Flannery O’Connor e a violência da graça | Rachel Watson

Para Flannery O’Connor, a graça era uma coisa violenta. Não uma caminhada solene pelos corredores de uma igreja ou uma oração silenciosa, mas um estouro. Um confronto. Um suicídio.

Você não irá encontrá-la na livraria cristã, embora talvez tenha lido um dos seus contos na faculdade. Seu objetivo ao escrever ficção era claro: “Meu público são as pessoas que pensam que Deus está morto… Para aqueles que estão tão surdos que é preciso gritar, e aqueles quase-cegos que você precisa desenhar absurdos”.

Seus personagens são grotescos. Sua voz religiosa é não convencional. Ela é meu tipo de herói.

Graça Chocante

Quando eu apresento pela primeira vez aos meus estudantes um conto de O’Connor, sua reação típica é se contorcer ou perguntar incredulamente: O que eu acabei de ler?

9789896230142Eu entendo essa reação. É justamente o que a boa e velha Flannery iria querer. Chocar. Mas ela buscava um choque que levasse ao entendimento. Então, antes de ajudar meus estudantes a desvendar a história eu lhes pergunto: O que deve vir antes da graça? Faço essa pergunta, pois a resposta é aquilo sobre o qual todo conto de Flannery O’Connor se trata: o momento em que os personagens percebem que necessitam da graça.

Em “Um Bom Homem é Difícil de Encontrar” esse momento chega quando um famoso presidiário aponta sua arma para uma senhora idosa. Mesmo que ela tenha passado a maior parte da história depreciando outros enquanto exalta sua própria bondade, ela acaba tendo um momento de clareza. Olha para o criminoso e se lembra de seu próprio filho. Percebe que os dois homens não são tão diferentes. Ela para de falar. Seu extravagante chapéu cai ao chão. E entende que não é tão diferente do assassino também. Sua epifania termina abruptamente, com três tiros no peito:

“Ela teria sido uma boa mulher”, diz o delinquente, “se ela tivesse tido alguém para atirar nela a cada minuto de sua vida”.

Com essa vertente mórbida, O’Connor lembra seus leitores de que a graça é um chamado ao despertar. Ela carrega uma mensagem dramática: Você não está bem. Você nunca estará. Você precisa de algo além de você mesmo.

Graça para o Culpado

Quando eu penso sobre a epifania da vovozinha, me lembro de uma música do artista independente Sufjan Stevens. É sobre John Wayne Gacy, o assassino em série conhecido por se vestir de palhaço e assassinar mais de 30 rapazes nos anos 70. Os últimos versos da música são impactantes:

E em meus melhores momentos/ Eu sou igualzinho a ele.

Antes de aceitarmos a graça, nós precisamos admitir que somos pecadores sujos e imundos que necessitam da graça. É o que os Fariseus no tempo de Jesus não conseguiam entender. Em Lucas 18, Jesus conta uma parábola feita diretamente para seus corações endurecidos: “A alguns que confiavam em sua própria justiça e desprezavam os outros, Jesus contou esta parábola” (v. 9).

Você conhece a história. Dois homens entram no templo para adorar. O fariseu permanece em pé, orgulhoso, dizendo “Deus, eu te agradeço porque não sou como os outros homens” enquanto o outro homem mal podia levantar o rosto (v. 11). Ao contrário, ele se abaixa até o chão e clama: “Deus, tem misericórdia de mim, que sou pecador” (v. 13).

Enquanto não vermos a nós mesmos como pecadores, não reconheceremos Cristo como Salvador (Lucas 5:31). Lembro-me de entrevistar uma prostituta em Los Angeles, anos atrás. Ela disse ter visto um homem ser assassinado certa noite. Alguém o jogou pela janela. Todos sabiam quem o havia feito, mas ninguém o denunciou. Eu perguntei a ela o porquê, e ela me respondeu que o homem assassinado havia abusado de uma criança. “Qualquer um que tenha feito uma coisa dessas merece morrer”, ela disse.

Ela está certa.  Qualquer um que faça isso merece morrer. Qualquer um que peque contra Deus merece a morte. Tiago 2.10 me coloca no mesmo grupo que pedófilos e assassinos em série: “Pois quem obedece a toda a Lei, mas tropeça em apenas um ponto, torna-se culpado de quebrá-la inteiramente”.

