Jogando boardgames para a glória de Deus | Luiz Adriano Borges

Em 1940, C. S. Lewis escreveu:

“Por fim, concordo com o Irmão Every de que nosso lazer, até mesmo nosso jogo, é um assunto a ser considerado com seriedade. Não existe um ponto neutro no universo: cada centímetro quadrado, cada fração de segundo, é reivindicado por Deus e contestado por Satanás.” (“Reflexões Cristãs”, p. 71).

Aqueles que conhecem o teólogo holandês Abraham Kuyper logo perceberão a semelhança com sua frase clássica sobre o domínio de Deus sobre todas as coisas. (Não há referências de que Lewis o conheceu ou leu algo dele). A questão é que muitas vezes esquecemos que Deus também está presente em nossos momentos de lazer. Então, podemos aproveitar para tornar esses momentos mais “sagrados”, mais intencionais.

Podemos pensar em “liturgias do jogar”. Como explica James K. A. Smith, somos mais do que seres pensantes, somos seres que amam. E o que amamos nos mostra o que somos. Portanto, podemos utilizar nossas liturgias para cultivar o florescimento humano (veja “Você é aquilo que ama”, p. 74).

O filósofo teuto-americano Albert Borgman já falava sobre fazer práticas focais, tais como corrida, cozinhar e jogar, para contrabalancear a aceleração hipermoderna tecnológica. Isso nos faria seres mais virtuosos. E como fazer isso jogando boardgames?

Primeiramente, por que utilizo essa palavra em inglês e não simplesmente “jogos de tabuleiros”? Porque boardgames estão relacionados a jogos de tabuleiros modernos, que são uma tendência mais atual desse tipo de jogos, surgida incialmente na Alemanha de inícios da década de 1970. A busca era por desenhar jogos que não estivessem ligados à temática de guerra e competitividade excessiva (como os americanos War e Banco Imobiliário), que não fossem tão dependentes de sorte e que não incorresse em expulsão de um jogador durante a partida. Estes foram, e ainda são, elementos principais presentes nesses jogos de tabuleiros. Para quem, como eu, cresceu jogando War e Banco Imobiliário, sabe do que estou falando. Esses jogos pareciam cultivar tudo menos virtudes; quem nunca ficou chateado por ter sido derrotado e expulso logo no começo do jogo? Assim, os boardgames parecem ser mais apropriados para um jogar virtuoso.

Fernando Pasquini escreveu neste mesmo site acerca dos 5 elementos presente nos boardgames: o jogo como lazer e descanso, o jogo como competição e desafio, o jogo como arte e surpresa, o jogo como imitação e representação e o jogo como vertigem e adrenalina.

Sem nos aprofundarmos muito nesses pontos (até porque você pode recorrer ao belo texto do Pasquini), pensemos em como ser virtuosos, como jogar para a glória de Deus em face destes elementos.

Deus descansou e nós também devemos descansar. Apesar de termos um dia da semana para descanso, podemos também jogar durante a semana (desde que eles não atrapalhem nas obrigatoriedades do cotidiano). E fazer isso com o intuito de descansar e trazer alívio para os fardos diários.

  • Todos nós possuímos algum nível de competição e anseio por desafios e os jogos são excelentes para proporcionar isso de forma controlada (Bem melhor e mais civilizado do que uma justa medieval ou um Clube do Luta!). Os jogos de tabuleiros modernos procuram canalizar a competitividade sem ser por demais injustos ou excludentes.
  • O jogo como arte e surpresa. Além de belo, os jogos nos chamam para colocar de lado a busca por controle excessivo do mundo, nos adaptarmos bem às conjunturas que nos são dadas e admirar as belezas simples do cotidiano. Para aqueles que gostam desses jogos, observar os detalhes do design é algo apreciado.
  • O jogo como imitação e representação. Também os jogos nos ajudam a pensar para além dos nossos mundos, nossos contextos. Pode ser um escape no bom sentido, tal como colocou Tolkien em “Árvore e folha”. É aquele olhar para além, cultivar a imaginação.
  • O jogo como vertigem e adrenalina. Todos os seres humanos buscam também em seus momentos de lazer graus de adrenalina. E há graus diversos disso, alguns até fugindo dos limites saudáveis. E os jogos de tabuleiros modernos podem trazer isso, ainda que de maneira contida e segura (a não ser que alguém se irrite por uma derrota e arremessa o tabuleiro ou as peças nos colegas).
  • Em minha experiência, esses elementos são melhores desenvolvidos nos boardgames modernos, porque a maioria deles não enfocam em agressividade, competividade exacerbada, não fomentam o bullying, não trazem mecânicas destrutivas e desagregadoras. Eles são mais colaborativos, criativos e agregadores.

Sendo virtuoso nos jogos de tabuleiros

As virtudes são algo antigo na filosofia. Aristóteles é um dos pensadores iniciais que refletiu sobre isso (veja sua obra “Ética a Nicômaco”), mas o cristianismo também desenvolveu essas ideias, na medida em que isso estaria de acordo com o bom viver. C S. Lewis, inspirado em Paulo, dedica vários capítulos ao tema em “Cristianismo puro e simples” e aponta como virtudes “cruciais” a prudência, a temperança, a justiça e a fortaleza (“Cristianismo puro e simples”, capítulo 2, “As virtudes cardeais”).

