O cristão e a literatura: fé e ficção | R. C. Sproul

O escritor: um artista da palavra

Quando consideramos o tema literatura, temos de perguntar: O que é um escritor? Nossa preocupação aqui se concentrará no escritor de ficção, e não no poeta ou no jornalista. O escritor pode ser definido como um artista da palavra. Sua tarefa primordial é produzir obras concretas, não abstratas. Existe um processo que filtra as ideias abstratas da literatura técnica para as obras mais amplamente lidas. Por meio desse processo, nossos valores e nossa visão da vida são influenciados pelo mundo do intelecto.

Nesse processo de filtragem do abstrato para o concreto, podemos ver como as ideias abstratas mais tarde alcançam o público mais geral. O padrão normal que parte do conceito teórico para a influência comportamental é transmitido mediante uma forma intermediária de comunicação que inclui escritores de ficção, musicistas e artistas. Se examinarmos a história da arte, da música ou da literatura, notaremos que as histórias dessas disciplinas particulares costumam seguir movimentos paralelos na filosofia. O período racional na filosofia produziu o neoclassicismo na música, na literatura e na arte. Já o pensamento do século 19 produziu o romantismo. Filosofia e arte costumam andar juntas.

Claude Debussy, o compositor francês, escreveu obras famosas como Claire de Lune e Prelúdio à tarde de um fauno. Sua música soava diferente. O tratamento que ele dava à forma musical e à harmonia ajudou a mudar o rumo da música no século 20. Até hoje a música de Debussy é progressiva, ele reconhecia que tinha muita influência da literatura e da pintura. Ele fez pela música o que Monet, Gauguin, Lautrec e Van Gogh fizeram pela pintura. Implementou a filosofia do impressionismo no campo da música. A obra de Debussy ilustra a relação entre a filosofia e o nível intermediário da arte que ajuda a transmitir ideias filosóficas para o público mais amplo. Mais tarde, as ideias são filtradas por jornais e revistas para atingir o nível da população geral.

O trabalho do escritor de ficção é semelhante ao trabalho do artista no sentido de que seu meio é a natureza. Ele encontra referências no mundo real. Usa imagens concretas para descrever o que se desenrola na obra. Certa vez, perguntei a meu editor na Harper and Row: “Como se escreve um romance?”. Ele me disse: “Não se escreve um romance da mesma maneira que se escreve um livro de teologia ou filosofia. No romance, o autor deve escrever com imagens concretas, a partir da própria experiência. Deve pintar imagens com palavras, criar uma atmosfera e um ambiente. O escritor usa vinhetas da vida real que não apenas imitam o que está acontecendo, mas também chamam a atenção das pessoas para sentimentos e experiências que as aproximam ou as afastam de Deus”.

Com isso, as imagens concretas da literatura se tornam símbolos do que é mais abstrato. A grande literatura das eras não foi escrita apenas para imitar a vida. Ela é composta da mesma forma que se faz uma grande pintura. É criada para transmitir a compreensão de algo maior ou mais profundo, captado em um breve instante.

Já fiz uma observação sobre a sensação predominante da perda de transcendência em nossa cultura. Isso fica evidente nos temas da literatura atual. Esses temas diferem dos de outros tempos quando ainda se pressupunha a transcendência de Deus. Um exemplo dessa diferença pode ser visto pela comparação das obras de John Updike, no século 20, com as de Herman Melville, no século 19.

“Escrevi um livro perverso”

Melville foi referido como o maior romancista dos Estados Unidos. Ele escreveu romances sobre aventuras, principalmente sobre a vida em alto-mar, bem como alguns contos e poesias. Seu grande clássico é Moby Dick.

