Inteligência Humilhada | Luiz Adriano Borges

O evangelicalismo brasileiro por muito tempo foi avesso ao intelectualismo, aos estudos; aqui o que se via era uma verdadeira bibliofobia, o pavor com relação aos livros. Talvez tal situação ainda perdure na sociedade brasileira, dentro e fora da igreja evangélica, mas também tenho percebido um renascimento da busca intelectual, do conhecimento teológico profundo. A internet tem ajudado bastante através de pregações, blogs, textos, e também temos acesso a versões diferentes da Bíblia, muitas delas de estudos, além de comentários e obras de referência.

Em um outro post, eu disse que existem dois tipo de bons livros cristãos: aqueles mais acadêmicos, com notas de rodapés e ideias complexas, que algumas vezes é pouco acessível ao grande público e existem livros que conversam com o leitor, que te conduzem como um guia em meio a maravilhosas jornadas e são cheios de insights. Mas esqueci que também há um terceiro tipo de livro, que é uma mistura dos dois tipos: acadêmico, sem deixar de ser acessível. É esse o caso do livro do pastor-teólogo (como ele mesmo gosta de enfatizar) Jonas Madureira.

Confesso que esperava um livro complexo, daqueles que você precisa destrinchar o que o autor quer dizer, mas me surpreendi. Inteligência Humilhada é um daqueles raros livros que passam uma mensagem complexa, cheia de detalhes (as notas de rodapé estão lá), mas que consegue ser ao mesmo tempo simples e prático; sente-se o cuidado pastoral, sem descuidar da teologia, o que Jonas tanto gosta de se referir. O autor nos conduz na compreensão do conceito de Inteligência Humilhada na história da teologia e suas implicações para o homem todo, não somente com referência ao seu pensamento, mas também a suas ações práticas.

Ao trilhar esse caminho, Jonas não deixa de tratar de temas espinhosos, como o problema do mal, da antropologia bíblica e da dualidade natureza e graça e como podemos resolver essas questões através da cosmovisão cristã. Jonas usa como arcabouço teórico autores como Agostinho, Anselmo da Cantuária, Calvino, Pascal, Dooyeweerd e Lewis, presentes em toda a tessitura de seu livro, num profundo debate com pensadores atuais; não são usados meramente para “comprovar” suas ideias, mas aparecem em diálogo franco. A maneira como Jonas manuseia esses autores é muito agradável de ser ler.

Jonas inicialmente nos chama a atenção de que “é possível ser piedoso e, ao mesmo tempo, inteligente!” (p. 27).

É a velha máxima “fé que pensa, razão que crê” pregada desde os pais da igreja, mas que precisa ser constantemente enfatizada. Este é o leitmotiv – pra usarmos um termo caro ao autor, o tema, do livro. Precisamos colocar nossas mentes na presença de Deus, Coram Deo. É a esse chamado que trata o capítulo 1.

O capítulo 2 analisa como nossa inteligência sofreu com os efeitos da Queda e se apresenta limitada. O conhecimento nessa situação de des-graça nos torna incapazes de encontrar a verdade por esforço próprio. Dependemos de Deus. É por isso que os mais diversos campos da atividade humana são limitados e apresentam sinais dessa Queda. Por exemplo, desde o século XVIII, enalteceu-se como ferramentas de salvação humanas a ciência, um movimento que tem sido desde o início acusado como cientificismo. Esse cientificismo de forma reducionista coloca a ciência em um pedestal como a única fonte de conhecimento, paz e progresso.

O cristão sabe, ou deveria saber, que o homem é um ser dependente da graça de Deus e que deve depositar sua inteligência aos pés da cruz; é nessa humilhante posição (como nos é apontado pela belíssima imagem da capa do livro – “Cristo lavando os pés de Pedro”, pintura de Ford Madox Brown), que devemos deixar cativo nosso pensamento.

O capítulo 3, “Deus humilhado” é que se apresenta um dos maiores problemas teológicos que tende a nos causar desconforto intelectual: o problema do mal. Em nossa arrogância intelectual, colocamos Deus no banco dos réus para que se explique; em resposta somos apontados para a humilhação de seu Filho; o Deus cristão não é uma divindade que se diverte com os males do mundo, mas sim que se compraz com as necessidades humanas e desce para fazer parte desses sofrimentos.

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Para o homem se conhecer (capítulo 4) deve saber que não é somente cérebro-mente, mas que também nas Escrituras é tratado como sendo composto por alma, coração, carne e espírito; na ordem,

. um ser desejante,

. um ser deliberante, que delibera sobre a direcionalidade do desejo;

. um ser contingente, limitado pela fragilidade da carne;

. um ser vivente, cuja vida/espírito vem de Deus.

Assim, chegamos ao mais denso capítulo, que trata da “Traição dos teólogos” (cap. 5), que para Jonas se origina na insubmissão à cosmovisão cristã. Nesse capítulo o autor explora o conceito de cosmovisão cristã (que considero um dos conceitos teológicos mais importantes de serem conhecidos pela igreja brasileira, impactando ações de missão e pregação).

