Dois caminhões voando: as limitações da (v)erdade | Lucas Freitas

Conta-se que havia dois caminhões voando. De repente, um deles lembra-se que caminhão não voa, e resolve cair em respeito à lei da gravidade. O outro continua nos ares porque, sendo um caminhão pipa, sabe que a realidade é definida apenas por nossas experiências pessoais. Se a piada fosse boa não exigiria explicação, mas peço licença para apelar ao senso de humor de uma criança de 10 anos e gastar o resto deste texto explicando porque essa piada sem graça é uma das chaves para desarmar o relativismo moral.

Retomando os termos desenvolvidos no texto anterior, vamos explorar a ideia de que tanto a (v)erdade científica quanto as (v)erdade(s) individuais são incapazes de tomar o lugar da (V)erdade singular e maiúscula porque, entre outros motivos, somente a (V)erdade pode servir de eixo de orientação para nosso comportamento.

“Espera aí, caminhão não voa!”

Tomando a definição ampla de (v)erdade desenvolvida no texto anterior – o conhecimento relativo ao mundo criado –, podemos dizer que não é preciso ser um cientista para saber que caminhões não voam. É conhecimento compartilhado que caminhões foram feitos para trafegar no chão, e não para flutuar no ar. A ciência pode até explicar que a causa pela qual os caminhões permanecem em solo é a força da gravidade, mas isso é apenas a explicação matemática para uma observação empírica acessível a todos.

Além de observável por todos, a (v)erdade afeta a todos de forma indiscriminada e obrigatória. Um caminhão não começa a voar porque se esqueceu que a gravidade se aplica a todos os objetos. Uma andorinha consegue voar não porque a gravidade se esqueceu dela, mas através de seu esforço muscular e das correntes de ar. A força gravitacional tem aplicação universal e indiscriminada e o único jeito de superá-la é através de uma força maior na direção contrária. Para voar, não basta acordar de manhã e dizer: “A gravidade não se aplica a mim. Passem bem vocês, pedestres.”

Isto se aplica também às ciências humanas. Cada um de nós nasceu em um dia específico, em uma cidade específica, e em uma família específica. Estes fatos impõem-se sobre nós sem que ninguém tenha perguntado nossa vontade e determinam em grande medida nossas oportunidades na vida. Para usar um exemplo simples, pense em uma criança asmática. Caso esta criança viva no século III, é provável que morra cedo; caso viva no século XXI, é possível que viva até a velhice. Portanto, o momento histórico em que nascemos, juntamente com uma infinidade de questões sócio-políticas, exercem grande influência sobre nós.[1]

Por mais poético que possa soar essa conversa de ignorar a lei da gravidade e soltar as amarras do tempo para voar como um pássaro, precisamos reconhecer que há forças agindo sobre nós quer queiramos ou não. Como diz um amigo meu, a verdade dos fatos sempre se impõe.

Contudo, há uma distância grande entre reconhecer a influência desses fatores externos – dessa (v)erdade natural – e afirmar que estes fatores determinam nosso comportamento de forma definitiva. A gravidade nos impede de voar, mas não determina se vamos levantar de manhã ou se vamos ficar deitados o dia inteiro. Nosso local de nascimento estipula nossa língua materna, mas não determina se vamos dar bom dia ao porteiro ou não. Se assim fosse, não haveria agência ou responsabilidade humana sobre qualquer evento e seríamos apenas máquinas reativas. Alguém pode dizer que os exemplos acima são simplistas demais. É verdade. Mas a mesma lógica reducionista opera por trás de toda tentativa de determinar o comportamento dos indivíduos através da (v)erdade.

Veja, por exemplo, a antropologia proposta por Cesare Lombroso, criminologista italiano e um dos primeiros proponentes do Darwinismo Social. No final do século XIX, Lombroso propunha que fatores anatômicos (formato do crânio, do nariz, etc), a raça, o gênero, e até mesmo questões climáticas (!) exercem influência determinante sobre o indivíduo, estabelecendo seu potencial para a criminalidade ou para a genialidade. A abordagem de Lombroso aplicava as descobertas científicas mais atuais de seu tempo ao ser humano na tentativa de prever o comportamento dos indivíduos. Neste processo, os seres humanos foram reduzidos ao resultado de uma simples equação cujos fatores principais eram a “qualidade” de seus ancestrais e as condições metereológicas. Não é preciso nem mencionar as tragédias causadas pelo Darwinismo Social ao longo do século XX para perceber que esta abordagem é extremamente perigosa para nossa humanidade.

Engana-se quem pensa que essa visão determinista foi abandonada no século passado e que nós, no bravíssimo século XXI, estamos livres desse jugo. O mundo virtual é dominado por equações que, embora consideravelmente mais complexas, ainda assumem que o comportamento dos indivíduos é determinável de acordo com um número limitado de variáveis. Pense, por exemplo, nos dilemas éticos levantados por carros totalmente autônomos. Caso um acidente seja inevitável e o piloto automático tenha que decidir entre atropelar um ex-detento de 72 anos ou uma criança de 8 anos, qual dos dois deveria ser sacrificado pelo computador? Pode parecer que salvar a criança é a decisão moralmente correta. Mas e se o idoso fosse o Nelson Mandela e a criança, o Osama Bin Laden?