À primeira vista, Moby Dick é um romance sobre a procura de uma feroz baleia branca. Melville ensina ao leitor as técnicas para caçar baleias — como mapear as águas, os barcos a serem usados e a estratégia correta de caça, bem como o metal apropriado para os arpões. Ele até escreveu capítulos que descrevem com detalhes como derreter gordura de baleia. Os detalhes do livro são extraordinários. Embora o romance pareça tratar da caça de baleias, na realidade é muito mais profundo. Talvez seja o romance mais intensamente teológico já escrito nos Estados Unidos. Quando Melville acabou de escrever o livro, enviou uma carta pessoal a Nathaniel Hawthorne em que dizia: “Escrevi um livro perverso”.

Jamais li um capítulo mais comovente, pungente e repleto de insights do que o intitulado “A brancura da baleia”. Ele é pura literatura no sentido clássico. Leia para si mesmo esse capítulo. Enquanto lê, procure o simbolismo nele. A baleia é Deus. Observe como ela é indescritível. A baleia é branca. O branco é a cor que simboliza a pureza; no entanto, é também um símbolo de algo que é ameaçador, assustador e terrível.

Moby Dick é a história de um homem — o capitão Ahab — movido por uma obsessão que lhe consome a vida. Tendo perdido uma perna em um encontro anterior com Moby Dick, agora Ahab pretende capturar a baleia branca e conseguir sua vingança. Ele perseguirá a baleia, se preciso for, até as profundezas do inferno. Ahab viaja pelo mundo, renunciando a todas as outras responsabilidades na louca perseguição para controlar, traçar os movimentos e conhecer todas as ações da baleia branca. No plano simbólico, Ahab é um homem que procura um conhecimento abrangente de Deus para reduzi-lo a algo que ele possa controlar e manipular. Moby Dick é um livro metafísico; é um romance sobre transcendência.

O fato de vivermos numa era de perda da transcendência pode dar a entender que os romances atuais não se preocupam com a religião. Entretanto, na verdade, ocorre justamente o contrário. Por mais que sejamos uma sociedade secular, raras vezes nos deparamos com um romance em nossos dias em que não encontremos alguma alusão à religião. Parece que os escritores de ficção se preocupam com a questão da existência de Deus. As atitudes são diferentes, os pressupostos são diferentes e os sentimentos são outros; contudo, os autores todos tocam no tema da religião. O que encontramos muitas vezes na literatura contemporânea é uma sensação da ausência de Deus. Há um sentimento assombroso de solidão. Temos autores que, à semelhança de Nietzsche, escrevem sobre a morte de Deus, mas fazem isso com lágrimas nos olhos. Ao mesmo tempo, vemos outros escritores de ficção que escrevem com um sentimento de contida esperança, expressando um desejo de que Deus exista e que de algum modo ele se apresente e faça a diferença no futuro. A peça Esperando Godot expressa essa perspectiva. Na peça, o homem espera o aparecimento de Deus na história.

Em grande parte da literatura moderna também existem traços de amargura em relação à religião e até mesmo uma hostilidade declarada à igreja. Essa raiva pode estar dirigida contra pessoas religiosas e até contra Deus. Quando digo que os romances estão repletos de alusões à religião, não quero de modo algum dizer que estas sejam todas positivas. A questão que levanto aqui é que não se ignora a religião na literatura moderna. Ela está lá. Quase todo livro tem um clérigo ou outro personagem com alguma fixação religiosa. A personagem pode ser difamada ou as pessoas tentam fugir dela. Isso ocorre em quase toda a literatura contemporânea. Os romances atuais mostram o que João Calvino declarou há séculos: o homem é irremediavelmente um homo religiosis, “homem religioso”.

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John Updike foi um escritor religioso? Seu livro Rabbit is rich[1] ganhou o prêmio Pulitzer em 1982. Updike escreveu diversos romances, além de contos e poesias. O livro que o tornou conhecido em toda o país foi o primeiro volume da tetralogia Coelho, Rabbit run.[2] Publicado em inglês em 1960, essa obra consistia no comovente retrato de um jovem que cresceu em uma pequena cidade da Pensilvânia e passou por todos os traumas dos jovens de sua geração. As habilidades literárias de Updike tornaram-se conhecidas.

