O erro da tolerância seletiva | Tiago Silva

Hoje estava andando pela rua e vi os rostos de alguns personagens pintados num muro. Eram Anne Frank, Frida Kahlo e Carmem Miranda. Provavelmente elas sejam desconhecidas pela geração atual. Frida Kahlo foi uma artista mexicana que ficou famosa por seus quadros emblemáticos e provocativos, por sua aberta militância socialista e por sua vida amorosa duvidosa. Esses atributos lhe renderam o posto de “la querida” do movimento feminista internacional. Carmem Miranda já faz parte do ideário artístico brasileiro, sendo eternizada pelo apelido carinhoso de “a pequena notável”. Anne Frank, a pequena mártir judia, ficou famosa por seu livro “O diário de Anne Frank” (Het Achterhuis), no qual relata sua experiência de sofrimento enquanto se escondia em sua casa numa Holanda ocupada pelas forças Nazistas.

Cada uma dessas personagens acabou entrando para cultura pop como ícones de algo que essa geração admira, seja a força feminina, seja o carisma, a resiliência e doçura em meio às lutas ou frente à morte. Assim, de alguma forma, a cultura se valeu delas para fomentar valores que parecem importantes a essa geração. Qualquer pessoa conectada a isso reconheceria força na vida delas, mesmo que haja pontos em suas vidas que sejam contrários à visão de mundo de quem reflete sobre o testemunho delas. Nossas vidas continuam a falar sobre nós, mesmo quando formos embora dessa existência.

Há um senso de realidade ética na coletividade, ou seja, as pessoas atribuem valor a aspectos notórios das vidas daqueles que marcaram o mundo de alguma maneira. Isso acontece tanto para o bem quanto para o mal. Talvez você não conheça Albert Speer, Hermann Göring, Reinhard Heydrich ou até mesmo Joseph Goebbels, mas certamente você conhece o nome infame de Adolf Hitler. Esse nome foi amaldiçoado a ser repelido toda vez que for lido ou ouvido. Há um senso ético nisso e, certamente, em todo mundo civilizado, quiçá pelos séculos vindouros, ele será um tipo de consubstanciação do mal. Ele estará para sempre ao lado de nomes como Nero, Gengis Khan, os Bórgias, Tamerlão, Joseph Stalin, Mao Tsé-Tung, Pol Pot e outros. Possivelmente você também não conheça esses outros nomes e suspeito que isso se dê justamente por esse senso ético.

As gerações anteriores, tanto as mais distantes quanto a do século XX, compreenderam que esses personagens eram infames demais para serem lembrados por algo que não sua crueldade. O senso de repulsa fez com que esses personagens fossem execrados pela história, sendo relegados ao ostracismo e de serem lembrados apenas por seus vícios e torpezas. Tudo isso é fruto da revolta frente às injustiças que cometeram e essa revolta não é injusta, mas antes justa, pois é fruto do desejo de justiça que foi negado às gerações massacradas por eles. Uso esse exemplo para afirmar um ponto: o de que o mal notório é notoriamente rechaçado por homens com senso de realidade. A realidade clama isso, pois o mal é mal e o bem é bem. Sem clichês. Vivemos num tempo em que se faz necessário afirmar algo tão elementar. Nadamos no oceano do relativismo epistêmico e axiológico da cultura ocidental.

Em maior ou menor grau, o mal odioso provoca uma reação de contrariedade e isso pode ser traduzido de várias maneiras, seja pela repulsa a aqueles que se fizeram notórios pelo mal, seja pela oposição aberta dos que se opõem a ele. A corrupção é uma chaga aberta em nossa República e desde a redemocratização nosso povo tem testemunhado a cleptocracia. Estamos nos tornando céticos para com a política. Não vemos nada de bom nela. O que desejo afirmar é que de alguma maneira esse senso ético denuncia a corrupção de nosso sistema político e, diante desse quadro social, as manifestações têm demostrado o clamor por justiça – antes calado no peito de nosso povo. Frente ao mal não há espaço para tolerância, nem mesmo um tipo de tolerância seletiva.

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Como poderíamos condenar a reprovação de tais exemplos de materialização do mal? Aqui, um parêntese. Não quero me valer da falácia de apelo ao nazismo (reductio ad hitlerum) para defender meu ponto, mas, antes, demonstrar com o exemplo dos personagens citados que o mal, em menor ou maior escala, provoca naturalmente reação abertamente contrária naqueles que não possuem um sentido de realidade embotado. Desde um ato de corrupção perpetrado por um agente público, pedindo um “cafezinho”, quanto genocídios, só podem ser reconhecidos como ato mal concreto porque há um senso ético presente em nós, do contrário a própria interpretação da realidade estaria posta em xeque. A vida cairia no abismo de significado em todos os sentidos – me perdoe o trocadilho.

Como cristão, afirmo ser esse senso ético proveniente de um ordenamento ético suprahistórico, supracultural e suprahumano, oriundo de uma fonte de norma objetiva transcendente: a Lei eterna divina. Deus, como Rei Criador, instituiu uma ordem criacional (Gn 1-2) e manifestou sua glória por meio de seu propósito expresso na criação. O coração humano manifesta esse senso porque detém essa ordem criacional em seu âmago (Rm 2:14-15). Esse senso ético tem origem em Deus porque é Nele que todas as coisas encontram sentido e propósito. Certamente dentro da riqueza e complexidade da realidade há gradações de excelências no bem e de vileza no mal, isso deve ser considerado na nossa abordagem, contudo destaco o caráter seletivo de como se lida com ambos. Se o bem é visto objetivamente, por que o mal deveria ser tratado seletivamente?

Talvez um leitor secularizado conteste essa afirmação. Contudo, apesar de ancorar meu argumento nas Escrituras, posso afirmar que a objetividade do argumento pode ser defendida por outras confissões teístas e, nesse sentido, a realidade pede a apreciação mais cuidadosa por parte do agnóstico. Todo bem presente neste mundo tem sua fonte em Deus (Sl 84:14) e, quando manifesto na vida de indivíduos (até mesmo aqueles que não creem em Deus), isso se dá da mesma maneira.

Manifestar indignação e oposição ao mal é manifestar o senso ético proveniente da Lei de Deus gravada em nossos corações, do contrário agiríamos como os que “ao mal chamam bem e ao bem chamam mal; que fazem das trevas luz e da luz fazem trevas; que mudam o amargo em doce e o doce mudam em amargo!” (Is 5:20). Certamente isso seria desastroso sob o ângulo lógico, pois, sem objetividade ética, qualquer diálogo discriminatório – quanto bem ou mal, seria no mínimo sem sentido. Não se manifestar frente ao mal é uma forma de minimizar sua maleficência.

Aqui não cabe indignação seletiva, todo mal deve ser denunciado, inclusive aquele que está presente em nossas vidas. Também não cabe tolerância seletiva, pois não é coerente reconhecer objetivamente as virtudes manifestas na vida das pessoas e não resistir ao mal perpetrado por outras. A subjetividade nunca foi uma boa conselheira. A pós-modernidade e o relativismo conseguiram dirimir a culpa oriunda do mal presente em nós e criar o caos ético na sociedade ao retirar a ordem criacional que antes deveria regê-la.

Se essa geração consegue admirar virtudes na vida de pessoas que passaram por esse mundo é porque certamente pode se indignar frente aos vícios dos maus, incluindo seus próprios. Desejar um mundo em que virtudes são celebradas e vícios não são contraditados é tão proveitoso quanto vestir um cadáver para um casamento. Como profetizou G. K. Chesterton: “A decadência da sociedade é louvada pelos artistas assim como a decadência de um defunto é louvada pelos vermes”. Creio que ele concordaria que uma boa dose de filosofia do bom senso não faria mal a ninguém.

Tiago Alexandre da Silva é pastor e missionário na missão Pregue a Palavra em Atibaia. É graduado em Letras e mestre em Teologia (Master of Divinity - EPPIBA). É casado com Adinalda e pai de Natanel.

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