Jonas e os marinheiros: Uma fé pública em prol do bem comum | Jonathan Silveira

Como cristãos, acreditamos que vivemos em um mundo caído permeado pelo pecado e pelo mal. Sabemos que não pertencemos a este mundo, mas vivemos nele e desfrutamos de todas as coisas boas e belas que ele pode nos oferecer. Às vezes, no entanto, desenvolvemos uma mentalidade muito individualista e, de modo um tanto ou quanto arrogante, acreditamos que nossa identidade cristã nos coloca em uma condição muito superior àqueles que não compartilham das mesmas crenças religiosas que nós. Esse tipo de mentalidade erroneamente nos leva a crer que Deus distribui suas bênçãos exclusivamente entre os cristãos, deixando os não cristãos à sua própria sorte, sem qualquer tipo de benesse.

Claro, o fato de termos o dom da salvação em Cristo Jesus nos torna muito privilegiados, mas, no que se refere às bênçãos comuns aqui nesta terra, tanto cristãos quanto não cristãos são agraciados por Deus. Isso se chama graça comum e ela está ligada ao amor benevolente de Deus. Em Mateus 5.44-45, Jesus diz: “Amai os vossos inimigos e orai pelos que vos perseguem; para que vos torneis filhos do vosso Pai que está no céu; porque ele faz nascer o sol sobre maus e bons e faz chover sobre justos e injustos.” Quando realmente compreendemos que tanto justos quanto injustos desfrutam do sol e da chuva que Deus provê, nossa perspectiva sobre a vida se torna muito menos triunfalista e muito mais humanista (humanista no sentido positivo da palavra). Por quê? Porque passamos a compreender que existe algo de natureza basilar, comum, que tanto cristãos quanto não cristãos compartilham, a saber, todos são seres humanos e foram criados à imagem e semelhança de Deus.

E, se somos todos criados à imagem e semelhança de Deus, todos os seres humanos possuem as mesmas necessidades básicas porque Deus nos fez assim. Todos nós, por exemplo, desejamos amar e ser amados, todos nós queremos paz, respeito, todos nós queremos nos alimentar, nos vestir, queremos um lugar para morar etc. Como, então, a fé cristã se relaciona com tudo isso? Devemos nos importar apenas com o nosso bem ou devemos também nos importar com o bem comum, aquele que é de interesse coletivo, independentemente de crença religiosa?

Pagãos em defesa do bem comum

Uma passagem muito interessante e curiosa que nos ajuda a refletir sobre essas questões é Jonas 1.1-6:

A palavra do SENHOR veio a Jonas, filho de Amitai: Vai agora à grande cidade de Nínive e prega contra ela, porque a sua maldade subiu até mim. Jonas, porém, fugiu da presença do SENHOR, na direção de Társis. Descendo para Jope, achou um navio que ia para Társis, pagou a passagem e embarcou nele, a fim de ir para Társis, fugindo da presença do SENHOR. Mas o SENHOR enviou um forte vento sobre o mar, e caiu uma tempestade violenta, de modo que o navio estava a ponto de se despedaçar. Então os marinheiros tiveram tanto medo, que cada um clamou ao seu deus. E atiraram a carga do navio no mar, para deixá-lo mais leve. Mas Jonas havia descido ao porão do navio; e, tendo-se deitado, dormia profundamente.” O capitão dirigiu-se a ele e disse-lhe: “Que fazes tu dormindo? Levanta-te, clama ao teu deus; talvez assim ele se lembre de nós para que não morramos.”

Já conhecemos bem a história de Jonas e seu contexto bíblico. Sabemos bem que Nínive fazia parte do Império Assírio, que era conhecido por seus atos infames de terrorismo no mundo antigo (incluindo atos contra o Reino do Norte de Israel). Jonas, portanto, odiava a Assíria e não podia conceber que a graça de Deus poderia se manifestar a povos gentílicos. Por isso, ele foge da presença de Deus e vai para Társis. Mas, ao embarcar no navio para fugir, algumas coisas interessantes começam a acontecer.

Em primeiro lugar, vemos que os marinheiros pagãos estão mais preocupados com a situação de perigo do que Jonas, que é um adorador do Deus verdadeiro. Os marinheiros, curiosamente, agem de maneira mais piedosa do que Jonas, profeta de Deus. Os marinheiros tiveram tanto medo que cada um clamou ao seu deus. Jonas, porém, dormia na parte de baixo enquanto a tempestade castigava o navio. Tim Keller diz que Jonas dormia o sono da dor, o sono da tristeza. É aquele sono que tiramos para fugir da realidade, para fugirmos do sofrimento. A maneira que Jonas encontrou para aliviar sua angústia diante da obrigação dada por Deus foi dormindo. Ele não queria pregar para Nínive. Mas, então, o capitão vai até o porão do navio e diz: “Que fazes tu dormindo? Levanta-te, clama ao teu deus; talvez assim ele se lembre de nós para que não morramos.”

Podemos notar que há claramente um contraste entre o senso moral do capitão do navio e o comportamento de Jonas. A indignação do capitão é completamente justa. Enquanto o capitão está pensando no bem comum da tripulação, na sobrevivência, Jonas está dormindo, alheio a toda a situação de perigo. Além disso, eles não são intolerantes. Embora os marinheiros tenham seus próprios deuses, eles estão abertos a invocar o Deus de Jonas naquela situação. Jonas, no entanto, não parece ter a mesma disposição que eles. Estamos, portanto, diante de um caso bastante curioso: a passagem bíblica nos mostra que não cristãos podem agir com muito mais bom senso que um cristão. Estamos diante de uma grande ironia: gentios que adoravam deuses falsos estão pregando a um profeta que adorava o Deus verdadeiro. O que podemos aprender com tudo isso?

