Fundamentalismo: por que é importante descrevê-lo bem? | Manfred Svensson

O fundamentalismo é fiel? Existe uma maneira não fundamentalista de ser fiel? Abordar bem essas questões, é claro, pressupõe uma ideia um pouco mais precisa do que designamos como fundamentalismo.

Tendo em vista que o termo se tornou tão corriqueiro, não seria estranho se você já tenha sido chamado de fundamentalista. Como qualquer experiência de rotulagem, isso pode ser irritante. Todavia, também pode ocorrer de uma pessoa acabar se conformando a ela – ora por puro tédio na luta contra os rótulos, ora por acreditar que os outros rótulos disponíveis no mercado são piores. Além disso, a conformidade pode também terminar em satisfação: podemos considerar que a companhia do rótulo a que alguém se sujeita nem sempre é ruim ou podemos sentir que recebê-la é uma indicação de que somos particularmente fiéis.

Fiéis. Essa palavra nos permite fazer boas perguntas. O fundamentalismo é fiel? Existe uma maneira não fundamentalista de ser fiel? É claro, porém, que abordar bem essas questões pressupõe uma ideia um pouco mais precisa do que designamos como fundamentalismo. Afinal, hoje usamos o termo como sinônimo vago de conservadorismo militante, de intolerância, de rejeição ao diálogo ou abertura e, em particular, para designar um conservadorismo para o qual a defesa de suas posições passa muitas vezes por uma relação questionável com o poder. Descrito desta maneira, parece claro que poucos usariam o termo para assim se descrever. Isso, porém, geralmente é uma indicação de que um termo não serve mais para nenhuma tarefa séria. É conveniente, então, descartá-lo ou dar uma olhada em como o usamos.

Para pensar sobre o uso do termo, pode ser aconselhável começar tirando de nossas cabeças a imagem do terrorista do Talibã por um segundo e lembrar a origem especificamente protestante do termo. A palavra “fundamentalismo” nasceu no primeiro terço do século 20 como uma designação (e como uma autodesignação, não como um rótulo colocado por terceiros) dos grupos mais fortemente opostos à teologia liberal. Os autores do movimento emergente publicaram uma série de textos sob o título Os Fundamentos (1910-1915, 12 vols.), com os quais se buscou oferecer uma defesa dos aspectos fundamentais da fé. Ainda assim, os doze volumes não devem nos levar a pensar em uma teologia sistemática cuidadosamente desenvolvida. Em vez disso, uma característica do fundamentalismo é a sua concentração nas questões específicas em discussão em um determinado momento; neste caso, por exemplo, quanto à doutrina da evolução e da inspiração bíblica.

Entretanto, se tivermos em vista esse uso estrito do termo e, ao mesmo tempo, o uso contemporâneo mais amplo pelo qual todos os tipos de fenômenos são designados como fundamentalistas, certamente surgirão algumas dúvidas. É pertinente usar o mesmo termo para tratar fenômenos tão diferentes? Não faz muitas décadas que descrevemos o Talibã como “integrista”, e o fato de que hoje o tratamos como “fundamentalista” (o mesmo termo pelo qual um membro de uma igreja batista fundamentalista se designa), pode revelar um revés embaraçoso na precisão de nossa linguagem. Afinal, nosso amigo de uma igreja fundamentalista não apenas defende várias crenças diferentes do Talibã, mas também o faz por meios muito mais aceitáveis. Todavia, não nos deve escapar o fato de que eles têm algo em comum. O que eles têm em comum não é a violência e nem a rejeição da razão – em ambos os lados é possível encontrar pessoas pacíficas e estudiosas. O que eles têm em comum são os movimentos reativos. Se essa é uma característica central do fundamentalismo, não é necessariamente errado adotar o mesmo termo para se referir a fenômenos em outro sentido que são muito distintos.

No entanto, esse caráter reativo é uma parte constitutiva do fundamentalismo? É revigorante ler um filósofo secular da estatura de Habermas, que reconhece o fundamentalismo como uma reação aos dilemas da modernização e, portanto, reconhece o caráter moderno do fenômeno fundamentalista. Consequentemente, afirma ele, “não devemos confundir fundamentalismo com dogmatismo ou ortodoxia”[1]. O fundamentalismo pode ser fiel a alguma ortodoxia, mas o que o distingue não é essa fidelidade. O fundamentalismo não é a continuidade ou o ressurgimento de alguma crença antiga, mas um tipo de reação aos problemas modernos. Como destaca Peter Berger, “por mais tradicional que seja sua retórica, o fundamentalismo é um fenômeno intrinsecamente moderno; não é uma tradição”[2].

