O ministério da palavra escrita | Arnoldo Canclini

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Qual é a nossa missão como escritores? Há muitas coisas que poderíamos dizer a respeito, mas podemos assinalar algumas que são mais básicas, para sentir a verdadeira necessidade da tarefa.

Em primeiro lugar, temos de perceber o desafio do mundo. Não nos referimos aqui à óbvia necessidade que este tem de conhecer a mensagem da Verdade, mas, sim, a de responder ao uso que outras forças espirituais estão fazendo da palavra escrita. Notamos hoje em dia a superabundância da produção. O que Salomão pensaria atualmente se já em seu tempo opinava que “não há limite para fazer livros” (Ec 12:12)? É questionável que a abundância seja uma bênção. Não podemos restringir a inspiração nem a liberdade de ninguém, mas a facilitação dos meios técnicos deu origem a uma superprodução, em detrimento da qualidade literária e moral. Em empresas, quiosques, vitrines de todo tipo, abundam revistas e folhetins com os quais o público preenche seu tempo, mas não a sua alma e que não acrescentam nada a sua cultura e bom gosto. É urgente pôr em circulação cada vez mais uma produção que tenha um verdadeiro conteúdo positivo e construtivo.

Certamente, dentro do mesmo tema figura o uso cada vez mais abundante por parte das ideologias anticristãs. O intenso uso que os comunistas têm feito em todo o mundo não precisa ser explicado, porque está à vista de todos. Frank Laubach, o campeão da alfabetização em esfera mundial, missionário evangélico, dizia que “os cristãos ensinam o povo a ler e os comunistas lhes dão o que ler”. Isso é especialmente correto em relação às massas recém-alfabetizadas. Ademais, dentro da mesma esfera religiosa parece haver uma regra de que quanto mais herética for uma seita mais ela difunde sua mensagem por meio da palavra escrita. Esses grupos costumam ter pouco acesso a meios como o rádio, a televisão ou os jornais, de modo que voltam seus esforços para a produção e distribuição em massa de sua mensagem impressa. Isso pode ser combatido unicamente por meio de outro impresso.

O problema que surge dos pontos supracitados está na acessibilidade de toda essa leitura. Antes, o homem que tinha um livro era muito privilegiado. Uma única cópia circulava de igreja em igreja. Hoje todos os que querem fazer o mínimo sacrifício financeiro – ou que se atrevam a pedi-lo emprestado – podem conseguir um livro e, muito mais rapidamente, uma revista. Tudo isso se encontra ao alcance de qualquer bolso e de qualquer mão, já que é fácil de encontrar. Em geral, nossa literatura cristã e, lamentavelmente, até a Bíblia se encontraram reclusas em nossas bibliotecas, onde o grande público não vai. Isso certamente é assunto de outra alçada, mas podemos sim pensar em que medida temos sido capazes de produzir uma literatura que se imponha por si mesma ao público geral.

Por fim, devemos assinalar a luta sem quartel – e já perdida segundo alguns – contra outros meios de recepção mais simples. Quadrinhos estão substituindo a leitura, inclusive no gênero emotivo das fotonovelas femininas. Aqueles que escrevem sentem um ardor na boca do estômago quando perguntamos a alguém se já leram Dom Quixote ou Hamlet, por exemplo, e nos respondem: “eu vi no cinema”. Já assinalamos por que esses outros meios não podem substituir a leitura. Numa época em que a tendência a ligar a televisão é maior que a de abrir uma obra séria, a luta deve ser empreendida com tenacidade e capacidade. Há uma segunda razão que devemos aceitar com pesar: temos que lutar pela criação de uma boa literatura cristã, uma vez que, em linhas gerais, temos de reconhecer que não existe uma consciência formada a respeito. Uma forma muito clara de demonstrá-lo encontra-se numa anedota. Um professor de matérias relacionadas com o nosso assunto diz que costuma apresentar-se diante de um público cristão e pede que levantem a mão todos os que oram pelos missionários: imediatamente surge um mar de mãos. Em seguida, repete a pergunta quanto aos evangelistas e então o número de mãos se reduz. Por fim, pede para ver as mãos dos que oram pelos escritores cristãos e não se vê nada, até que finalmente, lá no fundo, se levanta uma mão, “a qual”, diz, “espera que pelo menos expresse algo sincero”.

