Jesus realmente ressuscitou dos mortos? | Jonathan Silveira

Em nosso calendário ocidental, há várias datas cristãs comemorativas. Entretanto, por estarmos tão impregnados de doutrina consumista, não raro esquecemo-nos de que o real sentido de tais datas transcende o materialismo. É o que acontece, por exemplo, com a páscoa.

Muito mais do que uma data de coelhinhos e ovos de chocolate coloridos, a páscoa é a celebração da ressurreição de Jesus Cristo, após ter sido morto por crucificação. A páscoa é a celebração da vitória de Jesus sobre a morte. Mas, ao que parece, a história da ressurreição de Jesus foi secularizada e ganhou ar mitológico, juntamente com o coelhinho da páscoa. Nada contra os mitos. Alguns são instrutivos e bem interessantes. Mas, se algo que chamamos de mito fosse, na verdade, um acontecimento histórico real, seria lamentável negarmos a sua veracidade. Neil Armstrong se sentiria, no mínimo, injustiçado se soubesse que seus conspiradores pregam que o homem nunca pisou na lua. Do mesmo modo, não reprovaria a revolta judaica diante do ignorante que afirma a inocorrência do holocausto. Assim, ainda que com entonações mitológicas, as verdades merecem ser tratadas como verdades.

E quanto à história da ressurreição de Jesus? Trata-se apenas de um mito de onde podemos tirar algumas lições de moral, ou trata-se de um acontecimento histórico real? E, se a história for realmente verdadeira, quais são as suas implicações?

Sem dúvida, o maior empecilho para se acreditar na ressurreição de Jesus é o caráter sobrenatural que permeia o caso. É um evento que extrapola o corriqueiro e os limites da experiência humana. Em outras palavras, o maior obstáculo para se crer na ressurreição é a descrença em milagres. É importante salientar que não analisaremos aqui a possibilidade filosófica dos milagres. O que iremos investigar aqui é se existem bons motivos para se acreditar na ressurreição de Jesus. E, de fato, há muitos bons motivos para se crer na ressurreição como sendo a melhor explicação aos eventos bíblicos históricos. Aqui, iremos analisar os mais importantes.

A maior fonte de informações históricas sobre Jesus é a Bíblia. Esse é o livro que devemos investigar. Para fins metodológicos, iremos tratar a Bíblia não como um livro inspirado por Deus e inerrante, mas somente como um livro histórico do século I. Vamos investigar quais são os fatos que a Bíblia estabeleceu em relação ao destino de Jesus e qual é a melhor explicação para esses fatos.

Basicamente, o Novo Testamento estabeleceu seis fatos a respeito de Jesus:

FATO N. 1. Jesus foi julgado e executado por crucificação:

De acordo com os evangelhos, Jesus foi julgado e condenado pela corte judaica sob a acusação de blasfêmia e entregue aos romanos para ser executado por traição por se autodenominar rei dos judeus.

Essa afirmação é confirmada por fontes bíblicas independentes como nos evangelhos, nas cartas de Paulo e no livro dos Atos dos Apóstolos; mas também é confirmada por fontes externas, extra-bíblicas, tais como nas obras do historiador Flávio Josefo, que presenciou o nascimento do cristianismo primitivo, bem como nas obras de Tácito e Luciano e no talmude judaico.

Além disso, um osso do tornozelo de um homem crucificado, perfurado por um prego, foi encontrado em Jerusalém em 1968, o que demonstra que, naquela época, pessoas realmente eram crucificadas.

FATO N. 2. Jesus morreu na cruz:

Uma teoria universalmente rejeitada por estudiosos defendia que Jesus não morrera na cruz, mas que apenas havia desmaiado.

O problema é que isto contraria brutalmente o contexto factual, pelos seguintes motivos:

1. Tanto os inimigos quanto os amigos de Jesus acreditaram que ele havia morrido. Como se sabe, os romanos eram cruéis e especialistas em matar pessoas. Jesus foi açoitado várias vezes, recebeu uma coroa de espinhos, carregou sua cruz durante um trecho do caminho até a colina, foi crucificado e teve seu lado direito da região peitoral aberto por uma lança de um soldado, que queria garantir a sua morte (vide João 19.32-33). A morte de Jesus foi confirmada até mesmo por Pilatos, o qual havia entregado Jesus à vontade do povo (vide evangelho de Marcos 15.44-45).

2. Jesus foi embalsamado com 34 quilos de bandagens e especiarias. É altamente improvável que José de Arimateia e Nicodemos pudessem ter embalsamado por engano um Jesus que ainda estivesse vivo (João 19:38-39).

