Depressão e suicídio: um olhar para o sofrimento humano sob a ótica de um psicólogo calvinista | Aender Borba

"O Grito", de Edvard Munch (1893).

Introduzo este texto com a transcrição de uma redação escolar que recebi da diretora da escola onde estuda um dos pacientes que recebo na clínica de psicologia.

“Proposta: Seja um narrador personagem e escreva uma história comentando sobre algo ou sobre algum acontecimento que lhe tenha despertado alguma lembrança da sua vida.”

“Feridas abertas

Quando eu olho para os meus pulsos, lembro dos cortes e de uma pessoa. No dia 13/11/2018, eu estava muito triste, pois já fazia um dia que uma pessoa muito importante para mim havia morrido, nesse dia era o enterro dela.

Tinha se passado um dia e todos estavam tristes, menos eu, não estava ligando muito. Depois de uma semana, eu estava dormindo até que acordei chorando e lembrando de tudo, de quando ele me ensinou a andar, ensinou a andar de bicicleta, de todos os domingos assistindo filme e de quando ele me ensinou a ter caráter.

Eu estava chorando muito silenciosamente, foi aí que eu peguei a faca e cortei meus pulsos. E até hoje, quando eu olho para os meus pulsos, eu lembro dessa pessoa e lembro desse dia.”

O autor é uma criança de 11 anos e fez este relato às vésperas de completar um ano do falecimento de seu pai em decorrência de trágico acidente de carro. A família me procurou porque sou um profissional habilitado a lidar com este tipo de sofrimento.

O exemplo acima é uma das muitas experiências com as quais tenho que lidar quase que diariamente. Pessoas, de modo geral, não buscam auxílio psicológico porque estão felizes ou quando tudo vai bem. O sofrimento humano é uma realidade com a qual ninguém quer se encontrar, tem causas multideterminadas e quase sempre produz reações difíceis de serem compreendidas e elaboradas. É no ponto médio entre a dor causada pelo sofrimento e o próprio sofrimento que uma presença fiel e cuidadosa precisa se colocar para mediar aquela vivência de quase morte, que pode levar à morte.

Atingindo pessoas com a graça comum de Deus

Começo com um caso clínico para mostrar que, quando se trata de sofrimento, o que mais importa é a pessoa humana, pois nela está impressa a imagem de Deus. Meu paciente é oriundo de família budista e fico pensando se orar por ele ou apresentar uma outra opção religiosa naquele momento e contexto seria o melhor caminho para acompanhá-lo em sua dor. Já fui questionado inúmeras vezes sobre como consigo conciliar psicologia e cristianismo, duas áreas que são aparentemente antagônicas. A resposta não é tão simples quanto parece, pois eu poderia incorrer no erro de ser absurdamente simplista e ingênuo se cresse que a solução para todos os problemas humanos são oferecidos pela psicologia; ou exageradamente arrogante e herege se assumisse que o sofrimento é capaz de redimir alguém de seus pecados. É assim que percebo a doutrina da graça comum. Nela, não há espaços para reducionismos, pois, no mundo criado, Deus é Senhor de tudo e governa sobre tudo! Como profissional ou como pastor, tenho que ser o meio de Deus para atingir as pessoas pela sua graça e não um fim em mim mesmo. Posso dizer com total segurança que o que me move a ir ao encontro do sofrimento do meu jovem paciente não é um interesse proselitista, mas o interesse verdadeiro de trilhar um percurso junto com ele até que adquira condições de reconhecer o significado de ser integralmente humano. Meu trabalho profissional não se reduz aos cinquenta minutos de uma sessão, pois o faço perante Deus, por isso todo o investimento é realizado para que a imagem de Deus permaneça refletida naquele garoto, coisas simples, mas extremamente potentes como: telefonemas, mensagens, e-mails para familiares e a escola. A tarefa é estar inteiro, ser uma presença e não apenas estar presente!

Atingindo pessoas com a graça especial de Deus

Se, por um lado, a graça comum me diz o que tenho que fazer no mundo, a graça especial não só me posiciona, mas me diz quem eu sou no mundo. Preciso lembrar-lhes que psicologia não é uma coisa só e que psicólogos não são todos iguais. Como em todas as esferas da sociedade, há bons e maus profissionais e há crenças que sinalizam para o absurdo, o vazio e o nada. Não pretendo me estender quanto às abordagens em psicologia (quem sabe em um texto posterior), mas sinto-me no dever de mostrar uma importante distinção entre quem encara a profissão como uma plataforma de projeção pessoal ou um mera fonte de renda e quem tem consciência de si e do mundo, a partir do Deus Trino, como escreve João Calvino:

Quase toda a soma de nosso conhecimento, que de fato se deva julgar como verdadeiro e sólido conhecimento, consta de duas partes: o conhecimento de Deus e o conhecimento de nós mesmos. Como, porém, se entrelaçam com muitos elos, não é fácil, entretanto, discernir qual deles precede ao outro, e ao outro origina. (Institutas I:I:1).