Em geral, não é certo que um pregador obtém mais admiração e reconhecimento que um escritor? Por quê? É difícil dizer, exceto pelo fato de que se encontram muito mais ouvintes de pregadores do que leitores de bons livros. Isso faz com que, quando se trata de conseguir apoio – inclusive financeiro – para um pregador, seja relativamente fácil consegui-lo, ao passo que é quase absurdo consegui-lo para quem sinta a vocação de escrever como um imperativo divino. Essa falta de apoio se traduz também na esfera espiritual. Basta ver o exemplo sobre a oração.

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Por isso mesmo, é possível que haja muitos bons escritores em potência que nosso meio não tem sabido incentivar ou nem mesmo descobrir. Temos de reconhecer que nos faltam bons escritores. Não podemos jogar a culpa em Deus e dizer que Ele não tem derramado esse dom. Mas há um fato facilmente comprovável, a saber, nem mesmo nos idiomas com uma grande cultura cristã aparecem bons romancistas ou poetas: no ambiente evangélico sobram os dedos de uma mão para contá-los. Mesmo na esfera de produções menos literárias, como os estudos bíblicos, é lamentável comprovar que, apesar dos esforços dos editores – comumente potenciais escritores reduzidos a um escritório para poder sobreviver – o idioma é francamente pobre, quando não horrível.

Tudo isso remonta à falta de consciência de leitura em nosso povo. É certo que há um despertamento nesse sentido, mas o crescimento no nível cultural não tem sido acompanhado de um aumento paralelo no consumo de literatura que inspire ou eduque. Mesmo em nível popular, não se busca a literatura cristã como elemento de distração ou de apoio aos próprios problemas. Possivelmente, enquanto não conseguirmos que os pregadores se transformem em bons leitores e promotores da leitura, não será possível que aumente o número de autores. Alguém nos dirá que enquanto estes não forem bons, no mínimo adequados, não aumentará o número de leituras. E não poderemos negar-lhes a razão… mesmo que duvidemos que sejam bons e adequados os materiais de leitura que são consumidos. Afinal de contas, é um círculo que alguém tem de começar a mover. E quem melhor do que aqueles que sentem uma compulsão divina de pôr por escrito suas palavras?

Fechemos este tema indicando que não basta lutar contra o mal ou contra a indiferença, mas que é necessário ter um propósito adequado para escrever. Devemos analisar a fundo, com a consciência diante de Deus, nossa motivação para escrever. Mesmo quando escrevemos para entreter, nossa finalidade última é conseguir um impacto no leitor. Queremos que se sinta interpelado, que capte nossa intenção de dizer-lhe algo pessoalmente. Por que, além disso, queremos que seja transformado. Como cristãos, queremos que ao terminar a leitura ele esteja diferente de quando a começou. Se não tiver aprendido algo novo, pelo menos deve estar mais contente e seguro de sua experiência espiritual. Por isso, nos atrevemos a dizer que, assim como fazemos com a pregação, ao escrever estamos procurando decisões da parte dos leitores. É verdade que quase nunca chegaremos a conhecê-las, mas é uma das bênçãos do escritor: saber que ao chegar à eternidade encontrará uma multidão de resultados que jamais imaginou na terra.

Terminamos citando a palavra de um especialista. Ao definir qual é a missão do escritor cristão, Clifton Allen, por muitos anos secretário geral do programa literário dos batistas do sul dos Estados Unidos, disse que nosso propósito há de ser:

Fazer com que o evangelho eterno seja uma realidade vivente atual; contar a história das boas novas do amor de Deus em Cristo, de modo que os corações humanos (pecadores, cansados, desesperados) lancem exclamações de gozo em todas as partes; relacionar a sabedoria desvelada das escrituras com os problemas e tensões de nossa geração, para que os homens digam “Provemos o caminho de Deus”; mostrar tão claramente o poder do amor e das bênçãos da justiça e a realidade da vida duradoura que os leitores queiram seguir a verdade, praticar o amor, sofrer com paciência e entregar-se ao serviço de Cristo.

É uma bela meta, não é? Acaso não vale a pena esforçar-se para alcançá-la?

Trecho extraído da obra “Escribe! Manual del escritor cristiano”, de Arnoldo Canclini. Buenos Aires, Ediciones Certeza, 1978, p. 18-22. Excerto traduzido por William Campos da Cruz.

Arnoldo Canclini (1926-2014) foi doutor em filosofia e letras pela Universidade de Buenos Aires, pastor batista, doutor honoris causa em teologia e professor.

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