3. Mesmo que todos estivessem errados sobre o fato de Jesus realmente estar morto quando foi para o túmulo, um homem gravemente ferido e sangrando muito não estaria vivo 36 horas depois.

4. Se ele tivesse sobrevivido ao túmulo frio, úmido e escuro, como ele teria conseguido remover as bandagens, a pedra do túmulo e passar pelos guardas de forma despercebida? Por mais que tivesse conseguido, ele não teria convencido os discípulos que era um Salvador.

FATO N. 3. Após sua crucificação, Jesus foi sepultado em uma tumba de José de Arimateia:

Esse fato é muito relevante, pois significa que a localização da tumba de Jesus era conhecida. Como membro do Sinédrio (o conselho judaico), que condenou Jesus, José de Arimateia não pode ser uma invenção cristã, pois havia grande hostilidade entre os cristãos e os líderes judeus. Aos olhos dos cristãos, foram as autoridades judaicas que planejaram a condenação judicial de Jesus. Mas os autores do Novo Testamento registram que Jesus foi sepultado por José de Arimateia, um membro do Sinédrio – o conselho do governo judaico que sentenciou Jesus à morte por blasfêmia.

Esse não é um fato que poderia ter sido inventado. Os cristãos guardavam amargura contra as autoridades judaicas. Por que colocariam um membro do Sinédrio de forma tão positiva? E por que colocariam Jesus na sepultura de uma autoridade judaica? Se José não sepultou Jesus, a história teria sido facilmente exposta como fraudulenta pelos inimigos judaicos do cristianismo. Consequentemente, o sepultamento de Jesus por José é muito provável, uma vez que é quase inexplicável por que os cristãos inventariam uma história sobre um membro do Sinédrio Judaico que fez um bem a Jesus.

FATO N. 4. No domingo após a crucificação, a tumba de Jesus foi encontrada vazia:

Dois principais motivos que nos faz concluir que, de fato, a tumba estava vazia:

1. Na sociedade judaica patriarcal o testemunho de mulheres não possuía qualquer valor. De fato, o historiador judeu Flávio Josefo disse que não era permitido às mulheres servirem como testemunhas em um tribunal judaico. Apesar disso, os evangelhos nos mostram que a descoberta da tumba vazia foi feita por mulheres (Marcos 16.1-11; Mateus 28.1-10; Lucas 24.1-12; João 20.1-18).  Uma dessas mulheres, inclusive, era Maria Madalena, que Lucas admite em seu evangelho ter sido uma mulher possuída por demônios (Lucas 8.2). Isso jamais teria sido inserido numa história inventada. Uma pessoa possessa por demônios já seria uma testemunha questionável, mas as mulheres em geral não eram sequer consideradas testemunhas confiáveis naquela cultura do século I. Desse modo, se você estivesse inventando uma história da ressurreição de Jesus no século I, evitaria o testemunho de mulheres e faria homens – como os discípulos de Jesus – serem os primeiros a descobrir o túmulo vazio e o Jesus ressurreto.

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2. O que as autoridades judaicas estavam dizendo em relação à proclamação dos discípulos de que Jesus ressuscitara? Que os discípulos estavam bêbados? Que o corpo de Jesus ainda estava na tumba? Não! Eles disseram que os discípulos vieram e roubaram o seu corpo. Ou seja, a resposta das autoridades judaicas para a ressurreição de Jesus já era uma tentativa de se justificar o túmulo vazio! Consequentemente, temos evidência do túmulo vazio dos próprios oponentes do cristianismo (Mateus 28.11-15).

FATO N. 5. Em múltiplas ocasiões, diferentes indivíduos e grupos de pessoas presenciaram aparições de Jesus vivo após a sua morte:

Esse é um fato reconhecido pela maioria dos estudiosos, pelas seguintes razões:

1. O apóstolo Paulo, em sua primeira carta à igreja de Corinto, afirma que o Jesus ressurreto:

“apareceu a Pedro e depois aos doze discípulos. Depois disso apareceu a mais de quinhentos irmãos de uma só vez, a maioria dos quais ainda vive, embora alguns já tenham adormecido. Depois apareceu a Tiago e, então, a todos apóstolos; depois destes apareceu também a mim, como a um que nasceu fora do tempo” (1Coríntios 15.3-8).

Esse escrito de Paulo data de cinco anos após a crucificação de Jesus. Considerando a data antiga dessa informação, bem como o relacionamento de Paulo com as pessoas envolvidas, tais aparições não podem ser consideradas como lendárias, mas devem se referir a eventos reais. Ao citar o nome de tantas pessoas que poderiam verificar o que Paulo estava dizendo, ele estava, com efeito, desafiando seus leitores de Corinto a verificar o que dizia. Se a ressurreição e as aparições de Jesus não tivessem acontecido, por que Paulo daria uma lista de supostas testemunhas oculares? Ele teria perdido imediatamente toda a credibilidade diante de seus leitores da cidade de Corinto ao mentir de maneira tão descarada.

