Deus é uma invenção humana? – O erro ateísta de Battersea Park | Jonathan Silveira

G. K. Chesterton (1874-1936)

“Estou sentado sob grandes árvores, com um forte vento fervendo em ressaca no alto das copas, de modo que a carga viva de folhas brama e balança produzindo algo que é ao mesmo tempo exaltação e agonia. Sinto-me, de fato, como se estivesse sentado no fundo do mar entre âncoras e cabos, enquanto acima de minha cabeça e da verde penumbra da água ecoasse o eterno rugir de ondas e a labuta, o embate e o naufrágio de tremendos navios. O vento puxa as árvores como se pudesse arrancá-las com raízes e tudo como tufos de capim. Ou então, para tentar outra violenta figura de retórica para essa energia indescritível, as árvores estão arrastando, rasgando e chicoteando como se fossem uma súcia de dragões todos presos pelo rabo.

Enquanto olho para estes gigantes de cabeça pesada, torturados por uma invisível e violenta bruxaria, uma frase volta à minha mente. Lembro-me de um menininho conhecido meu que certa vez estava caminhando pelo Battersea Park exatamente debaixo de um céu assim atormentado e árvores agitadas. Ele não gostava nada do vento, que soprava forte demais na sua cara, obrigando-o a fechar os olhos, e depois lhe arrancou da cabeça o chapéu do qual ele tinha muito orgulho. Tinha ele, se bem me lembro, cerca de quatro anos de idade. Depois de repetidas queixas contra a agitação atmosférica, ele acabou dizendo à mãe: ‘Mas por que você não elimina as árvores, e aí não haveria mais vento’.

Nada poderia ser mais inteligente ou natural do que esse erro. Qualquer um que olhe pela primeira vez para as árvores poderia imaginar que elas eram de fato vastos leques gigantescos, que com sua simples oscilação agitavam o ar por quilômetros ao redor. Nada, na minha opinião, poderia ser mais humano e desculpável do que a crença de que são as árvores que fazem o vento. De fato, essa crença é tão humana e desculpável que se torna, na prática, a crença de cerca de 99% dentre cem filósofos, reformadores, sociólogos e políticos da grande época em que vivemos. Meu amiguinho agiu, de fato, de modo muito parecido com o dos pensadores modernos; só que muito mais engraçado”.

G. K. Chesterton (1874-1936)
Tremendas trivialidades

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Brilhante como de costume, Chesterton não mente quando diz que os pensadores modernos estão sujeitos a erros da mesma estirpe que o cometido pelo garoto de Battersea Park. Como ele mesmo ressalta, filósofos, reformadores, sociólogos e políticos são tão humanos quanto o seu amiguinho.

Entretanto, gostaria de direcionar os holofotes exclusivamente ao ateísmo moderno, pois acredito que incorre no mesmo erro do garoto de Battersea Park.

O tufão da espiritualidade cristã nas cartolas ateístas

O ateísmo moderno comporta-se da seguinte maneira: ao ouvir a voz do cristianismo ecoando pelo mundo, e percebendo que o tufão da espiritualidade ameaça derrubar sua cartola — ou já a derrubou — ele imediatamente se esquece de sua racionalidade científica e filosófica para praticar o ilusionismo: tão rápido quanto o vento cristão que se espalha, ele saca da cartola explicações alternativas desesperadas para apontar a origem do fenômeno na esperança de que, em assim fazendo, Deus e o cristianismo sejam eliminados. Suas explicações tiradas da cartola transmitem então sensação de realidade e, às vezes, essas explicações saem mais ou menos assim:

“A crença em Deus subsiste ao desejo de um pai protetor e imortalidade, ou como um ópio contra a miséria e sofrimento da existência humana.” – Sigmund Freud

“Todo primata tem dificuldade em imaginar um universo que não seja governado por um macho alfa.” – Autor desconhecido

“Deus foi inventado para explicar o mistério.” – Richard P. Feynman

“A religião é a válvula de escape do homem, o vírus da mente.” – Richard Dawkins

Como se percebe, segundo o ateísmo moderno, para acabar com a crença em Deus — esse vento insuportável que sacode microscópios e telescópios, e que faz jalecos brancos esvoaçarem freneticamente —, é necessário ir à “raiz do problema”: eliminar o medo, a infantilidade, o mistério, eliminar a infecção. O problema, no entanto, é que tais diagnósticos, usando a figura de retórica de Chesterton, são meras árvores.

