Niilismo e suicídio: a assustadora eloquência do não ser | Jonathan Silveira

Sísifo (Tiziano Vecellio, 1548)

“No princípio o Universo foi criado. Isso irritou muitas pessoas e foi amplamente encarado como um passo errado.” Douglas Adams, O restaurante no fim do universo

1. O mistério da existência

A existência é um mistério. A vida é tão complexa que somos capazes de perceber sua complexidade. Temos consciência de que somos conscientes. Somos as únicas criaturas capazes de fazer perguntas como: “Quem sou eu?”, “Por que estou aqui?”, “Para onde estou indo?” ou “Por que existe algo em vez de nada?”. É justamente em razão de nossa autoconsciência que temos condições de fazer juízos de valor sobre a existência; animais não fazem isso.

Blaise Pascal descreve nossa condição existencial:

“Não sei quem me enviou ao mundo, nem o que o mundo é, nem quem eu mesmo sou. Sou terrivelmente ignorante de tudo. […] Vejo a imensidão aterrorizante do universo que me cerca, e me vejo restrito a um canto dessa vastidão, sem saber por que fui colocado aqui e não em outro lugar, nem por que o breve período da minha vida me foi atribuído neste momento e não em outro em toda a eternidade que passou antes de mim e virá depois de mim. Em todos os lados só vejo o infinito, no qual sou um mero átomo, uma mera sombra que passa e não volta mais. Tudo o que sei é que em breve terei de morrer, mas o que menos entendo de tudo isso é a própria morte da qual não posso escapar.” (Pensamentos)

Talvez não seja tão atraente colocar em xeque a dádiva da existência, mas muitas pessoas o fazem justamente por não vê-la como uma dádiva, mas sim como uma maldição, um fardo grande demais para ser suportado — a ponto de se rebelarem contra a vida.

É intrigante pensar que somente nós, seres humanos, somos capazes de usar a nossa consciência para avaliar se a própria consciência deve existir ou não, se ela deve ser preservada ou aniquilada. Eis o problema do suicídio. Eis o problema do ser ou não ser.

2. Ser ou não ser?

Albert Camus disse que “só existe um problema filosófico realmente sério: o suicídio”. Julgar se a vida vale ou não vale a pena ser vivida. Ser ou não ser? Quem nunca, no fundo, se perguntou se é melhor existir do que não existir?

Somos lançados à existência por Deus sem que possamos escolher isso e, não obstante, Deus nos cobra responsabilidade moral para leis que obrigatoriamente temos que seguir. Ou seja, existimos de maneira involuntária e precisamos nos tornar agentes morais responsáveis como resultado dessa existência — que é involuntária. Precisamos trabalhar 8, 12 horas por dia, pegar o trem superlotado no fim da tarde, dormir poucas horas, estudar e cultivar uma vida intelectual, nos alimentar bem, lavar os pratos, lavar as roupas, nos exercitar fisicamente e nos exercitar na dispendiosa tarefa do amor ao próximo. Enfim, sobreviver. Somos assolados pela tirania do ordinário diuturnamente e basta uma falha nessas áreas para que o nosso mundo se desequilibre. E aí nos perguntamos: por que tudo isso? Qual a razão da minha vida?

Será que nossa vida é um mero trabalho de Sísifo? Esforços em vão? Eclesiastes nos lembra:

“Isso também é um grande mal: assim como o homem vem, assim se vai; e que proveito terá por ter trabalhado para o vento? E por haver passado todos os seus dias nas trevas com tantos sofrimentos, doenças e aborrecimento?” (Ec 5.16-17)

E conclui:

“Aqui está o que concluí: o bom e agradável na vida é comer e beber, desfrutar o resultado de todo o seu duro trabalho debaixo do sol todos os dias da vida que Deus lhe deu. Essa é a sua recompensa.” (Ec 5.18)

No entanto, será que os prazeres que temos são suficientes para compensar o sofrimento pelo qual todos nós passamos?

Em um dos diálogos no livro Os irmãos Karamázov, de Dostoiévski, os personagens Ivan e Aliócha discutem sobre os terrores do mundo e o papel de Deus nisso tudo. Ivan então diz:

“Estabeleceram um preço muito alto para a harmonia, não estamos absolutamente em condições de pagar tanto para entrar nela. É por isso que me apresso a devolver meu bilhete de entrada. E se sou um homem honrado, sou obrigado a devolvê-lo o quanto antes. E é o que estou fazendo. Não é Deus que não aceito, Aliócha, estou apenas lhe devolvendo o bilhete da forma mais respeitosa”.

Será que vale a pena mantermos o bilhete da existência em nossas mãos ou deveríamos devolvê-lo respeitosamente a Deus?

3. A súbita atração pelo não ser

Além da angústia existencial, é claro, pessoas podem decidir dar fim às suas vidas ao enfrentar sofrimentos que entendem ser insuperáveis: uma falência financeira, a culpa decorrente de uma morte acidental causada por um acidente de trânsito, uma depressão que parece infindável, etc. Seja como for, de uma maneira inexplicável e repentina, podemos ser seduzidos pelo nada e ser surpreendidos pela lógica interna do não ser que se apresenta de modo muito atraente, levando-nos à conclusão de que a devolução do bilhete é inevitável.