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Segundo ele, “a prudência significa o bom e prático senso comum, dar-se ao trabalho de pensar antes de agir e sobre as prováveis consequências de nossas ações”. (“Cristianismo puro e simples”, p. 114).  Os boardgames nos ensinam que uma ação pode desencadear consequências positivas ou negativas no sentido de aumentar as probabilidades de vencer ou perder no jogo. Não podemos ser impulsivos, porque a melhor jogada deve ser pensada e refletida.

“A temperança”, diz Lewis, se refere a “usar de moderação, na medida certa, sem ultrapassá-la” (p. 116). Eu nunca vi alguém viciado em boardgames da mesma forma que vejo pessoas viciadas em outras coisas e até outros tipos de jogos. Claro que existem compradores compulsivos, mas os jogos modernos parecem exigir uma certa carga intelectual que torna um pouco mais difícil ultrapassar barreiras saudáveis de diversão.

Em um boardgame a justiça transparece de forma mais contundente. Lewis diz que esta virtude “trata-se do velho nome para tudo que devemos agora chamar de ‘jogo limpo’, e isso inclui honestidade, reciprocidade, veracidade, cumprimento de promessas e todo esse lado da vida” (p. 117). Encaixa como uma peça perfeita nos jogos: a não observância dessa virtude estraga a diversão. Os boardgames trazem uma justiça também na forma como todos os jogadores têm mais ou menos a mesma possibilidade de vencer, a despeito de suas habilidades físicas ou intelectuais. Em outras formas de lazer, tais como esportes, a exigência de aprimoramento físico pode tornar a diversão “descalibrada”. Já nos jogos de tabuleiros, apesar de ocorrer que um jogador tenha mais prática por ter jogado mais, o equilíbrio é mais facilmente alcançado e a sensação de injustiça desaparece (com exceção dos referidos jogos como War e Banco Imobiliário).

Por fim, a fortaleza, a capacidade de perseverar mesmo à vista de dificuldades. Os jogos de tabuleiros modernos nos fazem perseverar, querer aprimorar nossas habilidades em tal jogo, nos tornar melhores.

Agora, acima de todas essas virtudes e elementos apontados, um dos pontos mais importantes que quero chamar a atenção se queremos jogar boardgames para a glória de Deus está no senso de comunidade.

Nos tempos que estamos vivendo, a noção de comunidade está sendo esfacelada, ainda que surjam clamores pela sua restituição. Não somente pelo contexto de pandemia, em que não podemos nos encontrar tanto com as pessoas, mas também dentro do individualismo exacerbante, colocamos nossos interesses individuais acima de tudo e não nos preocupamos em viver em comunidade. Esquecemos como essa noção é parte fundamental do florescimento humano. Deus nos criou para vivermos em comunidades e fomentar isso através de atividades intencionais, portanto, faz parte do bom cultivo dos relacionamentos humanos. Assim, chamar amigos para jogar boardgames pode ser um belo e virtuoso meio de cultivar comunidade. Mas devemos fazê-lo de maneira intencional, até (por que não?) como meio evangelístico.

Na linha do que pensa Albert Borgmann, o ato de cozinhar e jogar estimula o senso comunitário e retira da centralidade de nossas vidas artefatos que nos roubam a atenção à realidade criada. Tecnologias podem ser boas, mas também nos afasta do senso de pertencimento, sugam nosso tempo e nos distanciam da realidade. Os boardgames recuperam isso ao nos colocar interagindo com pessoas reais, face a face.

Precisamos de uma teologia do lazer. (Neste site talvez eu e o Fernando Pasquini tenhamos dado início à uma teologia dos boardgames). É possível jogar boardgames para a glória de Deus. Por exemplo, o criador do jogo “Terraforming Mars”, Jacob Fryxelius, escreve no manual do jogo: “gratidão eterna ao Criador de Marte e de tudo o mais”.

Confira alguns exemplos de jogos facilmente disponíveis e que cumprem bem os elementos apontados acima:

  • Carcassone
  • Puerto Rico
  • 7 Wonders
  • Kingdom Builder
  • Ticket to Ride
  • Pandemia (colaborativo)

Bibliografia:

C. S. Lewis. Cristianismo puro e simples. Rio de Janeiro: Thomas Nelson, 2017.

C. S. Lewis. Reflexões cristãs. Rio de Janeiro: Thomas Nelson, 2019.

James K. A. Smith. Você é aquilo que ama. São Paulo: Vida Nova, 2017.

Luiz Adriano Borges é professor de história na UTFPR-Toledo, lecionando sobre história da técnica, tecnologia e sociedade, filosofia, sociedade e política. Sua área de pesquisa centra-se na História e Filosofia da Tecnologia e da Ciência. Seus projetos mais recentes são: “A visão cristã da tecnologia” e “Esperança em Tempos de guerra. Ciência, tecnologia e sociedade em Tolkien, Huxley, Lewis e Orwell (1892-1973)".

2 Comentários

  1. Eu tenho um joguinho de corrida no celular, e quando tô jogando meia hora ou mais, sinto que Deus fica me cobrando que poderia estar fazendo algo mais proveitoso como lê e meditar na bíblia, lê e pesquisar livros bons e edificantes, buscar crescimento espiritual, não quero condenar nem criticar quem joga horas a fio, mas eu penso assim e prefiro fazer assim, essa é a minha opinião.

  2. Lucas Pereira disse:

    Texto incrivelmente belo e explicativo.👏👏
    Poderiam escrever um assim só que com
    tema de jogos de videogame?!

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