seja, chegou a hora e a vez dos VILÕES. Isso mesmo!!! Os vilões agora são os protagonistas. Mas, pior que estarem em evidência, é o fato de que eles passaram a ser admirados. Sim!!! Chegamos ao tempo em que os vilões são justificados em sua vilania. Onde os heróis passaram a ser os “maus”, e os maus passaram a ser conceitualmente “bons”. As pessoas passaram a se identificar com a vilania. Seus impulsos e práticas antes reprimidas agora encontram um espaço socialmente aceitável para se manifestar. Essa é a “Síndrome do Coringa” à qual quero me referir. Chegamos ao momento em que o personagem perturbado, louco, totalmente depravdo do “Coringa” é aplaudido de pé nas salas do cinema. Mas não pela mera atuação de Joaquin Phoenix – diga-se de passagem, muito boa – mas porque é isso o que as pessoas querem ser. O Coringa é a encarnação de grande parte de membros de uma sociedade adoecida. Não é à toa, que um jovem, de cabelos pintados nós EUA cometeu um ato de terrorismo alegando ser exatamente o Coringa. A réplica desta história está bem representada nos filmes, onde o bandido rouba, trapaceia e o telespectador torce por ele. É o retrato da Cleptocracia de nossos tempos. Da Bandidolatria imperante de nossos dias. Em que os “atores” reais, não os da ficção, exaltam e praticam delitos de forma imoral e desarvegonhada. Onde criminosos são aclamados como vítimas; juízes, governantes e autoridades aprovam, promovem e até praticam o ilícito; legitimam costumes e valores outrora reconhecidos como completamente errados. Valores como Deus, a fé, família, castidade, racionalidade, sobriedade, honestidade, foram simplesmente abolidos da nova sociedade que surge. Os admirados passaram a ser os ladrões, os rebeldes, o adúlteros, os depravados, os violentos. Opta-se agora por um comportamento “rebelde” ou indisciplinado para atrair simpatia, e o pior, obtém sucesso, tornam-se os vencedores. Porque se mostraram “maus”, agressivos ou impetuosos atraíram afeto e admiração. Por isso, na política, vemos temas como liberação das drogas, aborto, relativização do conceito de família, flexibilidade nas condenações, ganharem legitimização e tudo aquilo o que se chamávamos outrora de “bons costumes”, passaram a ser “tabus” a serem superados. Restanos aqui por tanto algumas reflexões:
    Onde tudo isso vai parar?
    Onde queremos chegar enquanto sociedade?
    Temos consciência de que vamos prestar contas a Deus de tudo o que estamos fazendo?
    Desejamos frear toda essa revolução cultural e nos submetermos novamente à vontade de Deus e seu ideal de sociedade e seus valores eternos?
    Vamos defender aquilo o que é bom, louvável?
    Ou mudamos? Já fomos absorvidos? Nos acomodamos?
    Será que ainda temos coragem de lutar pelo bem? Ou já nos rendemos ao mal?
    Será que você que chegou até aqui nesse texto poderia admitir que possui a SÍNDROME DO CORINGA? Você é dos que exaltam o mal, ou dos que defendem os bons e velhos valores?
    Se, indisciplina e rebeldia geram simpatia, o que pensar dos que prezam a disciplina e subordinação?
    Rui Barbosa, o saudoso, já nos alertou sobre esse tempo:
    “De tanto ver triunfar as nulidades; de tanto ver prosperar a desonra, de tanto ver crescer a injustiça. De tanto ver agigantarem-se os poderes nas mãos dos maus, o homem chega a desanimar-se da virtude, a rir-se da honra e a ter vergonha de ser honesto”.
    Mas o maior de todos os alertas vem da Palavra de Deus, por boca do profeta:
    “Ai dos que chamam ao mal bem e ao bem, mal, que fazem das trevas luz e da luz, trevas, do amargo, doce e do doce, amargo… dos que por suborno absolvem o culpado, mas negam justiça ao inocente! Por isso, assim como a palha é consumida pelo fogo e o restolho é devorado pelas chamas, assim também as suas raízes apodrecerão e as suas flores, como pó, serão levadas pelo vento; pois rejeitaram a lei do Senhor dos Exércitos, desprezaram a palavra do Santo de Israel.”
    Isaías 5:20‭, ‬23‭-‬24 NVI
    Se você admira o Coringa, esteja preparado para encontrar-se com o Todo-Poderoso. Ele me dá a certeza de que o mal nunca vencerá o bem!!!

    Hamsés Sousa Cunha

  13. Joaline Melo disse:

    Alguém duvida que esses filmes são trazidos do inferno para modelar e cativar mentes? O que muito me entristece é ver que as pessoas passam horas a fio vendo filmes e séries e não se dedicam ao estudo e oração. “Eu prefiro ter a velha opinião ( Bíblia) formada sobre tudo do que ser a metamorfose ambulante” Bora vigiar e orar meu povo, porque ” Vai Alta a noite e vem chegando o Dia”

  14. Gaivota disse:

    Sou mãe de um adolescente e tenho visto tudo isto … como que aos poucos , a cada filme, a cada cena as emoções – o horror diante de maldades vai decrescendo. “Se costuma” … meu Deus é impressionante se não conhecesse um pouco do que é o mal no homem :pecado. Não poderia entender o texto. Tenho buscado sempre ensinar comentando , explicando a cada filme . É claro a palavra bendita do nosso Senhor e concluo com e, como oro pelo meu filho : Senhor meu Deus somente tua Graça pode salvar pecadores como nós … Salva meu filho … todos os dias o EVANGELHO DA PODEROSA GRAÇA … uma mãe !!!

  15. renato graciano filho disse:

    Muito bom ,porém longo de mais, repetindo as mesmas palavras com entonação diferente, parei de ler no meio, típico de escritor que quer segurar o leitor em sua leitura, para ser bom tem que fazer pensar ,não é o tamanho do testo que vai segurar o leitor, e quanto a maldade, ela esta na alma do homem não a explicação

  16. Lucas Silva dos Santos disse:

    A armadilha do Coringa não é só a fascinação pelo mal, mas pior, fazer pensar que podemos nos colocar além do bem e do mal. Fazer pensar que podemos ir além daquilo que somos, homens.

  17. Impressionante como a estratégia do mal é eficiente para convencer as pessoas do que é errado, mascarando a injustiça e legitimando a crueldade.

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