O abandono da cosmovisão cristã tem produzido crentes pouco apegados aos estudos, com uma visão negativa do trabalho (“fazei tudo pela glória de Deus”, 1Co 10.31) e avesso ao conhecimento científico. Construímos redomas “cristãs” e não nos envolvemos no mundo. Jonas não deixa de enfatizar a prioridade da pregação, mas sem cair em dualismos, nos quais a igreja e o “mundo” são coisas separadas.

O livro de Jonas Madureira é um chamado ao crente colocar sua inteligência a serviço do Reino. Ao terminar o livro com uma oração, expõe na prática o que todo crente deve fazer: cultivar sua mente, mas em profunda devoção. É uma obra que procura trazer um equilíbrio necessário à igreja brasileira, que tem profundas resistências ao trabalho intelectual. Em uma sociedade onde reina o secularismo e uma pretensa autonomia do pensamento, principalmente expostas em nossas universidades, já é tempo do cristão recuperar a cosmovisão cristã.

Este livro de Jonas Madureira é um grande exemplo do renascimento da mente cristã, sem deixar a piedade de lado, que vem ocorrendo entre alguns teólogos brasileiros. Oremos para que essa mensagem se propague e que nossas igrejas e seus membros não sejam um vazio intelectual.

Um livro fundamental para conhecermos conceitos importantes e refletirmos para onde pode ir o protestantismo brasileiro.

P.S.: Um outro livro que me veio à mente quando pensava na mensagem de Jonas Madureira, e que possa interessar, é “O triângulo do reino”, de J. P. Moreland. A descrição do livro é suficiente para perceber a semelhança: “É possível hoje ser intelectualmente desenvolvido, emocionalmente centrado e satisfeito com uma vida de intimidade com Deus e ter uma vida interior vibrante, marcada pelo poder sobrenatural do Reino e as manifestações miraculosas do poder do Espírito.”

Luiz Adriano Borges é professor de história na UTFPR-Toledo, lecionando sobre história da técnica, tecnologia e sociedade, filosofia, sociedade e política. Sua área de pesquisa centra-se na História e Filosofia da Tecnologia e da Ciência. Seus projetos mais recentes são: “A visão cristã da tecnologia” e “Esperança em Tempos de guerra. Ciência, tecnologia e sociedade em Tolkien, Huxley, Lewis e Orwell (1892-1973)".
Inteligência humilhada é fruto de uma cuidadosa reflexão sobre como se relacionam o conhecimento de Deus e os limites da razão humana. Além disso, é o resgate de uma tradição do pensamento cristão que sempre se recusou a reduzir o debate entre fé e razão nos termos do racionalismo ou do fideísmo. A finalidade do conceito de “inteligência humilhada” é despertar o interesse por uma razão que ora e uma fé que pensa.

Seguindo o conselho de João de Salisbúria, Jonas Madureira subiu nos ombros de cinco gigantes da tradição cristã: Agostinho de Hipona, Anselmo da Cantuária, João Calvino, Blaise Pascal e Herman Dooyeweerd. Todos eles serviram de ponto de partida e fundamentação do conceito. Ao longo deste livro, essas cinco vozes, sobretudo a de Agostinho, são ouvidas nos mais diversos assuntos: teologia propriamente dita, revelação natural, problema do mal, gramática da antropologia bíblica, formação de um teólogo entre outros.

Publicado por Vida Nova.

1 Comentário

  1. Em decorrência da “alegria do ignorar” e a não-responsabilidade, renunciada na ausência do conhecimento razoável dos temas mais profundos, em muitas comunidades de fé, temos difundida o poder/mover em detrimento do conhecimento e sua profundeza – que traz à esteira, responsabilidade e deveres consigo.
    Não é aceitável em plena era do conhecimento e seus inúmeros canais de difusão, as mais descabidas desculpas para evitar o que deve ser cultivado, sobretudo para o enlevo espiritual do cristã, por conta de visões carregadas de conceitos infundados, receios não-comprovados ou simples e mera omissão.
    Atualmente temos o desafio de um preparo cada vez mais acentuado, no intuito (não apenas de convencimento) de expor a fé de forma ampla, isenta de filtros que atrapalham a conexão com o outro. Precisamos ensinar, em um mundo que ultraja a imagem do ser em relação ao Deus todo-poderoso, ao meio ambiente e suas inter-relações. Que simplifica o amor e reduz sua eficácia. A partir de uma re-leitura em nós, do evangelho e seu sentido amplo, permanecer às margens da praia e abdicar a profundeza, é uma opção de quem, simplesmente, ojeriza gratuitamente o saber e abraça sua vontade em desconhecer por medo de por vezes descobrir que suas crenças ou achismos eram alienações absurdas.

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