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A situação é evidentemente hipotética, e penso que há meios de evitar que tal situação se concretize na prática. Contudo, acreditar que sistemas de reconhecimento facial e computação quântica podem controlar o futuro soa como mais uma tentativa de sermos iguais a Deus. Para piorar a situação, a inteligência artificial, ao menos como concebida hoje, gera resultados que nem mesmo os programadores conseguem explicar. O processo através do qual a máquina tira suas conclusões é opaco para nós, pobres seres pensantes, mas incapazes de analisar bilhões de cenários simultaneamente. Neste contexto, render-se ao poder das máquinas significa sujeitar-se voluntariamente à Matrix na esperança de que a vida será melhor quando abdicarmos completamente de nossa responsabilidade sobre os resultados de nossas ações.

As situações acima servem apenas para ilustrar o gosto amargo que fica na boca quando tentamos definir nossas ações através da (v)erdade apenas. O fato é que me parece ser inevitável sentir que nossa humanidade foi reduzida quando usamos apenas a (v)erdade como eixo orientador da nossa moral porque o reducionismo é inerente ao estrito nexo de causalidade que inevitavelmente norteia a obtenção da (v)erdade terrena.

Mais justo que Deus

Aqui cabe lembrar que os limites da (v)erdade no campo da ética e da moral já eram observados na antiguidade. Não é à toa que os gregos rejeitavam qualquer conhecimento obtido a partir da simples observação do mundo material: este mundo está em constante mudança e o acaso não tem compromisso com a justiça.

A literatura bíblica também lida com as dificuldades causadas por uma leitura estritamente causal do mundo, embora adote uma postura oposta à grega. Os salmos cantam a respeito dos céus proclamando a glória de Deus diariamente em palavras inaudíveis, mas absolutamente compreensíveis (Salmo 19:1-4). O apóstolo Paulo escreve sobre Deus revelando “claramente seus atributos invisíveis, seu poder eterno, sua natureza divina” através da criação (Romanos 1:18-20). E Jesus Cristo, o Verbo encarnado, recorre frequentemente a metáforas da vida camponesa para explicar verdades eternas. Há, portanto, um grande espaço para afirmarmos a (v)erdade dentro da visão bíblica.

No entanto, livros como Jó, Eclesiastes, ou Habacuque, expõem as tensões que emergem quando uma perspectiva estritamente causal assume controle total sobre a explicação. Jó sofre em absoluta ignorância dos diálogos travados entre Deus e Satanás (Jó 1:6-12; 2:1-7), e os amigos dele sofrem porque Jó se acha “mais justo do que Deus” (Jó 32:2). O autor de Eclesiastes, tentando imaginar um mundo em que a (V)erdade divina está completamente ausente, conclui: vaidade de vaidades, tudo é vaidade (Eclesiastes 1:2, et al.). E o profeta Habacuque encontra forças para encerrar o livro com um cântico de louvor ao Deus cujas últimas palavras ao profeta foram “O SENHOR, porém, está em seu santo templo; toda a terra cale-se diante dele” (Habacuque 2:20). A solução bíblica, portanto, não envolve rejeitar a (v)erdade, mas interpretá-la com a ótica divina.

Para concluir, é inegável, que a (v)erdade exerce influência sobre nós, tanto do ponto de vista material – gravidade, campos magnéticos, ciclos biológicos etc. – quanto do ponto de vista humano – a história, a economia, a sociologia etc. Como dito acima, há bastante espaço para afirmarmos a (v)erdade dentro de uma visão bíblica da realidade. A (v)erdade nos dá uma noção do mundo em que estamos, das condições em que vivemos, e das possibilidades que teremos ao longo da vida. Contudo, é um erro grave utilizar apenas (v)erdade terrena para determinar – e tentar prever! – nosso comportamento. Fazê-lo é aniquilar uma parte fundamental de nossa humanidade: a agência moral.

Por fim, o comportamento daqueles “cujo o mundo não era digno” levou muitas vezes a zombarias, prisões, torturas e morte (Hebreus 11:35-39), demonstrando que o comportamento moldado pela (V)erdade está constantemente em conflito com a lógica utilitarista que emerge quando usamos apenas o conhecimento natural para determinar nossas atitudes. Mas para não me alongar ainda mais, vou ter que retomar esta ideia em um próximo texto.

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[1] O sociólogo Peter Berger desenvolve mais a fundo essa questão de construção social da realidade e da influência que a plausibilidade das ideias exerce sobre a forma como vemos a realidade externa. Vide “O Dossel Sagrado” ou “A Construção Social da Realidade” para uma análise equilibrada e aprofundada destas questões.

Pai e marido, Lucas Vasconcellos Freitas é Mestre em Estudos Teológicos com ênfase em Estudos Interdisciplinares pelo Regent College (Vancouver, Canadá) e em Direito pela Universidade Presbiteriana Mackenzie. É parte da equipe do Claraboia Brasileira e escreve ficção nas horas vagas.

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1 Comentário

  1. Pedro Santos disse:

    Ansioso pela próxima parte

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