Contudo, se o fundamentalismo é bem-sucedido, é precisamente porque a modernidade não é uma mera avalanche de bênçãos, mas cria alguns problemas novos ou intensifica alguns problemas antigos. O problema com o fundamentalismo, então, não é que seja crítico da modernidade. Seu problema é que, por ser tão caracteristicamente reativo, sua fala costuma ser determinada por seus adversários. Assim determinado por seu contendor, o fundamentalismo tende a simplesmente reforçar muitos dos aspectos mais problemáticos do mundo que rejeita. Nas palavras de James Davison Hunter, “o fundamentalismo também é niilista, pois sua identidade é basicamente estabelecida de maneira negativa”. “Como alguém pode estranhar o fato”, continua Hunter, “de que o fundamentalismo contribui para reforçar a alienação e a crueldade?”.[3] Frases como essas podem parecer desnecessárias e hostis vindas de um sociólogo cristão como Hunter. Alguém questionará: são os fundamentalistas que realmente devem ser criticados, em vez de tê-los como aliados contra o relativismo? Será necessário que os cristãos também se unam à reclamação quase universal contra o fundamentalismo? Acho que a resposta a essas perguntas deve, sem dúvida, ser positiva; mas também acredito que a integridade dessa crítica – o fato de que não se está criticando o fundamentalismo simplesmente para se separar de pessoas que se tornaram irremediavelmente impopulares –, será amplamente medida pela precisão com que o termo é usado.

Essa precisão não acontece, no entanto, retornando ao puro uso histórico que os protestantes de 1915 designam. O uso do mesmo termo para designar o Talibã de 2001, como indiquei, parece-me justificado pela mentalidade reativa que eles têm em comum. Mas, tendo feito essa concessão, continua sendo verdade que há um uso grosseiramente expandido do termo, um uso contra o qual parece sábio estar alerta. Considere, por exemplo, uma série de artigos publicada no Huffington Post – um meio de comunicação mais representativo da cultura contemporânea – em que um homem conta como deixou para trás o fundamentalismo. Como caracterizar, segundo este homem, o fundamentalismo em que foi criado? Segundo ele, é caracterizado pela crença de que “a religião cristã é a religião correta”, que “Jesus é o Salvador do mundo”, que “a palavra de Deus está na Bíblia”, que o “aborto é assassinato”. Ele nos conta que, depois de deixar o fundamentalismo, tais crenças foram substituídas não por outras crenças, mas por “perspectivas”. A perspectiva não fundamentalista sobre Jesus seria, por exemplo, que ele vivia no mais alto nível de autoconsciência, sendo, nesse sentido, divino; a perspectiva não fundamentalista sobre a Bíblia seria que ela é “a história da busca judaica e cristã para conhecer a Deus”, distinguindo-se apenas por sua ênfase na busca registrada em outras culturas[4]. Embora alguém possa discordar, não há nada para ser ridicularizado nessas afirmações, e o autor em questão conta algumas verdades importantes em outros momentos. No entanto, é inútil falar de fundamentalismo se com essa palavra acabamos abarcando indistintamente as crenças comuns a qualquer cristão dos séculos V, XIII ou XVII.

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Por mais importante que seja se distanciar do fundamentalismo, é, portanto, crucial descrevê-lo de uma forma que o diferencie do restante do cristianismo histórico (ou de outras tradições importantes). Além disso, pode-se dizer que estar enraizado nesse cristianismo histórico permitirá que estejamos mais seguros contra o fundamentalismo – se o fundamentalismo é uma reação ao desenraizamento do mundo moderno, enraizar-se é uma boa prevenção. Não surpreende que, em meio à controvérsia fundamentalista-modernista do início do século 20, houvesse, de fato, uma crítica ao liberalismo que compreendeu bem como fazia a diferença estar enraizado em uma tradição mais ampla. Assim, J. Gresham Machen escreveu que depois de criar raízes na história “nunca ficaremos satisfeitos com um mero ‘fundamentalismo’ que procura fazer uma síntese rápida e moderna do mínimo denominador comum de homens de várias religiões. Em vez disso, buscaremos estar no centro da grande corrente de pensamento da vida da Igreja”[5]. Isso não significa que o enraizamento nessa “grande corrente de pensamento” vai tirar de nós o ímpeto polêmico. Nem é preciso fazer isso para que o fundamentalismo seja evitado. Machen, um completo polemista, é um exemplo eloquente disso. Como ele continua explicando no texto que acabamos de citar, “nunca fui capaz de ceder à atitude de desprezo pelos homens que estão do outro lado neste grande debate, uma atitude na qual muitos crentes devotos parecem encontrar conforto. Nunca fui capaz de rejeitar a ‘alta crítica’ em massa com algumas frases de condenação sumária”[6]. Estando inseridos na “grande corrente de pensamento”, é possível exercer uma vida de atividade polemista que, contudo, não é puramente reativa; e se a polêmica não é puramente reativa, é mais fácil evitar aqueles elementos tão característicos do fundamentalismo, isto é, de ver as coisas apenas em preto e branco e, assim, facilmente demonizar aqueles que não veem as coisas nesses termos.

