O complexo legado cristão de Elvis Presley | Paul Asay

Elvis Presley (1935-1977)

O rei está morto. Vida longa ao rei.

Mais de 40 anos depois de sua morte, milhões ainda reverenciam o Rei do Rock and Roll. Eles tocam sua música, cantam suas canções e mergulham de cabeça em imitações ruins do homem. Millennials nascidos décadas depois que ele morreu (16 de agosto de 1977, aos 42 anos) podem não conhecer “Heartbreak Hotel” ou “Hound Dog”, mas conhecem seu nome. Mesmo depois de todo esse tempo, a cultura ainda o chama pelo seu primeiro nome: Elvis.

Todavia, apesar de todos os seus singles que chegaram ao topo (18, sendo que foram 11 em seguida), todos os seus álbuns de sucesso (14 deles receberam disco de ouro ou platina) e toda sua influência óbvia na música popular, a vida e o legado de Elvis Presley são complexos (principalmente em relação à sua fé cristã, que ele afirmou ter abraçado, mas nem sempre a seguia muito bem).

“Li muitas biografias de pessoas próximas a ele que diziam que Elvis sempre estava em conflito com Deus”, diz Mark Macias, que escreveu The King: The Final Hours, uma peça que especula sobre como teriam sido os últimos momentos de Elvis na Terra. “Ele queria dar seu talento a Deus, mas o mundo era tentador demais para ser resistido.”

O relacionamento de Elvis com Deus começou cedo. Ele e sua família frequentavam a Primeira Igreja Assembleia de Deus ao leste de Tupelo, Mississippi. Ele foi batizado duas vezes quando criança – uma vez em Tupelo e novamente quando adolescente por um pastor pentecostal unicista em Memphis. (Ele ainda foi batizado pela terceira vez, desta vez postumamente, pela Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias.) Segundo todos os relatos, ele era profundamente religioso.

“Eu creio na Bíblia”, disse ele uma vez. “Eu creio que todas as coisas boas vêm de Deus. Eu não acredito que eu cantaria do jeito que eu canto se Deus não quisesse.”

Para Elvis, o cristianismo e a música estavam intimamente entrelaçados desde o começo de sua vida. Sua mãe, Gladys, diz que (em uma história repetida pelo Beliefnet.com), mesmo quando criança, Elvis se mexia no colo durante os cultos, corria para a frente da igreja e assistia ao coral cantar, às vezes imitando os movimentos do coro.

Lisa Marie Presley, filha de Elvis, diz que o gospel era “sem dúvida” seu gênero favorito. “Ele parecia estar em seu momento mais apaixonado e em paz quando cantava gospel”, escreveu ela no encarte do álbum de No One Stands Alone (um álbum das gravações gospel de Elvis lançado no início de agosto de 2018). No documentário de 1972, Elvis on Tour, Elvis diz que, mesmo naquela época (nos últimos estágios de sua carreira) o gospel era uma fonte constante de consolo. “Fazemos dois shows por noite durante cinco semanas [em Las Vegas]”, disse ele. “Muitas vezes nós vamos lá para cima e cantamos até o raiar do dia. Cantamos gospel. Nós crescemos com o gospel. Ele deixa sua mente um pouco mais tranquila. Tranquiliza a minha mente.”

Macias diz que cresceu amando Elvis e que suas músicas gospel faziam parte da trilha sonora de sua infância. “Há uma história famosa sobre Elvis gravando um álbum gospel”, diz Macias. “Quando a gravação terminou, ele estava chorando e todos na sala se comoveram. Elvis depois disse a todos que podia sentir Deus diretamente quando cantava essas músicas cristãs para Ele.”

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No entanto, embora o gospel fosse uma parte enorme e duradoura da vida de Elvis, a mensagem do evangelho às vezes se perdia na confusão.

Escrevendo para a The Gospel Music Magazine, Cheryl Thurber descreveu Elvis como “uma pessoa que estava em uma busca espiritual”. E, embora Elvis carregasse a Bíblia consigo para todos os lugares, ele também leu a Autobiografia de um Iogue e O Profeta. Em seu livro Careless Love: The Unamaking of Elvis Presley, Peter Guralnick diz que Elvis passou seus últimos meses de vida em reclusão na maior parte do tempo – sua única companhia era uma série de livros sobre espiritualismo.

De acordo com a Christian Today, Elvis disse certa vez: “Tudo o que eu quero é conhecer a verdade, conhecer e experimentar Deus. Sou uma pessoa que está em uma busca. É isso que eu sou.”

Entretanto, até mesmo as pessoas mais sinceras que se encontram em uma busca espiritual podem se desviar. Fama e fortuna podem ser um prejuízo para a fé. Elvis, que nasceu em uma casa de dois cômodos em Tupelo, teve acesso a inúmeras tentações durante sua grande carreira. Sabemos, infelizmente, onde essas tentações o levaram. Na época em que ele morreu, ele estava muito acima do peso e abusava de uma série de drogas[1].

“Isolamento gera abuso de drogas”, diz o falecido Tom Petty na biografia de duas partes da HBO, Elvis Presley: The Searcher. “Sabemos que precisava ser muito solitário. Há um momento em que você tem sucesso e fica realmente rico, e há o dia em que chega a carta que diz que nada disso te fará feliz. Ele sabia que precisava encontrar alguma coisa, mas acho que desistiu.”

Mas Macias especula que, em suas últimas horas, Elvis retornou à fé – um retorno narrado em sua peça.

“Acho que nas últimas horas de Elvis Presley ele pediu a Deus que o perdoasse”, diz Macias. “Ele sabia que havia cometido erros na vida e se arrependeu de algumas das escolhas que fez. Durante suas últimas horas, sabemos que Elvis foi ao piano e tocou músicas cristãs. Duvido que ele fizesse isso todas as noites. Será que esse ato então nos dá alguma indicação de que Elvis estava clamando por Deus? Eu acredito que sim.”

“A maioria dos artistas é sensível”, continua Macias. “Essa é a maneira como nós criamos. Nós nos aprofundamos em nós mesmos e sentimos. Elvis era um grande artista e cantor porque sabia como penetrar fundo em seu espírito e se conectar com um poder superior. Pessoalmente, acho que ele aprendeu isso na igreja quando era menino e isso nunca o deixou”.

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[1] Nota do tradutor: Em inglês, a palavra drug é ambígua, podendo se referir tanto a drogas tóxicas como a medicamentos.

Texto original: The Complex Christian Legacy of Elvis Presley. Aleteia.

Traduzido e revisado por Jonathan Silveira.

Paul Asay é crítico de cinema no site Plugged In e tem escrito em diversos websites, jornais e revistas, como Time, The Washington Post e Beliefnet.com. É autor e coautor de vários livros, incluindo Burning Bush 2.0: How Pop Culure Replaced the Prophet.

1 Comentário

  1. Josi disse:

    Muito bom

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