O livro Couples, publicado em 1968,[3] também se tornou best-seller, mas escandalizou o público. Tratava-se de uma versão de A caldeira do diabo, romance que se passa em uma rica cidade da Nova Inglaterra, mas Couples tinha cenas explícitas de relacionamentos adúlteros por todo o romance. Parecia que a cada livro Updike se tornava mais explícito. Entretanto, ele tentava escrever, de forma consciente, de uma perspectiva teológica. Leitor voraz de teologia, ele frequentava a igreja Congregacional de Ipswich (Massachusetts). Updike lera Karl Barth, Paul Tillich, Reinhold Niebuhr e Pierre Teilhard de Chardin. Ele incluiu muitos símbolos teológicos em seus romances. Algumas pessoas o ignoravam por retratar de forma explícita aspectos menos intelectuais da vida humana.

O romance é uma forma de arte. É um veículo único de comunicação, pois vai além de registrar a vida, ele a interpreta. O escritor de ficção é capaz de criar um mundo e convidar o leitor a entrar nele. Ele procura criar empatia em relação a suas personagens. Deseja que o leitor se importe com o que acontece com as personagens. O leitor recebe autorização para “entrar na mente” das personagens, a fim de perscrutar seus pensamentos mais íntimos e sentir suas reações viscerais. O romance deve “funcionar” primeiro como uma história, antes de poder transmitir uma mensagem de forma eficaz.

Os cristãos leem romances?

Eis o ponto em que a ficção cristã enfrenta uma crise. Uma impressão que está se tornando rapidamente uma premissa é que “cristãos não vão ao cinema nem leem romances”. Isso ocorre na comunidade cristã na exata medida em que ela entregou essas formas de arte aos pagãos. As casas publicadoras cristãs tradicionalmente investem pouco em ficção. A ficção publicada consiste geralmente em retratos romantizados de heróis ou heroínas bíblicos, versões cristianizadas de romances de fantasia e romantismo. O dito romance tradicional raramente é encontrado em livrarias cristãs.

Por quê? Os cristãos querem que seus romances preguem o evangelho. A mensagem de Cristo deve ser clara e vigorosa, senão o leitor pergunta: “O que há de cristão nisso?”. A mensagem deve ser perceptível, e as personagens totalmente espirituais. Cair no realismo é visto como traição ao evangelho. Deve-se esconder o pecado na vida das personagens cristãs ficcionais.

A mensagem desses livros, no entanto, é comunicada. E a mensagem ouvida pelo mundo é que os cristãos são hipócritas. O mundo nos considera moralistas, pessoas que julgam todo mundo e ficam dando lições de moral. Talvez isso ocorra porque usamos o romance como uma forma desonesta de pregar.

Para um romance funcionar, o mundo representado no enredo deve ser crível. Isso se aplica mesmo à literatura de fantasia. Deve haver uma autêntica aura de verdade naquilo que escrevemos. Não é preciso ser sórdido para ser realista, mas é preciso ser real. O realismo exige que sejamos reais. É simples assim. Ser real significa parar de mentir na literatura. O mundo criado por Deus, e que ele está redimindo, é real. Poliana não é uma santa.

O escritor de ficção seleciona os aspectos de vida que busca descrever. Ao fazer isso, o autor deve adquirir um olhar semelhante ao de um artista. Ele precisa observar. Também deve ser capaz de enxergar o que ocorre a seu redor, e depois traduzi-lo em imagens verbais que criarão um retrato a ser contemplado pelo leitor.

Há alguns anos, decidi fazer aulas de desenho. Depois de algumas lições, percebi que observava as coisas comuns sob novas perspectivas. Quando dirigia de Stahlstown para Ligonier, as árvores ao longo do caminho, pelas quais eu passei durante anos, de repente apareciam sob uma luz nova e diferente. Comecei a notar árvores onde antes só via ramos e folhas; comecei a reparar como a luz batia em uma árvore, e na textura da casca. De repente, percebi que, por causa das aulas de arte, meus olhos estavam sendo treinados para enxergar coisas antes ignoradas. O escritor de ficção deve desenvolver essa habilidade. Ele deve ser capaz de ver aquilo por que os outros passam e não enxergam. Deve ser capaz de pegar o comum e rotineiro e transformá-lo em extraordinário e digno de nota.