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Falácia genética: o “machado ateísta”

Nem é preciso dizer que o instrumento de trabalho desses lenhadores ateus modernos (troque a gosto por cientificistas ateus) é a falácia. Mais especificamente, a falácia genética.

Diz-se que se comete uma falácia genética quando alguém tenta invalidar um argumento simplesmente indicando a origem dele. A indicação de que a crença em Deus existe porque é produto do medo, da necessidade ou até porque se trata de um vírus que se propaga em nossas mentes, pertence a esse tipo de falácia, pois, essa indicação, por si só, simplesmente não nos leva a concluir que Deus não existe.

Considere, por amor ao debate, que todas essas explicações são verdadeiras, ou seja, que, realmente, a ideia de Deus é um produto do medo, da necessidade e que é um vírus da mente. Podemos concluir logicamente com isso que Deus não existe? É claro que não! O fato de termos a capacidade de inventar um deus, não significa que de fato o fizemos. Afinal, se Deus existe, ele existe independentemente de nossos medos, necessidades e de nossas infecções mentais.

Entretanto, como o garotinho no Battersea Park, o lenhador ateu moderno acredita que, derrubando a árvore do medo, da necessidade, e a árvore viral, consequentemente estará eliminando o vento teísta. Ele não se dá conta de que o vento existe de forma independente da árvore.

É preciso alertar o cientificista ateu moderno que não se elimina o vento ao cortar árvores; elimina-se a lógica.

Além disso, e se, ironicamente, a negação de Deus se der em razão do desejo por autonomia humana e de fuga da prestação de contas a um Deus santo e soberano? Essa é uma hipótese que precisa ser verdadeiramente considerada. É claro, no entanto, que essa hipótese por si só não implica a existência de Deus. Se eu dissesse que implica, estaria incorrendo na mesma falácia ateísta.

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A verdade é que não há explicação científica razoável que desabone a racionalidade da crença religiosa. Cientificistas se veem encabulados diante do vento da espiritualidade cristã que, ao invés de minguar, se alastra cada vez mais pelo mundo.

Não foi à toa que Jesus disse:

“O vento sopra onde quer, ouves a sua voz, mas não sabes donde vem, nem para onde vai; assim é todo o que é nascido do Espírito” (João 3.8).

Jonathan Silveira é graduado em Direito pela Universidade São Francisco e mestre em Teologia pelo programa Master of Divinity da Escola de Pastores da Primeira Igreja Batista de Atibaia. É casado com Carrie, membro na Igreja Batista da Palavra, em São Paulo, trabalha na área de produção editorial e marketing em Edições Vida Nova e é fundador e editor do site Tuporém.

Nesta obra, completamente revisada e ampliada, R. C. Sproul investiga os argumentos de quatro proeminentes ateus:

A religião surge da culpa e do medo da natureza (Sigmund Freud);
A religião é usada para manter as classes mais baixas felizes (Karl Marx);
A religião é apenas a realização de um desejo (Ludwig Feuerbach);
A religião está enraizada na fraqueza do homem (Friedrich Nietzsche).
Ao examinar as obras desses pensadores sob uma base tanto psicológica quanto teológica, Sproul mostra que há diversas explicações psicológicas e sociológicas seja para a descrença seja para a crença, e que as conclusões ateístas não devem ser aceitas cegamente.

Para o cristão que luta com suas dúvidas ou deseja responder de maneira inteligente aos não cristãos, este livro traz uma abordagem clara e instigante. Para o não cristão de mente aberta, esta obra oferece um debate provocador, digno de investir tempo e reflexão.

Publicado por Vida Nova.

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