Qual seria exatamente o fator-chave que faz desencadear essa lógica tão assombrosa? Qual seria a gota d’água que faz com que o nada se torne tão eloquente? Camus sugere:

“Há muitas causas para um suicídio, e nem sempre as causas mais aparentes foram as mais eficazes. Raramente alguém se suicida por reflexão (hipótese, no entanto, não descartada). O que desencadeia a crise é quase sempre incontrolável. Os jornais falam com frequência de ‘aflições íntimas’ ou de ‘doença incurável’. Estas explicações são válidas. Mas teríamos que saber se no mesmo dia um amigo do desesperado não o tratou de modo indiferente. Ele é que é o culpado. Pois isto pode ser suficiente para precipitar todos os rancores e todas as prostrações ainda em suspensão.” (O mito de Sísifo, p. 19).

Dentro de nós habita uma fera. Dentro de nós habita William Foster, Walter White e Lester Nygaard. Desconhecemos plenamente o mal que está incubado dentro de nós. Basta que um evento (por mais ridículo que aparente ser) nos perturbe, nos desequilibre, e podemos provocar um caos que jamais havíamos concebido. Bastam alguns segundos de impulsividade e destruímos complemente o nosso mundo ou o mundo de alguém. Bastam apenas alguns segundos para nos arrependermos para o resto da vida. Existe dentro de nós uma fera enjaulada com barras frágeis, como disse Johnny Cash.

Em 1879, o escritor russo Liev Tolstói passou por uma crise profunda de fé, passando a questionar o sentido da vida e a ter pensamentos suicidas. Suas inquietações foram registradas no livro Uma Confissão. Em um determinado momento, ele diz:

“Minha vida parou. Eu podia respirar, comer, beber, dormir, porque não podia ficar sem respirar, sem comer, sem beber, sem dormir; mas não existia vida, porque não existiam desejos cuja satisfação eu considerasse razoável. […] A vida me dava enjoo – alguma força indeterminada me seduzia para que eu, de algum modo, me desvencilhasse da vida. […] A ideia do suicídio me veio de maneira tão natural quanto, antes, me vinham os pensamentos sobre o aperfeiçoamento da vida. Essa ideia era tão sedutora que tive de usar de astúcia contra mim mesmo, a fim de não colocá-la em prática com demasiada pressa. […] E isso aconteceu comigo na época em que, de todos os lados, eu tinha o que se considerava a felicidade perfeita. […] E foi nessas condições que acabei chegando a um estado em que não conseguia mais viver, tive de usar de astúcia contra mim mesmo, a fim de não me privar da vida. Essa condição espiritual se exprimia, para mim, deste modo: minha vida é alguma brincadeira idiota e maldosa que não sei quem está fazendo comigo.” (Uma Confissão. Traduzido por Rubens Figueiredo. Ed. Mundo Cristão, p. 37).

Esses motivos inescrutáveis e labirínticos, contudo, essa gota d’água que faz com que alguém aja impulsivamente e dê cabo de sua vida, podem se evanescer tão rápido quanto surgiram.

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Andrew Solomon conta em seu livro O demônio do meio-dia o caso de um chef de cozinha bem-sucedido que tentou se suicidar. Recuperando-se em seu leito de hospital no dia seguinte, ele declarou:

 “Não sei por que eu quis morrer, mas posso lhe dizer que ontem isso fazia muito sentido para mim. Eu chegara à conclusão de que o mundo seria um lugar melhor sem mim. Pensei que estava tudo acabado e vi como poderia libertar minha mulher, como seria melhor para o restaurante, como seria um alívio para mim. É isso que é tão estranho, que a ideia parecesse tão óbvia, boa, sensata”. (O demônio do meio-dia, Andrew Solomon, p. 255)

Quem nunca agiu de maneira impulsiva acreditando estar com o aval da razão e, em seguida, se arrependeu? Quando agimos de maneira impensada e impetuosa, por mais que fôssemos convencidos do contrário caso nos abstivéssemos de nossa ação, a fera que habita em nós só está interessada com a irracionalidade do momento.

Não se pode ignorar, todavia, que essa ação repentina é reveladora, pois é fomentada por nosso repertório intelectual e emocional prévio. O suicídio (a súbita atração pelo não ser) depende de uma avaliação de longo prazo orientada por nossos afetos antes de se consumar. Todos nós somos moldados e formados por hábitos e rotinas. A maneira como vivemos e aquilo que consumimos hoje pode nos salvar ou nos matar amanhã. São os nossos amores, nossos afetos, que irão determinar como devemos agir quando formos tentados a agir impetuosamente. Alguém já disse que somos senhores das nossas escolhas, mas escravos das consequências.

4. A vida é uma aposta, mas é uma aposta de amor

A ideia de que a vida vale a pena ser vivida é um pressuposto. Para alguns, é o pressuposto mais difícil de ser aceito. No fundo, não temos respostas exaustivas para as razões da nossa existência. É um mistério. Não temos condições de responder à pergunta: “Por que eu e não outro?”.