2. As narrativas contidas nos evangelhos fornecem depoimentos independentes de testemunhas oculares que presenciaram as aparições. Por exemplo: a aparição a Pedro é confirmada por Paulo e Lucas (Lucas 24). A aparição aos doze discípulos é confirmada por Lucas, João e Paulo. A aparição às mulheres é confirmada por Mateus e João. E as aparições na Galileia são atestadas por Marcos, Mateus e João. As narrativas são independentes e partem de fontes distintas. Logo, não pode ser razoavelmente negado que os discípulos realmente tiveram tais experiências.

3. As aparições não foram alucinações:

a) Como afirmam Norman Geisler e Frank Turek,

“As alucinações não são experimentadas por grupos, mas apenas por indivíduos. São muito parecidas com sonhos. Sonhos, contudo, não são experiências coletivas. […] Quem tem sonhos é o indivíduo, não grupos. As alucinações funcionam da mesma maneira. Se existirem raras condições psicológicas, um indivíduo pode ter uma alucinação, mas seus amigos não a terão. Mesmo que tiveram, não terão a mesma alucinação[1]”.

b) A existência do túmulo vazio é a segunda falha fatal da teoria da alucinação. Se mais de quinhentas testemunhas oculares tiveram a experiência sem precedentes de ter a mesma alucinação em doze ocasiões diferentes, então por que as autoridades judaicas ou romanas simplesmente não exibiram o corpo de Jesus pela cidade?

c) Os judeus acreditavam na ressurreição apenas no fim do mundo. Por isso, seria bastante embaraçoso para os judeus saírem proclamando a ressurreição de um único homem, antes do tempo, a não ser que tivessem certeza.

FATO N. 6. Os discípulos vieram a crer que Jesus ressuscitara dos mortos, apesar de qualquer disposição em contrário:

Pense na situação que os discípulos enfrentaram após a crucificação de Jesus:

1. Seu líder estava morto e a espera judaica messiânica não tinha a ideia de um messias que, em vez de sobrepujar seus inimigos, seria vergonhosamente morto por eles como um criminoso.

2. De acordo com a lei do Antigo Testamento, a crucificação de Jesus o expôs como um herético, um homem que fora literalmente amaldiçoado por Deus. De acordo com a lei de Moisés, qualquer um que fosse pendurado em um madeiro como um criminoso estaria sob a maldição de Deus. Os judeus também aplicavam esta lei a qualquer pessoa que fosse crucificada como Jesus foi.

3. As crenças judaicas na vida após a morte excluíam qualquer pessoa ressuscitando dos mortos para a glória e imortalidade antes da ressurreição geral no fim do mundo.

Apesar de tudo isso, os discípulos vieram a crer tão fortemente que Deus ressuscitara Jesus dos mortos, que estavam dispostos a entregar suas vidas em prol dessa crença. E, de fato, discípulos de Jesus e inúmeros cristãos se martirizaram em nome do que criam. Será que eles estavam dispostos a morrer por uma mentira? Como afirma o professor de filosofia, Peter Kreeft,

“Por que os apóstolos mentiriam? […] se eles mentiram, qual foi a sua motivação, o que eles obtiveram com isso? O que eles ganharam com tudo isso foi incompreensão, rejeição, perseguição e martírio. Que bela lista de prêmios!”

INFERÊNCIA À MELHOR EXPLICAÇÃO

Diante de tudo isso, aplicando-se o princípio indutivo da inferência à melhor explicação, é plausível concluir que a melhor explicação para esses fatos é que Deus ressuscitou Jesus dos mortos, revelando-se a Si em Jesus Cristo.

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Nota: Este texto é uma popularização da defesa da ressurreição de Jesus, de William Lane Craig. Para aprofundamento no assunto, confira o livro “Apologética contemporânea“. Ed. Vida Nova.

[1] Norman Geisler e Frank Turek. Não tenho fé suficiente para ser ateu. Ed. Vida, São Paulo: 2001. p. 309.

Jonathan Silveira é graduado em Direito pela Universidade São Francisco e mestre em Teologia pelo programa Master of Divinity da Escola de Pastores da Primeira Igreja Batista de Atibaia. É casado com Carrie, membro na Igreja Batista da Palavra, em São Paulo, trabalha na área de produção editorial e marketing em Edições Vida Nova e é fundador e editor do site Tuporém.

1 Comentário

  1. Neemias Gomes disse:

    Muito bom!!!

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