Em defesa da apologética | Timothy Keller

Apóstolo Paulo em Atenas

A apologética procura responder os “porquês”, após já ter respondido os “quês”, ou seja, “O que é o evangelho?”. Porém, quando você convida pessoas para acreditarem no evangelho e elas dizem: “Por que eu deveria acreditar nisso?”, aí você precisa da apologética.

Já ouvi muitos cristãos tentarem responder os “porquês”, apenas apelando aos “quês”. “Você tem que acreditar, pois Jesus é o Filho de Deus”. Mas isso é responder o “por que” com “o que”. Vivemos tempos em que não podemos evitar os “porquês”. Apenas explicar o que algo é (por exemplo, uma apresentação vívida do evangelho) funcionava bem nos dias em que as instituições culturais criaram um ambiente no qual o cristianismo apenas era sentido como algo verdadeiro ou ao menos honrável. Porém, em uma sociedade pós-cristã, em meio ao mercado de ideias, é necessário que você explique o porquê algo é verdadeiro, ou então as pessoas simplesmente descartarão a sua crença.

A apologética é bíblica?

Existem muitos cristãos hoje em dia que dizem: “Não faça apologética, apenas exponha a Palavra de Deus. Pregue e o poder da Palavra irá impactar as pessoas”. Outros argumentam que “pertencer vem antes de acreditar”. Eles dizem que a apologética é uma abordagem racional e iluminista e, portanto, não é bíblica. As pessoas devem ser levadas a uma comunidade onde possam ver o nosso amor e as nossas obras, experimentar a adoração, ter suas imaginações capturadas, e a fé se tornará crível a eles.

Há um certo mérito nesses argumentos. De fato seria muito racionalista dizer que podemos provar o cristianismo de maneira tal que qualquer pessoa racional teria que acreditar nele. Na verdade, essa abordagem desmerece a soberania de Deus, pois faz nos curvar à autonomia de nossa razão. Comunhão e adoração são importantes, pois as pessoas formam sua convicção através de uma combinação de coração e mente – um senso de necessidade, de se pensar intelectualmente, e de ver tais coisas em uma comunidade. Contudo, eu também tenho visto céticos que são levados a uma comunidade cristã calorosa e, ainda assim, dizem: “Mas por que eu deveria acreditar em você e não em um ateu ou um muçulmano?”.

Precisamos ser cuidadosos ao dizer “Apenas creia”, pois o que realmente estamos dizendo é “Creia porque eu estou dizendo”. Isso soa como um jogo de poder nietzschiano e é muito diferente da postura de Paulo que, no livro dos Atos, raciocinou, argumentou e provou suas crenças; e também de Pedro, que nos disse que devemos dar a razão de nossa esperança (2Pedro 3.15). Se a nossa resposta for “As nossas crenças podem parecer totalmente irracionais a você, mas, se você puder ver como amamos uns aos outros, você desejará acreditar também”, então pareceremos uma seita. Portanto, nós, de fato, precisamos fazer apologética e responder os “porquês”.

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Sem neutralidade

Entretanto, o problema com uma apologética exclusivamente racionalista (“Eu irei provar a você que Deus existe, que Jesus é o Filho de Deus, que a Bíblia é verdadeira”, etc.) é que ela, em certo sentido, coloca Deus sob julgamento diante de pessoas supostamente neutras, perfeitamente racionais e que sentam de maneira objetiva no trono da Razão. Isso não se encaixa com o que a Bíblia diz a respeito da realidade do pecado e do pensamento preconceituoso e distorcido produzido pela descrença. Por outro lado, uma apologética exclusivamente subjetivista (“Convide Jesus para entrar em sua vida e ele resolverá todos os seus problemas, mas eu não posso lhe dar qualquer boa razão para crer nisto. Apenas confie em seu coração.”) também falha em não trazer convicção da realidade do pecado ou de carência.

Não haverá alegria na graça de Jesus a menos que as pessoas vejam que estão perdidas. Consequentemente, uma apologética evangelística não deve apenas apresentar o cristianismo, mas deve também desafiar a cosmovisão do descrente e mostrar onde está o verdadeiro problema nela – e nele.

Traduzido por Jonathan Silveira.

Texto original aqui.

Timothy Keller nasceu e cresceu na Pensilvânia, com formação acadêmica na Bucknell University, no Gordon-Conwell Theological Seminary e no Westminster Theological Seminary. Ele é pastor da Redeemer Presbyterian Church, em Manhattan. Já esteve na lista de best-sellers do New York Times e escreveu vários livros, entre eles A fé na era do ceticismo, Igreja centrada, A cruz do Rei, Encontros com Jesus, Ego transformado, Justiça generosa, entre outros, todos publicados por Vida Nova.
fe-era-ceticismoLivro best-seller segundo o New York Times


Por que Deus permite que haja sofrimento no mundo?
Como um Deus de amor pode mandar alguém para o inferno?
Por que o cristianismo não é mais inclusivo?
Como pode haver uma só religião verdadeira?
Por que tantas guerras foram travadas em nome de Deus?

Valendo-se da literatura, da filosofia, das conversas do cotidiano e de argumentação convincente, Tim Keller explica como a fé no Deus cristão é, na realidade, racional e justificável. Aos crentes verdadeiros, ele oferece uma plataforma sólida sobre a qual se apoiar contra os ataques à religião próprios da Era do Ceticismo. Aos céticos, ateístas e agnósticos, ele fornece um argumento desafiador para se lançarem em busca das razões da existência de Deus.

Publicado por Edições Vida Nova.

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