Dia de ação de graças – breves questões filosóficas | Luiz Adriano Borges

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Hoje, nos Estados Unidos e em outros países, se comemora o dia de ação de graças, ou “Thanksgiving”. Muitas pessoas aqui no Brasil também acabaram adotando essa data, não como um feriado, mas como um momento especial para lembrar das coisas boas e também das dificuldades com um sentimento de gratidão. Muitos podem acusar de uma influência tosca, que temos nossa própria cultura etc. etc, mas considero ser uma apropriação boa: um momento de agradecimento, em família ou entre amigos, pelas bênçãos que Deus têm nos dado.

A Bíblia, ainda que não traga um mandamento para um dia específico, traz inúmeras passagens sobre ação de graças. Cito duas como exemplo:

“Em tudo dai graças, porque esta é a vontade de Deus em Cristo Jesus para convosco” (1Ts 5.18).

“Não estejais inquietos por coisa alguma; antes as vossas petições sejam em tudo conhecidas diante de Deus pela oração e súplica, com ação de graças” (Fp 4.6).

Agradecer é um momento em que nos aquietamos e sossegamos nossas mentes atribuladas.

Existem muitas outras passagens, mas essas bastam para compreendermos a importância de momentos como esse. De maneira um tanto quanto não usual, quero comentar sobre esse momento a partir do aspecto da filosofia da tecnologia. Mas, antes, um breve histórico.

A comemoração do dia de ação de graças iniciou-se na Inglaterra com os puritanos no século XVI. Nos Estados Unidos, a prática que ficou mais conhecida para os brasileiros, teve início com os imigrantes puritanos ingleses no começo do século XVII em agradecimento por boas colheitas. Até hoje é um dos feriados mais importantes daquele país, sempre ocorrendo na última quinta-feira de novembro, quando ocorrem celebrações em família ou entre amigos.

Mas por que absorver esta comemoração em nosso país? No nosso mundo hipermoderno, acelerado, não temos mais tempo para parar e celebrar nada. Até as refeições são feitas às pressas, com comidas pedidas em fast-foods. Assim, o dia de ação de graças seria um momento de pausar essa correria toda. Uma boa “desculpa” para entrar num outro tempo, não regido pelas máquinas, mas pela comunhão cristã.

Do ponto de vista da filosofia da tecnologia, muitos autores, não necessariamente cristãos, têm apontado a fragmentação dos laços comunitários e também dos rituais e como sua restituição é importante. O cristão Albert Borgmann, filósofo da tecnologia, fala da prática do cozinhar, da cultura da mesa, como remédio para os mal-estares da hipermodernidade. Fazendo este tipo de “atividades focais”, estaríamos desconectando nossas mentes da tecnologia e colocando nossa atenção em coisas reais, promovendo, assim, uma boa forma de vida.

Byung-Chul Han, mesmo não sendo cristão, aponta que o desaparecimento de rituais trouxe desconexão com a realidade e, para resgatá-la, uma solução seria trazer novamente a prática dos rituais. Para o filósofo sul-coreano radicado na Alemanha, em uma passagem abundante de conceitos importantes, os

Rituais criam uma comunidade de ressonância capaz de um acorde, de um ritmo comum: ‘Rituais promovem eixos de ressonância socioculturalmente estabelecidos, ao longo dos quais se tornam experienciáveis relações de ressonância verticais (com Deus, o cosmos, o tempo e a eternidade), horizontais (na comunidade social) e diagonais (em relação às coisas)’. Sem ressonância, a gente ecoa a si mesmo e se isola para si. O narcisismo crescente impede a experiência de ressonância. A ressonância não é um eco de si mesmo. A ela é inerente a dimensão do outro. Significa acorde. A depressão se origina no ponto zero da ressonância. A crise atual da comunidade é uma crise de ressonância (HAN, 2021c, p. 23-24).

Assim, fazer uma refeição especial no dia de ação de graças, cozinhar, reunir pessoas em volta da mesa, seria algo que romperia com o tempo corrido do cotidiano e faria com que nos aproximássemos mais uns dos outros, criando uma ressonância tanto com Deus quanto com as pessoas em torno. Seria o fomentar de uma comunidade, fazendo com que deixemos de nos sentir tão isolados.

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Sentimos isso nessa pandemia: com a ausência de encontros reais, com a mitigação através das redes sociais, muito do senso comunitário foi perdido. Amigos, famílias e igrejas sofreram muito. Lentamente estamos retomando. Assim, neste momento em que passamos por um longo período de distanciamento físico em que laços foram estilhaçados, o dia de ação de graças pode ser um momento de recuperação de um tempo e laços perdidos ou, não menos importante, de reconhecimento e agradecimento Àquele que nos nutriu e nos conduziu até aqui. Pode ser um momento triste para alguns que perderam pessoas queridas, mas também pode ser um tempo de agradecer a Deus e honrar aqueles que ainda estão conosco. Ou, como afirma teologicamente James K. A. Smith, liturgias como a cultura da mesa no dia de ação de graças seriam recalibradoras do nosso coração. Nossos corações estão ansiosos por viver em comunidade e achamos que as redes sociais podiam suprir essa necessidade. Mas o que acontece é um desequilíbrio e, portanto, precisamos retomar a amar o que é correto. Se acharmos que bastam reuniões online, comidas processadas e uma religião enlatada, nossa alma irá esmorecer (veja “Você é aquilo que ama”, especialmente o capítulo 3: “O Espírito o encontra onde você estiver: adoração histórica para uma era pós-moderna”). Não à toa, há um ciclo de depressão generalizado atualmente: as pessoas não percebem a importância de momentos de comunhão e de estar intencionalmente na presença de Deus com um coração grato.

Em meio a tantas dores e dificuldades desse período de pandemia, espero que possamos pensar nas pequenas celebrações como essa do dia de ação de graças como um novo tempo, um novo início, sendo gratos pelo que passamos e restituindo comunidades. Mesmo que a pandemia não tenha acabado, celebremos esse momento com responsabilidade, mas com os corações cheios de gratidão. Que iniciemos um novo tempo e que a comunhão fortaleça e/ou reconstrua laços. Não estou defendendo o dia de ação de graças especificamente, mas a “desculpa” para nos reunir e ter comunhão intencionalmente com o objetivo de agradecer a Deus não precisaria de muitas justificativas. Ainda assim, argumentos não faltam. Bom dia de ação de graças para todos nós, com a esperança de comunidades regeneradas!

Luiz Adriano Borges é professor de história na UTFPR-Toledo, lecionando sobre história da técnica, tecnologia e sociedade, filosofia, sociedade e política. Sua área de pesquisa centra-se na História e Filosofia da Tecnologia e da Ciência. Seus projetos mais recentes são: “A visão cristã da tecnologia” e “Esperança em Tempos de guerra. Ciência, tecnologia e sociedade em Tolkien, Huxley, Lewis e Orwell (1892-1973)".
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Publicado por Vida Nova.

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