Uma lição básica que podemos extrair daqui, portanto, é que uma fé “tradicional” não precisa ser “fundamentalista”, mas pode até ser um antídoto para a atitude puramente reativa do fundamentalismo. É por isso que também erram de maneira grosseira aqueles que classificam como fundamentalista qualquer adesão a uma ortodoxia, ou qualquer pretensão de se alcançar uma verdade inabalável. Mais uma vez, é refrescante ouvir Habermas em sua simples constatação de que qualquer posição religiosa implica a adesão a um núcleo de crenças – que isso, portanto, não é nada diferente do fundamentalismo[7]. Deve-se acrescentar que isso é uma característica não apenas de todas as crenças religiosas, mas de toda visão da realidade e, portanto, até mesmo de cada vida humana. Não é fácil livrar-se do rótulo de fundamentalista dizendo que não carregamos uma arma como o Talibã; mas o rótulo também não deve ser facilmente atribuído, como se a mera adesão a uma ortodoxia nos aproximasse do fundamentalismo.

Isso não quer dizer, contudo, que, para estarmos seguros contra o fundamentalismo, basta estar enraizado em alguma crença antiga. Gostaria de observar três requisitos mínimos (sem qualquer pretensão de completude) que também devemos ter em mente. O primeiro é que, por mais arraigados que estejamos em uma tradição maior, sempre existe o risco de que em um assunto específico nossa agenda seja determinada por nossos interlocutores. Em termos simples, poderíamos dizer que o fundamentalismo tem um credo tão pequeno quanto o de seus adversários; mas um credo pequeno implica ter menos “antenas”, implica uma perda de sensibilidade ou simplesmente cegueira para muitos assuntos. Devemos, então, justamente buscar cultivar que o enraizamento crie em nós mais antenas, que alimente em nós mais preocupações do que aquelas que nossos interlocutores semeiam em nós a curto prazo. Embora pareça paradoxal, um credo mais extenso pode então – mas somente então – ter menos potencial fundamentalista do que um credo minimalista. Em segundo lugar, parece claro que evitar a disposição puramente reativa implica a capacidade de uma interação positiva com a modernidade. Essa interação positiva não precisa ser um ato acrítico. Todavia, se não é um ato reativo, deve ser um ato comprometido com os traços benéficos da modernidade, um ato que muitas vezes está, por assim dizer, tentando salvar a modernidade de si mesma. Isso, porém, implica, em terceiro lugar, abrir-se precisamente para reconhecer a dificuldade de muitos dilemas contemporâneos e afirmar a complexidade desse grande fenômeno que nos acostumamos descrever como modernização.

Naturalmente, muitas vezes o reconhecimento da complexidade dos problemas parecerá uma atitude de compromisso, de “meias medidas”. Talvez muitas vezes seja. Mas não sempre. E, afinal, que alternativa temos? Para colocar a questão em termos simples: sim, pode haver uma maneira construtiva de enfrentar a modernidade a partir do cristianismo; mas não pode haver uma maneira fácil de fazer isso. Todavia, como Kierkegaard notou um século e meio atrás, quando todos se esforçam para tornar as coisas mais fáceis, isso pode ser uma contribuição significante para tornar as coisas mais difíceis.

Traduzido por Jonathan Silveira.

Texto original: Fundamentalismo: Por qué importa describirlo bien. Estudios Evangelicos.

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[1] Habermas, em Giovanna Borradori, Philosophy in a Time of Terror. Dialoges with Jürgen Habermas and Jacques Derrida University of Chicago Press, Chicago, 2003. pág. 31.

[2] Peter Berger, em Berger (ed.) Between Relativism and Fundamentalism. Religious Resources for a Middle Position Eerdmans, Grand Rapids, 2010. pág. 7.

[3] James Davison Hunter, To Change the World. The Irony, Tragedy, and Possibility of Christianity in the Late Modern World Oxford University Press, Oxford, 2010. pág. 264.

[4] A série pode ser lida em http://www.huffingtonpost.com/steve-mcswain/perspectives-of-a-former-_b_834709.html

[5] J. Gresham Machen, “Christianity in Conflict” em DG Hart (ed.) J. Gresham Machen. Selected Shorter Writings. Presbyterian & Reformed Publishing, Phillipsburg, 2004. p. 551.

[6] Ibid,. P. 557.

[7] Borradori, op. cit., p. 31.

Manfred Svensson é professor do Instituto de Filosofia da Universidad de los Andes e autor de livros introdutórios a C. S. Lewis (Clie, 2011), Dietrich Bonhoeffer (Clie, 2011) e Soren Kierkegaard (Clie, 2013).

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