Débora, uma governante virtuosa | Timothy Keller

Com a morte de Eúde no livro de Juízes, “os israelitas voltaram a fazer o que era mau aos olhos do Senhor” (4.1). O ciclo começa novamente, com Israel sob os calcanhares de Jabim, rei de Canaã (v. 2) — um governante que nem mesmo estaria nessa posição, se Israel tivesse confiado em Deus e lhe obedecido completamente. O instrumento opressor mais importante de Jabim é Sísera, comandante de seu exército, que tem “novecentos carros de guerra” (as smartbombs — bombas inteligentes — e os drones — veículos aéreos não tripulados — da época) a seu dispor (v. 3). A opressão agora é maior do que a imposta por Cushã-Risataim ou Eglom; ela se caracteriza pela “crueldade” e dura vinte anos (v. 3). Então os israelitas “clamaram ao Senhor”.

Entra em cena “a profetisa Débora” (v. 4). Como profetisa, ela prega e ensina a palavra de Deus (vemos isso acontecer no v. 6: “O Senhor, Deus de Israel, te ordena…”). E Débora “julgava Israel” (v. 4), ou seja, “dava audiências”. Não era o tipo de audiência dada por rainhas; era um tribunal de justiça, e os israelitas a procuravam para que “julgasse suas questões” (v. 5). É óbvio que Débora era reconhecida como conselheira e juíza sábia, e os israelitas a procuravam em busca de solução para todos os tipos de pendengas sociais, legais e relacionais.

Nesse aspecto, Débora é bem diferente de todos os outros juízes, antes e depois dela. Débora liderou com sabedoria e caráter, e não pela força bruta. Enquanto Otoniel “foi à guerra” (3.10) e Eúde maquinou assassinato (3.16), Débora aconselhou e guiou o povo. Ela ficou mais próxima de ser uma líder virtuosa de seu povo do que simplesmente uma comandante militar. Foi uma juíza que liderou além do campo de batalha. Tudo isso serve para nos lembrar de que o líder escolhido por Deus não apenas resgata, mas também governa. Nesse sentido, Débora foi a maior antecipação da monarquia e até de Cristo, que pode sustentar o governo em seus ombros e é chamado “Maravilhoso Conselheiro […], Príncipe da Paz […], para estabelecer e firmar [seu reino] em retidão e em justiça…” (Is 9.6,7).

Um libertador virtuoso

Na verdade, Débora não é uma guerreira (diferentemente dos outros juízes). Não é a pessoa que, na força de Deus, resgata Israel ao derrotar seus opressores. Ao contrário, “ela mandou chamar Baraque” (Jz 4.6) e passou a ordem de Deus para ele. É Baraque quem tem de conduzir dez mil homens ao monte Tabor (v. 6) e é a ele que Deus dá a vitória sobre Sísera (v. 7).

O juiz não será o libertador, e o libertador não é o juiz. Como mostram os versículos 17-21, nem Débora nem Baraque terão a honra de acabar com o principal inimigo de seu povo, Sísera. Em todos os outros casos, de Otoniel a Sansão, existe somente um “herói” humano. Aqui, existem três. E o cântico do capí­tulo 5 mostra quem deve receber a glória suprema: não uma, duas ou três pessoas usadas por Deus (embora seja uma bênção receber tal privilégio, 5.24); a glória é do Senhor, que trabalha por meio de quem ele escolhe para resgatar e liderar seu povo.

A resposta de Baraque ao chamado de Deus por intermé­dio de Débora e a resposta de Débora a Baraque têm sido entendidas de duas maneiras; uma, a respeito de Baraque, mais pessimista e outra mais otimista.

