O governo é um resultado da Queda? | Richard Mouw

E se a Queda nunca tivesse acontecido? Será que existiriam instituições como o governo? Ou será que elas são um mal necessário, que existem puramente como um meio de governar a nós, pecadores cheios de impulsos egoístas? Neste resumo, Richard Mouw explora o benefício, o propósito e a concepção da ideia de governo, mostrando como ele pode ser vivificante quando funciona como deveria.

As esferas culturais básicas, segundo Abraham Kuyper, teólogo holandês, “estão aí” desde o princípio. Elas estão “contidas” na criação de alguma forma. Ao atestar tal fato, Kuyper está, novamente, extrapolando os relatos bíblicos explícitos. Não temos na bíblia nenhum trecho onde Deus proclama: “Haja arte! Haja economia! Haja política!”

Então o que significa dizer que todas essas coisas fazem parte do projeto original da criação?

Política e Criação

A insistência Kuyperiana de que a esfera política faz parte do projeto da criação é especialmente interessante nesse contexto. Como qualquer outro calvinista, Kuyper insistia que, sob condições pecaminosas, os governos possuem um ministério da espada, ordenado por Deus. Em um mundo caído, a autoridade política possui uma função curativa. Por um lado, ela mantém nossos impulsos pecaminosos sob controle com ameaça de punição. Eu posso ter vontade de dirigir a vinte quilômetros a mais do que a velocidade permitida, mas a consciência de que eu terei que pagar uma multa se for pego por uma viatura me manterá na linha.

Mas o governo também exercita o ministério da espada. Ele não apenas ameaça punir – às vezes ele pune de verdade. As forças policial e militar do Estado possuem poder para apreender criminosos e aplicar a justiça usando a força. Daí vem a exortação do apóstolo: “Mas, se você praticar o mal, tenha medo, pois a autoridade não porta a espada sem motivo. É serva de Deus, agente da justiça para punir quem pratica o mal.” (Rm 13:4, NVI).

Entretanto, Kuyper não estava satisfeito em restringir o papel do governo no plano de Deus simplesmente a uma função pós-queda. Ele insistia que aquilo que experimentamos como autoridade política sob condições pecaminosas é uma manifestação de algo que já estava implícito no projeto original da criação. Kuyper, em suas Stone Lectures, argumentou que, mesmo que a Queda não tivesse acontecido, uma necessidade de alguma forma de governo teria se desenvolvido. Em um mundo ainda a ser povoado, a autoridade política não teria tomado a forma de nações-estado intimidadoras; ao invés disso, haveria “um único império-mundo, tendo Deus como seu Rei; exatamente o que foi profetizado para o futuro que nos aguarda, quando todo o pecado tiver desaparecido.” Aqui o governo não é, fundamentalmente, uma resposta curativa à perversidade humana, mas uma provisão natural de regular – “organizar” – a complexidade da vida cultural criada.

Exercício Contrafactual

Kuyper gostava de pensar em como seriam as coisas na criação se a Queda nunca tivesse acontecido. É óbvio que isso soa totalmente especulativo para alguns e, em um sentido importante, isso tudo é um exercício de especulação. Porém, para aqueles entre nós que acham que propostas imaginativas biblicamente inspiradas são exercícios teológicos úteis, isso não é necessariamente uma coisa ruim. Levantar questões “contrárias aos fatos” pode nos ajudar com a nossa compreensão do mundo contemporâneo.

Quando Kuyper especula sobre sistemas políticos sem a Queda, ele deseja iluminar algo importante sobre a necessidade pela ordem nas relações humanas. Imagine que um tocador de tuba, que vive em um prédio residencial, deseje praticar diariamente ao mesmo tempo em que a vizinha coloca seus filhos para dormir. Nenhum deles é motivado por impulsos pecaminosos – eles simplesmente possuem desejos diferentes que são, por si só, genuínos. O tocador de tuba quer ser um bom músico, ao passo que a mulher quer ser uma boa mãe. Ou pense em padrões de tráfego. Mesmo pessoas sem pecado algum teriam que concordar sobre qual lado da rua deveriam usar para dirigir. Por isso existe a necessidade de se criar regras para o convívio em conjunto, mesmo quando não é necessário reforçá-las com ameaças intimidadoras.

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É com essas considerações em mente que Kuyper diz que, mesmo que a Queda não tivesse acontecido, ainda precisaríamos de algum tipo de função reguladora de governo. Para oferecer uma refutação eficaz para esse argumento, não basta simplesmente rejeitar o uso do contrafactual; é necessário mostrar que há algo conceitualmente implausível sobre o que o contrafactual quer mostrar, ou seja, a ideia de uma ordem política que regulamenta a vida em um mundo a ser povoado.

Política Vivificante

Nos anos 70, eu participei de uma reunião que tinha o foco em um “discipulado radical”, e um dos palestrantes insistia em dizer que os Estados Unidos havia se rendido ao “caminho da morte”. Seu primeiro exemplo, obviamente, foi a Guerra do Vietnã; aquele grupo era bem crítico com relação àquela operação militar. O palestrante formulou sua tese teológica citando o argumento de William Stringfellow, que era bem popular na época, que dizia que os Estados Unidos eram a manifestação atual do retrato bíblico da Babilônia caída.

Quando eu ouvi aquilo, fiquei impressionado com a diferença entre aquele retrato do sistema político americano rendido ao assassinato de muitos e minha experiência, naquela semana, de acompanhar nosso filho no caminho para a escola. Ele havia acabado de entrar no jardim de infância e precisava caminhar por vários quarteirões no centro da cidade para chegar à escola. Enquanto eu caminhava com ele, eu prestava atenção especialmente nos semáforos e placas de trânsito, como qualquer pai preocupado com a segurança de seu filho faria. Quando estávamos nos aproximando da escola, escutei dois professores mencionarem uma inspeção de segurança que a cidade havia conduzido no dia anterior. Depois, quando eu dirigia ao meio-dia ao campus onde eu lecionava, passei em frente a outra escola onde um guarda de trânsito levava crianças pela mão para atravessarem a rua.

Todas essas coisas que prenderam minha atenção, como um pai preocupado – semáforos, limites de velocidade, placas e guardas de trânsito – se mostraram para mim como serviços vivificantes providos pelo governo. Eu agradeci ao Senhor por elas. À luz desses serviços, a condenação de o “sistema americano” ter sido entregue ao “caminho da morte” se transformou em miopia teológica.

Meu desconforto com esse tipo de visão foi fundamentado no que estou apresentando aqui como um impulso Kuyperiano básico: há algo sobre governo, quando funciona como deveria, que casa perfeitamente com o projeto de criação de Deus para a vida humana.

Traduzido por Filipe Espósito e revisado por Jonathan Silveira.

Texto original aqui.

Richard Mouw é professor de fé e vida pública no Fuller Theological Seminary, onde serviu como presidente durante 20 anos (1993-2013). Obteve seu BA no Houghton College, seu MA na University of Alberta e seu PhD na University of Chicago. Já foi professor no Calvin College e na Free University of Amsterdam. Publicou inúmeros livros, incluindo “He Shines in All that’s Fair: Culture and Common Grace” e “Uncommon Decency: Christian Civility in an Uncivil World”.

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