Quando morávamos na Holanda, foi montada uma exposição especial no Museu Stadelick, em Amsterdã, com os primeiros esboços a carvão de Van Gogh. Ele começou como seminarista, preparando-se para o ministério. Como parte do estágio, Van Gogh foi enviado para ministrar aos mineiros de carvão flamengos, na Bélgica, e lá começou a manifestar os profundos problemas psicológicos de depressão que mais tarde o levaram à demência.

Seu trabalho inicial consistia em fazer esboços do que ele via na vida dos mineiros que viviam na mais completa pobreza. A exposição contou com numerosos esboços de sapatos. Van Gogh desenhou o sapato de um mineiro flamengo com detalhes tão intrincados que o sapato contava a história da miséria desse homem. Ao desenhar um sapato, ele conseguiu captar a vida do mineiro flamengo. Como “instante frutífero”, o desenho do sapato esboçado em carvão, mostrando todos os seus vincos, arranhões, fuligem e sujeira, falava bem alto. Era uma declaração sobre a vida. Van Gogh jamais teria feito uma obra assim se não tivesse primeiro tido olhos para reconhecer o que estava à sua frente. O artista da palavra é capaz de fazer o mesmo com a escrita.

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[1] Edição em português: Coelho cresce (São Paulo: Companhia das Letras, 1992).

[2] Edição em português: Coelho corre (São Paulo: Nova Cultural, 1989). A tetralogia Coelho é composta por quatro romances do autor: Coelho corre, Coelho em crise, Coelho cresce e Coelho cai. (N. do E.)

[3] Edição em português: Casais trocados (São Paulo: Abril Cultural, 1982).

Trecho extraído da obra “Faça diferença”, de R. C. Sproul, publicada por Vida Nova: São Paulo, 2021, pp. 177-184. Traduzido por Rogério Portella. Publicado no site Tuporém com permissão.

rc_sproulR. C. Sproul (1939-2017) foi pastor da igreja St. Andrews Chapel, em Sanford, Flórida, fundador e presidente do ministério Ligonier, professor e autor de diversos livros.
Em "Faça diferença", o estimado teólogo R. C. Sproul mostra como confrontar as questões sociais e morais de nosso tempo com respostas bíblicas eficazes. O dr. Sproul examina primeiramente as principais filosofias que influenciam nossa maneira de pensar e agir: o secularismo, o existencialismo, o humanismo e o pragmatismo. Depois, apresenta ideias sobre como aplicar uma perspectiva bíblica a esferas da vida pública que carecem da influência cristã, como a economia, a ciência, as artes, a literatura e o governo.

Se você deseja fazer diferença de forma real e duradoura em sua família, em seu círculo de amigos, no local de trabalho e na comunidade, este livro lhe mostrará por onde começar.

Publicado por Vida Nova.

2 Comentários

  1. Pedro H. Lima disse:

    Que texto mais excelente!
    Ver algum desenvolvimento de teoria literária cristã é muito enriquecedor. Li recentemente “Um Experimento em Criticismo” do C. S. Lewis, que também é ótimo. Nele, Lewis foca justamente no aspecto de “entrar na mente dos personagens e perscrutar seus pensamentos mais íntimos.” Aliás, segundo ele, não só dos personagens como dos autores também: ler a ficção de um ateu e de um cristão é diferente não tanto porque o mundo que eles representam é diferente, mas porque os seus olhos têm calibragens divergentes, como o Sproul também está dizendo.
    “Perfurei a casca de outra Mônada e vi como é lá dentro.” “[Curei] a ferida da individualidade sem perder seu privilégio.”

  2. Felipe Moura disse:

    Há um projeto de literatura cristã, dê uma conferida no https://t.me/universoanthares

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