Leia também  Opção beneditina ou chamado agostiniano? | James K. A. Smith

Como cristãos, temos a obrigação de lutar pelo bem comum

Deus não nos deu a fé para que exista apenas no âmbito privado, no seio de nossos lares. Nossa fé existe para que tenha reverberação pública. Ela precisa fazer a diferença lá fora. Jesus nos diz que somos sal e luz e que não se pode esconder a luz. A fé cristã precisa ser comunicada e vivida na esfera pública. Mas, o que isso significa? Significa que devemos não apenas pregar o evangelho, mas também praticar boas obras para que outras pessoas possam ser beneficiadas por nossas ações. Precisamos lutar contra a injustiça, contra o racismo, contra a pobreza, contra a degradação do meio ambiente, contra os abusos sexuais e assim por diante, pois todas essas questões fazem parte da luta pelo bem comum. É por isso, por exemplo, que políticos cristãos que sejam sérios e íntegros são muito importantes, mas, é claro, a tarefa não cabe somente a eles, cabe a todos nós.

Enquanto a igreja (principalmente a igreja de ala mais conservadora) continuar fazendo vistas grossas a problemas sociais, enquanto ela criticar pessoas que estão realizando coisas boas pelo mundo, os não cristãos não darão ouvidos a ela. Para que os não cristãos comecem de fato a ouvir o que temos a dizer, é necessário que o nosso discurso seja coerente com nossas ações. De que adianta nós, conservadores, criticarmos o aborto se, muitas vezes, nós mesmos não cuidamos apropriadamente das crianças que já nasceram? De que adianta criticarmos tanto a militância LGBT e continuarmos tolerando abusos sexuais cometidos dentro de nossas igrejas? De que adianta criticarmos o feminismo e continuarmos ignorando maridos que batem em suas esposas e as tratam como lixo? Quando nós, conservadores, deixamos de nos posicionar firmemente nessas questões e de lutar por aquilo que é justo, não cristãos passam a dar atenção a liberais que estão mais engajados com o serviço social do que com o evangelho em si. Renunciamos um terreno que deveria ser cultivado e explorado por cristãos sérios e o entregamos de mãos beijadas à teologia liberal.

Por que William Wilberforce, Dietrich Bonhoeffer, Martin Luther King Jr., Madre Teresa de Calcutá e outros tantos ainda são lembrados com carinho por nossa cultura? Porque eles fizeram algo que impactou o mundo. Podemos dizer que nem todos eles adotaram uma teologia completamente ortodoxa, mas ninguém pode acusá-los de não terem lutado pelo bem comum. E eles fizeram isso motivados pela fé cristã.

Precisamos refletir: será que estamos dormindo o sono de Jonas? Será que os não cristãos estão lutando mais pelo bem comum do que nós? Estamos no mesmo navio que os descrentes – afinal, todos nós habitamos o mesmo mundo – e é também de nosso interesse que façamos o possível para que não morramos na tempestade.

A igreja não pode sempre reagir negativamente às críticas

 Não somos ingênuos. Vivemos em um mundo caído, um mundo que odeia a Deus. É comum então que a igreja sofra ataques furiosos e injustos. Não devemos nos surpreender com isso e precisamos também defender a igreja.

No entanto, também é verdade que somos omissos, negligentes e hipócritas. Por isso, muitas acusações que não cristãos fazem contra a igreja também são justas. As acusações que os marinheiros fizeram contra Jonas eram completamente justas. Não podemos sempre reagir negativamente às críticas que são dirigidas a nós. Precisamos aprender a reconhecer quando erramos. Antes então de fazermos qualquer defesa, precisamos aprender a ouvir a crítica. Talvez o crítico esteja certo em relação àquilo que diz sobre nós. Reconhecer isso requer humildade. E eu acredito que humildade é o primeiro passo para se romper as barreiras existentes com os não cristãos.

Assim como os marinheiros estavam plenamente justificados em exortar Jonas, nós, do mesmo modo, devemos nos conscientizar de que muitas vezes mereceremos a crítica que os não cristãos farão a nosso respeito.

Que Deus nos ajude a sermos coerentes, humildes, pacientes, amorosos, e a reverberar a nossa fé em Jesus Cristo em prol do bem comum. Deus não espera nada menos do que isso.

Jonathan Silveira é graduado em Direito pela Universidade São Francisco e mestre em Teologia pelo programa Master of Divinity da Escola de Pastores da Primeira Igreja Batista de Atibaia. É membro na Igreja Batista da Palavra, em São Paulo, trabalha na área de produção editorial e marketing em Edições Vida Nova e é fundador e editor do site Tuporém.
Em O profeta pródigo, Timothy Keller revela as camadas escondidas do livro de Jonas e mostra que, apesar de o protagonista dessa história ter sido um dos piores profetas de toda a Bíblia, ele tem muito em comum com a Parábola do Filho Pródigo e com o próprio Jesus, o qual vê muitas semelhanças entre si e o “profeta pródigo”.

Assim como a história de Jesus não acabou após três dias no sepulcro, o relato sobre a vida de Jonas também não chegou ao fim depois do mesmo período dentro do grande e misterioso peixe: ainda havia uma segunda parte a ser cumprida em seu ministério. Neste livro, Keller interpreta a extraordinária (e enigmática) conclusão dessa história e nos mostra a poderosa mensagem por trás da vida de Jonas: a extraordinária graça de Deus.

Publicado por Vida Nova.

2 Comentários

  1. Josi Almeida disse:

    Excelente texto que expõe a humildade e sabedoria do autor. Parabéns!

  2. jonaatas Pereira disse:

    Muito bom esse texto.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *