O documentário “Flannery” destaca a obra movida pela fé da autora | Jessica Hooten Wilson

Flannery O’Connor insistia em que não haveria biografias a seu respeito porque “a vida entre a casa e o pátio das galinhas não dá um texto empolgante”. Escritora sulista confinada pelo lúpus a uma fazenda nos arredores de Milledgeville, Georgia, O’Connor ensinava às pessoas, por meio de sua ficção, a cavar sob a superfície das coisas a fim de ver a verdade espiritual. Elizabeth Coffman e Mark Bosco aprenderam essa lição de O’Connor e têm muito em que se inspirar para contar a história dela em seu novo documentário Flannery (em cartaz nos cinemas virtuais), ganhador do prêmio Ken Burns Prize for Film em 2019.

O respeitado documentarista (Burns) disse que Flannery o fez “sair e comprar os livros dela”, que é o mais alto elogio que se pode fazer a um filme sobre um escritor. Embora alguns críticos tenham achado o filme insosso ou pitoresco, aos que têm olhos para ver e ouvidos para ouvir, Flannery revela a história inspiradora de uma mulher guiada pela paixão incomum de responder ao chamado de Deus em sua vida.

“Datilógrafa de Deus”

Infelizmente, restam poucas filmagens de O’Connor. Assim, os cineastas lhe deram vida com gravações domésticas, fotos nunca antes publicadas e imagens de sua juvenilia, desenhos e animações em que as personagens se parecem com ela. Ouve-se Flannery ler a própria obra, ou a atriz Mary Steenburgen dar vida a passagens dos diários e cartas de O’Connor. Embora os recortes das décadas de vida de O’Connor lhe contextualizem a obra com detalhes particulares, quando escritores célebres como Alice McDermott ou Mary Karr leem trechos dos Contos Completos, ouvimos que a arte dela transcende sua época e lugar. Em vez de escrever histórias escapistas, O’Connor considerava a ficção “um mergulho na realidade”, e este filme imita essa linhagem profunda.

“Ela via a vida como a ação da graça de Deus. Sem entender isso, é impossível saber o que ela está fazendo, o que essas histórias significam”, explica Michael Fitzgerald. Fitzgerald produziu a adaptação do primeiro romance de O’Connor, Sangue Sábio, dirigido por John Huston em 1979. Depois da produção do filme, o ateu declarado Huston percebeu: “Fui enganado”. O significado de Sangue Sábio havia se insinuado a Huston, e ele teve de admitir: “Jesus vence”. A anedota capta o que a ficção de O’Connor sempre pretende fazer. O’Connor disse: “Meu público são as pessoas que acham que Deus está morto, ao menos essas são as pessoas para quem tenho consciência de escrever”. O’Connor queria ser a “Datilógrafa de Deus”, como confessou em seu Diário de Orações.

O’Connor descreve seu talento como a capacidade de desenhar imagens grandes e assustadoras aos cegos e de gritar aos surdos. O filme mostra-a dedicada a seus desenhos da juventude, aperfeiçoando a habilidade de retratar a vida ao extremo; o escritor Richard Rodriguez sugere que a popularidade de O’Connor com os músicos se deve ao seu ouvido para o modo como as pessoas falam. Dito isso, ela pode ter sido demasiado precisa com o idioma sulista, usando uma língua dos anos 1950 e 1960 que nós, no século XXI, gostaríamos de ter proibido. Hilton Als chama-a de uma “repórter brilhante”, que foi bem-sucedida em “abalar a fantasia da branquitude”, e Alice Walker louva-a por mostrar o “mistério da loucura” sem referência a um color line (termo usado para se referir à segregação racial). Numa entrevista televisiva, O’Connor explica que um escritor deve conhecer a si mesmo e a seu mundo e, “paradoxalmente, estar exilado desse mundo”. Em outras palavras, para escrever fielmente, O’Connor precisava estar “no mundo, mas não ser do mundo” (João 17.14-19).

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Chamada para ser escritora

O filme começa com as linhas de seu diário “Tenho que escrever um romance”, e termina com as cenas do hospital onde O’Connor passou seus últimos meses revisando as histórias no intervalo entre as cirurgias. A cada vez que o filme viaja a um lugar em que O’Connor residiu, os espectadores veem também a igreja em que ela cultuava. Embora tenha sido criada na Igreja Católica Romana, O’Connor escreveu prioritariamente sobre personagens protestantes e afirmava o cristianismo puro e simples. O filme não se concentra nos diferenciais de sua fé tanto quanto em sua perseverança. O’Connor ia diariamente à missa e lia a Bíblia; sua vida de escritora era a sua vocação. Sally Fitzgerald, que abrigou O’Connor como hóspede em Connecticut em 1948 e depois dedicou décadas à edição das cartas e ensaios de O’Connor, lê a vida de O’Connor por meio da parábola dos talentos:

A vida de Flannery O’connor e a obra de Flannery O’Connor eram inteiramente coerentes. Ambas eram a devolução de seus dons ou talentos. Ela considerava a fé um dom. E considerava o talento um dom. E queria devolvê-los com lucro.

Ver a vida de O’Connor como a história angustiada de uma moça inválida e isolada numa cidadezinha é ignorar o essencial. Ao dedicar vida e obra ao doador dessa vida e dessa obra, O’Connor foi capaz de entregar o que recebera.

Assim como os discípulos pediram a Jesus que lhes explicasse o que as parábolas queriam dizer, os leitores das histórias de O’Connor muitas vezes desejam uma orientação para descobrir o que está acontecendo nelas. Flannery é um ponto de partida para os leitores olharem as histórias dela com mais atenção. O filme conecta vida e obra sem subordinar uma à outra. Recomendo que todos compartilhem a reação de Ken Burns e saiam e leiam a obra de O’Connor, talvez começando com “Revelação”. Sua habilidade de escritora pode ajudar-nos a detectar a realidade espiritual num mundo temporal.

Traduzido por William Campos da Cruz e revisado por Jonathan Silveira.

Texto original: ‘Flannery’ Documentary Highlights Author’s Faith-Driven Work. The Gospel Coalition.

Jessica Hooten Wilson é Louise Cowan Scholar in Residence na Universidade de Dallas no programa de pós-graduação em humanidades e educação clássica. É autora de três livros, incluindo "Giving the Devil His Due", que ganhou o prêmio Christianity Today na categoria Artes e Cultura.

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