1. Na visão mais pessimista, Baraque exibe grande falta de fé ao pedir para Débora ir com ele, recusando-se a ir sem ela (4.8). Essa perspectiva é refletida pela tradução da NIV [e NVI] do versículo 9: Débora concorda em ir, porém avisa: “… saiba que, por causa do seu modo de agir [ou seja, re­cusar-se a confiar em Deus e obedecer-lhe], a honra não será sua; porque o Senhor entregará Sísera nas mãos de uma mulher…”. Baraque reúne as tropas e prepara-se para lutar, mas somente porque Débora está com ele (v. 9,10). É só no versículo 14 — depois de Sísera ter reunido sua maravilhosa máquina de guerra (v. 12,13) e de Débora ter dito mais uma vez a Baraque: “Vá! Este é o dia em que o Senhor entregou Sísera em suas mãos. O Senhor já não foi à sua frente?” — que Baraque avança para o mon­te Tabor com os seus homens. É apenas nessa altura dos acontecimentos que ele exibe a fé pela qual é elogiado em Hebreus 11.32. Portanto, a retenção da honra em Juízes 4.9 é uma reprimenda a Baraque por sua falta de obediência e fé radical em Deus, no versículo 8.

2. A visão mais otimista se apoia no fato de que o hebraico no versículo 9 também pode ser traduzido por: “Na expedi­ção que você vai realizar, a honra não será sua…” (cf. a nota da NIV/NVI). Portanto, Débora não está repreendendo Baraque, mas simplesmente dizendo que, embora tenha de subir o monte e enfrentar as garras de novecentos carros de ferro, ele não será honrado por isso! Essa é uma afirmação profética do fato, não um veredicto sobre sua fé.

Nessa segunda perspectiva, à qual sou favorável, Baraque é he­rói e exemplo de fé não apenas no versículo 14, mas no evento inteiro. O pedido para que Débora vá com ele não é deso­bediência; é reconhecimento de Débora como uma mulher virtuosa que fala as palavras de Deus. Por que Baraque não iria querer Débora a seu lado?! Portanto, em primeiro lugar, Baraque mostra que ter fé é ouvir a Deus em cada estágio e circunstância da vida.

Segundo, ter fé é mostrar coragem diante das situações mais sombrias, do ponto de vista humano. Um carro de ferro atra­vessava um batalhão de soldados a pé como uma faca quente atravessa uma barra de manteiga. Novecentos carros derruba­riam dez mil soldados à medida que avançassem. Mesmo assim, Baraque luta.

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Terceiro, ter fé é ser humilde e não buscar honra. Baraque obedece a Deus e conduz seus homens ao monte Tabor, sabendo que a vitória será atribuída a outra pessoa e que ele não será líder dos israelitas. Em sua fé, Baraque prenuncia o maravilhoso Libertador, que, embora existisse em forma de Deus (o perfeito Juiz, diferente de Baraque), mesmo assim “não considerou o fato de ser igual a Deus algo a que devesse se apegar, mas, pelo contrário, esvaziou a si mesmo […] humilhou a si mesmo, sendo obediente até a morte, e morte de cruz”! (Fp 2.6-8).

No monte Tabor, quando o servo obediente de Deus luta contra um inimigo que parece ter todos os trunfos nas mãos (novecentos deles), “o Senhor derrotou Sísera e todos os seus carros […] ao fio da espada” (Jz 4.15). O exército de Baraque não era páreo para o exército de Sísera, e Sísera não era páreo para Deus! Sísera, tão confiante em seus carros, abandona seus solda­dos (v. 15), e todo o seu exército “caiu ao fio da espada” (v. 16). A vitória está quase completa; tudo o que falta é Baraque alcançar o fujão Sísera. Mas, quando o alcançar, Sísera já estará morto.

Débora e o ministério feminino

Antes de chegarmos ao fim sangrento de Sísera, vamos fazer uma pausa e falar sobre a liderança feminina, porque obvia­mente a carreira de Débora nos leva a refletir sobre o assunto.

Algumas palavras de esclarecimento e cautela são apropria­das antes da reflexão. Primeiro, não temos aqui espaço para tratar do assunto de maneira abrangente. Segundo, temos de ler os versículos dentro do contexto em que estão inseridos: do livro bíblico, do Testamento e da Bíblia como um todo. Terceiro, tenhamos o cuidado de não ler uma narrativa — relato de acontecimentos — de modo excessivamente pres­critivo, como um registro do que deveria acontecer. Quarto, temos de usar o ensino claro da Bíblia para expor nosso ponto de vista sobre alguns textos mais nebulosos.