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Eu falhei. Eu sou responsável por tudo. Eu preciso da graça.

Graça Ofensiva

Em outro conto de O’Connor, The Lame Shall Enter First (“Os Aleijados entrarão Primeiro”), um ateu confiante, Shepherd, percebe que suas boas ações erram no ponto. Após a perda de sua esposa ele se aproxima de um jovem delinquente amargurado, com um pé torto. O garoto, Rufus, não quer nada com ele, mas Shepherd insiste. Ele o leva para casa, lhe compra uma bota nova e lhe fala de todo o seu potencial. Ele passa o seu tempo bancando o salvador de alguém que não deseja sua ajuda. Tudo isso enquanto seu filho sofre sozinho. No momento que Shepherd percebe seu erro já é tarde demais. Seu filho havia ido embora.

Ao longo de toda a história, a graça continuamente ofende. Ela ofende o orgulho de Shepherd e seu intelecto superior. “Esse livro é algo do qual você deve se esconder”, ele diz quando vê Rufus lendo a Bíblia. “É para Covardes, pessoas que têm medo de andar com as próprias pernas e entender as coisas por si mesmas.”

Ele assegura a Rufus: “Você não acredita nisso. Você é muito inteligente”. Mas Rufus responde bruscamente, “Você não sabe nada sobre mim. Mesmo que eu não acreditasse, ainda sim seria verdade”. Graça é o que nós precisamos, quer aceitemos ou não. E mesmo que Shepherd despreze o Evangelho a cada momento, ele tem um insight nas profundezas de suas próprias falhas. Ele falhou em salvar Rufus. Ele falhou com seu próprio filho. Ele é aquele que precisa de um pastor (shepherd em inglês).

A graça é ofensiva, pois aponta para as deficiências em cada um de nós.

Graça Cara

Ainda mais ofensiva que nossa necessidade da graça é o quanto ela é custosa. Com frequência eu esqueço que, por Deus ser justo, meus pecados não podem simplesmente desaparecer. Eles têm que ser punidos. E Jesus caminhou para esse sofrimento. Ele caminhou para a colina onde a dor era a promessa.

Sua morte não era meramente simbólica. Quando nós lemos sobre os incontáveis animais sacrificados no Antigo Testamento, nós devemos fazer a conexão: o corpo de Jesus foi o último sacrífico de sangue. Foram verdadeiros rasgos em sua pele e músculos. Sua agonia emocional foi tão intensa que, antes de sua morte, ele perguntou a Deus se não haveria outra alternativa (Mateus 26.39). Nenhum de nós poderia morrer como Jesus morreu. Sem pecado. O substituto perfeito. Sua morte foi sangrenta, pois era o que nossos pecados mereciam.

O Desejo de Deus

Os Fariseus queriam saber por que Jesus passava tanto tempo com pessoas indignas. Jesus lhes disse que era porque eles estavam doentes e precisavam de um médico. Ele viu a enfermidade dos Fariseus também.  Ele sabia que era profunda, mas eles eram incapazes de clamar por ajuda. Testemunhar pessoas rejeitar a cura da graça feriu Jesus: “Jerusalém, Jerusalém, você, que mata os profetas e apedreja os que são enviados a você! Quantas vezes eu quis reunir os seus filhos, como a galinha reúne os seus pintinhos debaixo das suas asas, mas vocês não quiseram!” (Lucas 13.34).

Flannery O’Connor pode ter escrito histórias violentas sobre personagens estranhos do Sul, mas ela entendeu a graça.  Ela sabia que nenhum homem era justo até ser revestido de Cristo. Isto exige que vejamos nossa nudez e reconheçamos nossa necessidade. A graça é cara. Ela é necessária. E Deus deseja que admitamos nosso problema e abracemos Sua solução.

Traduzido por Bruno Mori Porreca e revisado por Jonathan Silveira.

Texto original aqui.

Rachel Watson é estudante de teologia na Universidade de St. Andrews e professora de inglês. Esforça-se para mostrar a seus alunos como pensar, construir discernimento e desfrutar de ótimas literaturas. Escreve para o The Bible Is Relevant, The Gospel Coalition, RELEVANT e The Englewood Review. Você pode segui-la no Twitter e no Facebook.

1 Comentário

  1. Wladimir Neto K disse:

    boa análise

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