Por que Jim Preston não se suicidou ao descobrir que foi despertado de sua hibernação intempestivamente, noventa anos antes de chegar ao planeta Homestead II no filme Passageiros? Porque, mesmo estando carente e sozinho, decidiu apostar no amor, despertando a passageira Aurora Lane. Por que a revolta de Aurora diante desse fato não a conduziu ao suicídio? Porque ela decidiu amar Jim.

No fundo, a vida é uma aposta. Mas é uma aposta de amor. Apostamos que a vida vale a pena porque o amor é real. Não é justo olharmos para a vida como se ela fosse repleta de infortúnios apenas. Somos presenteados por Deus diariamente com sabores, fragrâncias, comunhão, risadas, sono, beleza etc.

Todos nós experimentamos o amor de Deus em grande medida em nossas vidas. Podemos não conhecer o futuro, mas conhecemos o passado. Não sabemos o que o futuro nos reserva, mas, ao olharmos para o passado, sabemos que o amor de Deus esteve presente em nossas vidas. Por isso, por mais que tenhamos sentimentos negativos em relação ao futuro, precisamos nos lembrar que eles não são finais e imutáveis. Como disse Andrew Solomon, o suicídio “é uma solução duradoura para um problema com frequência temporário”. E podemos ter certeza que, assim como Deus esteve presente em nossas vidas no passado, ele estará também presente no futuro.

Precisamos cultivar a lembrança do que Deus tem feito por nós da mesma forma como Deus ordenou que os israelitas, ao cruzarem o rio Jordão, fizessem um memorial para que não se esquecessem da bondade e amor de Deus.

Tudo isso, no entanto, não elimina o fato de que nossa existência é um mistério, pois, como disse o apóstolo Paulo, “agora vemos como por espelho, em enigma, mas então veremos face a face; agora conheço em parte, mas então conhecerei plenamente, como também sou plenamente conhecido.”

Quando estivermos diante de Deus um dia, nossa angústia existencial desaparecerá. Não teremos mais perguntas, porque o céu é autoexplicativo. O amor é autoexplicativo. Por ora, não sabemos exatamente o motivo de nossa existência, mas sabemos que ele nos amou primeiro. Existimos porque Deus nos amou. O Criador de todo o cosmos, o Ser que é autoexistente, o Sustentador de todas as coisas, ele nos amou! Ele não nos criou por carência e solidão (como Jim Preston), ele nos criou por amor e para o amor! Um dia desfrutaremos da força desse amor em toda plenitude e força em eterna comunhão com a Trindade. E isso somente é possível devido à maior expressão de amor que poderia existir: a encarnação de Deus e sua morte.

Jesus disse: “Ninguém tem maior amor do que este, de dar alguém a sua vida pelos seus amigos” (Jo 15.13). E Jesus não fez nada menos do que entregar a sua vida por nós. Ele morreu e ressuscitou para que tenhamos esperança no futuro. Para que olhemos para o dia de amanhã sabendo, sim, que coisas ruins acontecerão, mas que coisas esplêndidas também não irão faltar. E que, seja em momentos de dor ou de prazer, Cristo estará conosco nos lembrando que um dia toda dor será eliminada e que todo prazer será intensificado. Como nos ensina a letra do famoso hino de Gloria e William J. Gaither:

Porque Ele vive, posso crer no amanhã

Porque Ele vive, temor não há

Mas eu bem sei, eu sei, que a minha vida

Está nas mãos de meu Jesus, que vivo está

Por isso, precisamos levar em consideração que a nossa aniquilação é um ato de rompimento direto com o amor. É um ato de rompimento com o amor de Deus e com o amor ao próximo (que sofrerá com a nossa perda). Precisamos, com a ajuda de Deus, direcionar nosso olhar a Deus e ao próximo e não a nós mesmos. Viktor Frankl disse:

“Haveis alguma vez vos dado conta do paradoxo de que a capacidade do olho de apreender o mundo depende de sua incapacidade de ver a si mesmo? Quando o olho vê a si mesmo ou algo de si mesmo? Só quando adoece. Se sofro de catarata, percebo-o sob a forma de uma novem […] O olho deve ter a capacidade de não reparar em si mesmo. E o mesmo acontece ao homem. Quanto menos repara em si mesmo, quanto mais esquece a si mesmo, ao entregar-se a uma causa ou a outras pessoas, mais ele é o próprio homem, mais se realiza a si mesmo.” (O sofrimento de uma vida sem sentido, p. 107)

Que Deus nos ajude a esquecermos de nós mesmos e, assim, lidar com nossas próprias inclinações niilistas; mas que também nos ajude a ter sensibilidade com aqueles que estão prestes a se render em relação à vida.

Jonathan Silveira é graduado em Direito pela Universidade São Francisco e mestre em Teologia pelo programa Master of Divinity da Escola de Pastores da Primeira Igreja Batista de Atibaia. É membro na Igreja Batista da Palavra, em São Paulo, trabalha na área de produção editorial e marketing em Edições Vida Nova e é fundador e editor do site Tuporém.

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