Encarar a missão dada por ele é assumir e reconhecer o lugar em que se foi plantado, receber isso com gratidão e dar muitos frutos, todos para a glória dele; para que o mundo fique mais belo e mais justo; para que seu reino venha e se estabeleça entre nós. Maior que a pretensão de salvar o meu pequeno paciente, procuro apresentar-lhe a verdade cristã total, começando pelas dádivas da graça impressas no mundo natural; sinais tão claros do eterno amor e poder que, de acordo com o apóstolo Paulo (Rm 1:19-20), tornam os homens indesculpáveis. Com sinceridade, oro para que o Espírito Santo o convença do pecado, da justiça e do juízo e para que eu continue sendo instrumento (meio e não fim) quando, e se isso acontecer. Por favor, não me venha com acusações de hipercalvinismo ou de negligenciar o evangelismo pessoal. Pense primeiro na qualidade dos púlpitos da maioria esmagadora das igrejas e os efeitos quase nulos de uma graça barata, capaz de encher salões e ginásios, mas ineficiente na produção de maturidade cristã. A hipocrisia é um veneno que mata aos poucos…

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O problema da depressão e do suicídio

Um fenômeno antigo, mas com uma nova roupagem, emergiu no mundo contemporâneo e cada vez mais pessoas estão adoecendo psiquicamente. A teologia, a filosofia e, posteriormente, a psicologia, se ocupam disso há séculos, mas o nível de complexidade é tamanho que nenhuma teoria consegue encerrar o assunto de forma definitiva. Estimativas de entidades internacionais reconhecidamente idôneas mostram que são mais de 300 milhões de pessoas que sofrem de depressão e 800 mil cometem suicídio (segunda maior causa de mortes de pessoas com idade entre 15 e 29 anos)[1] por ano no mundo.

Falar sobre depressão e suicídio ainda é um tabu para muitas pessoas. Estranhamente, em certos grupos cristãos prevalece a ideia medieval de que todo tipo de mal tem sua causa no pecado pontualmente cometido e a consequência imediata é a punição divina. Todo desvio comportamental é resultado do pecado cometido e não consequências da Queda. Normalmente, quem pensa assim rejeita completamente qualquer tratamento médico ou psicoterapêutico, mesmo quando atravessa a noite mais escura da alma. É lamentável constatar que muita gente acha que os humanos são uma coisa do pescoço para cima e outra do pescoço para baixo; que doenças são resultado apenas de desordens hormonais, infecções bacteriológicas ou viróticas. Pressões sociais, imposições culturais, histórias de vida com alto nível de comprometimento da integridade pessoal e até mesmo algumas desordens orgânicas na região cerebral são banalizadas e tratadas como “frescura” ou falta de fé. Obviamente, nem toda tristeza é ou vai levar à depressão, e nem toda depressão resultará em suicídio. Por isso a urgência cada vez maior de profissionais capacitados e de avanços em estudos que possibilitem tratamentos, seja por fatores endógenos ou exógenos das psicopatologias.

Penso que é hora de falarmos sobre estes e outros assuntos de forma mais clara, sem preconceitos ou posturas rígidas demais. Na graduação, um querido professor disse: “toda ajuda é terapêutica, mas, em certos casos, só poderá ajudar quem mais se capacitar”. Como eu disse, nosso objetivo aqui não é oferecer quadros psicopatológicos e nem ser exaustivo quanto aos dados estatísticos, porque toda classificação nosológica será sempre insuficiente diante do sofrimento humano. Preocupa-me seriamente, o aumento exponencial de casos em que pastores adoecem gravemente e tantos outros que chegam a cometer suicídio. Pior ainda, que muitos deles, por vergonha, medo ou preconceito, se deixam vencer por convicções que cegam o entendimento para o que a realidade está lhes dizendo. A depressão é uma doença silenciosa e o suicídio é um atentado contra a dignidade humana. Chesterton (2008)[2] estava certo quando disse que

O suicídio é o mal extremo e absoluto; a recusa de interessar-se pela existência; a recusa de fazer um juramento de lealdade à vida. O homem que mata um homem, mata um homem. O homem que se mata, mata todos os homens; no que lhe diz respeito, ele elimina o mundo.

Não nos cabe julgar se o suicida foi salvo ou não, a salvação pertence ao Senhor (Jn 2:9). O que nos falta é humildade para enfrentar estes temas na perspectiva da eternidade que se atualiza no tempo e no espaço. Se de fato, como diz Paulo (At 17:28), “nele vivemos, nos movemos e existimos”, o que precisamos é de uma consciência existencial, gerada pelo Espírito, capaz de perceber que cada gesto, cada palavra e cada tarefa é feita a partir e perante o Deus Trino. E com gratidão reconhecemos que tudo nos é dado por graça: psicologia, psiquiatria, aconselhamento, amizades sinceras, família, trabalho, lazer, igreja, salvação, filhos, dinheiro.

“Toda boa dádiva e todo dom perfeito vem do alto, descendo do Pai das Luzes, em quem não há oscilação como se vê nas nuvens inconstantes.” (Tg 1:17).

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[1] Dados da Organização Pan-Americana de Saúde e Organização Mundial de Saúde (2019).

[2] Ortodoxia / Gilbert K. Chesterton; traduzido por Almiro Pisetta. — São Paulo: Mundo Cristão, 2008.

Aender Borba é teólogo formado pelo Seminário Martin Bucer, onde atua como capelão e professor. Psicólogo com especialização nas áreas clínica e gestão de projetos sociais pela Universidade Federal de Minas Gerais. É casado com Rozilene e pai da Natali.

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