Em relação a Débora, a terceira “cautela” é um bom lugar para começarmos. As passagens de Juízes 4 e 5 simplesmente relatam o que acontece, não o que deveria ter acontecido (e muito menos o que deve acontecer hoje). Assim, o que cha­maríamos de perspectiva “tradicional” do papel das mulheres classificaria a liderança de Débora como anomalia, causada pela renúncia medrosa dos homens à sua responsabilidade (o caso de Baraque). De acordo com essa perspectiva, os ho­mens devem estar na liderança; Débora toma a frente porque eles não se apresentam. Mas o capítulo não diz isso. Na ver­dade, Débora foi claramente chamada por Deus para ser juíza e profetisa. A perspectiva tradicionalista é uma inferência, e é sempre perigoso basear a correção de uma doutrina em uma inferência dúbia.

No entanto, a perspectiva “liberal” — que insiste em afirmar que “tudo o que os homens fazem, as mulheres podem fazer”, rejeitando as di­ferenças de sexo por achar que são invenções da sociedade — também é contestada. Entre todos os juízes, Débora é a única que não luta — ela não é guerreira, não sabe liderar um exér­cito e tem de recrutar alguém cuja capacidade complemente a sua (que ela exerce muitíssimo bem).

Além disso, a questão é complicada porque, nesse ponto da história, Israel era tanto Estado civil quanto povo de Deus. Alguns aspectos da vida dos israelitas no Antigo Testamento relacionados a Israel como país (p. ex., os castigos aplicados a crimes) continuam sendo atribuições do Estado ainda hoje, e não da igreja (povo de Deus); outros aspectos são hoje funções da igreja, e não do Estado (p. ex., celebração da Páscoa/ceia do Senhor). Assim, mesmo entendendo (como fazemos) que a carreira de Débora mostra que não há razão para as mulheres ficarem fora da liderança civil (negócios, política etc.), isso não significa que temos de aplicar o mesmo conceito na vida do povo de Deus hoje — a igreja.

A segunda cautela é de grande serventia aqui. No Israel do Antigo Testamento, havia três “cargos” importantes: pro­feta, sacerdote e líder (rei/juiz). Algumas mulheres (como Débora) foram profetisas; outras foram juízas/rainhas (Débora novamente!). Nenhuma foi sacerdotisa (Nm 3.10 e Lv 21 mos­tram que todos os sacerdotes foram homens, descendentes de Arão). O Antigo Testamento afirma que as mulheres são iguais aos homens em valor, dignidade e capacidade, pois foram cria­das à imagem de Deus, e este lhes deu domínio sobre a criação (Gn 1.26-28). Mostra, também, que as mulheres podiam usar seus dons em qualquer cargo, menos o de sacerdote. Deus deixa claro ao seu povo do Antigo Testamento que homens e mulhe­res são iguais, mas não equivalentes.

Trecho extraído e adaptado da obra “Juízes para Você“, de Timothy Keller, publicada por Vida Nova: São Paulo, 2016, pp. 56-62. Traduzido por Eulália Pacheco Kregness. Publicado no site Tuporém com permissão.

Timothy Keller nasceu e cresceu na Pensilvânia, com formação acadêmica na Bucknell University, no Gordon-Conwell Theological Seminary e no Westminster Theological Seminary. Ele é pastor da Redeemer Presbyterian Church, em Manhattan. Já esteve na lista de best-sellers do New York Times e escreveu vários livros, entre eles A fé na era do ceticismo, Igreja centrada, A cruz do Rei, Encontros com Jesus, Ego transformado, Justiça generosa, entre outros, todos publicados por Vida Nova.
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Escrito para pessoas de todas as idades e etapas da vida, de novos crentes a pesquisadores, de pastores a professores, este material pode ser utilizado de diversas formas e foi feito para você.

Publicado por Vida Nova.

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