O problema do mal | Gregory Koukl

Uma onda de best-sellers escritos por ateus tem forçado os seguidores de Cristo a confrontarem uma objeção bem antiga: o problema do mal, considerado por alguns a prova mais poderosa contra a existência de Deus.

Na verdade, eu penso que ela prova justamente o contrário. A objeção se apoia na observação de que o mal apenas “existe” como uma característica objetiva do mundo. Nisso reside o problema do ateu.

Boliche e maldade

Pense desta forma: como saber a diferença entre um bom jogador de boliche e um ruim? Pela pontuação deles, é claro. É preciso que haja uma forma de marcar pontos para que possamos diferenciar o jogador medíocre do excelente. C. S. Lewis explicou que um retrato é bom ou ruim dependendo do quanto ele se parece com o original, que é “perfeito”.

Da mesma forma, o mal é um julgamento de valor baseado em um sistema de pontuação, um padrão de perfeição moral que não é visto em meio ao mal.

Dizer que algo é mau, portanto, é fazer um julgamento moral, e julgamentos morais não fazem sentido fora de padrões morais. O mal como um valor de julgamento aponta uma aversão a tal padrão de moralidade. Se não há padrão, não há aversão. Lewis escreve:

Meu argumento contra Deus era o de que o universo parecia injusto e cruel. No entanto, de onde eu tirara essa ideia de “justo” e “injusto”? Um homem não diz que uma linha é torta se não souber o que é uma linha reta.[1]

Eis a pergunta-chave: de onde vem o padrão moral? É produto do acaso? A moralidade simplesmente cai do céu? Qual cosmovisão compreende melhor a moralidade objetiva?

Responder a essas perguntas ajuda a acabar com a confusão dos dois lados do muro. Alguns cristãos afirmam que nenhum ateu pode ser alguém verdadeiramente moral, ao que rebateu Michael Shermer, editor da revista Skeptic (“cético”, em inglês): “Eu sou ateu, e sou moral”.

É uma resposta muito superficial, mas ela funciona porque a afirmação feita pelos cristãos está equivocada. A questão não é se o ateu pode ser moral, mas sim se ele consegue compreender a moralidade em um universo sem Deus. É isso que os filósofos chamam de “o problema do embasamento”. Em que a moralidade se baseia? Ela se “apoia” em que, por assim dizer? Por que o universo é do jeito que é?

Acho que podemos chegar muito mais perto da resposta para estas perguntas se simplesmente refletirmos sobre a natureza da lei moral. Ao fazermos observações sobre o efeito – moralidade – podemos determinar suas características, para então podermos perguntar qual causa é adequada para produzi-la.

Quatro observações sobre moralidade[2]

A primeira coisa que observamos sobre regras morais é que, embora existam, não são coisas físicas porque não parecem possuir propriedades físicas. Nós não esbarramos nelas no escuro. Elas não expandem no espaço. Não possuem peso. Não possuem propriedades químicas. Em vez disso, são coisas imateriais que descobrimos através do processo do raciocínio, da introspecção e da reflexão, sem que precisássemos usar nossos cinco sentidos.

Esse insight é bastante profundo. Nós nos deparamos, com alto grau de certeza, com algo que é real. Mas, mesmo assim, é algo que não pode ser provado empiricamente ou descrito usando leis naturais. Isso nos ensina que há muito mais no mundo do que apenas o universo físico. Se coisas não físicas – como as leis morais – realmente existem, então o materialismo, como cosmovisão, é falso.

Muitas outras coisas parecem habitar o mundo, como proposições, números e as leis da lógica. Valores como felicidade, amizade e fidelidade existem também, junto com os significados e a linguagem. Pode até haver pessoas – almas, anjos e outros seres divinos.

Nossa descoberta também nos indica que realmente existem algumas coisas às quais a ciência não tem acesso, mesmo em princípio. Algumas coisas não são regidas por leis naturais. A ciência, portanto, não é a única disciplina que nos dá informações verdadeiras sobre o mundo.

Segue-se, então, que o naturalismo como cosmovisão também é falso. Nossa descoberta sobre as leis morais nos força a expandir nosso conhecimento da natureza da realidade e a abrir nossas mentes para a possibilidade de um conjunto de coisas novas que habitam o mundo no reino invisível.

Em segundo lugar, as leis morais são uma forma de comunicação. Elas são proposições: afirmações inteligentes de conhecimento transmitido de uma mente a outra. As proposições são imperativos, ordens. Uma ordem só faz sentido quando há duas mentes envolvidas, uma dando a ordem e a outra recebendo-a.

Existe uma terceira coisa que percebemos quando refletimos sobre leis morais. Elas possuem uma força que, muitas vezes, sentimos antes de qualquer comportamento. A isso damos o nome de incumbência das leis morais, o “dever” da moralidade. Ela apela para a vontade da pessoa, levando-a a agir de certa forma, embora ela, com frequência, despreze esta força e escolha a desobediência.[3]

Finalmente, existe um profundo desconforto que pessoas emocionalmente saudáveis sentem quando violam ditados morais claros e convincentes – uma espécie de dor ética – fazendo com que percebam que fizeram algo errado e merecem punição. Este senso de culpa traz consigo não apenas a percepção desconfortável do mal agir, mas também o receio de ter que responder por isso. Distrações e negação podem adormecer temporariamente a dor ética, mas ela nunca desaparece por completo. Apenas sociopatas conseguem silenciar a consciência completamente.

Limitando nossas opções 

Estas quatro observações nos dão uma fundação a partir da qual podemos responder à pergunta “Por que moralidade?”. Precisamos apenas determinar as opções possíveis, para então perguntar qual delas melhor explica nossas observações.

Aqui vale uma palavra de cautela. Neste ponto nossa discussão se torna pessoal, porque a resposta final para nossa pergunta tem sérias ramificações em como vivemos nossas vidas. Nós nos sentimos tentados a deixar de pensar de forma meticulosa quando surgem conclusões que nos deixam desconfortáveis. Ninguém fica em cima do muro ao se deparar com uma quantidade limitada de opções. Quando se vê claramente uma grande quantidade de escolhas, rejeitar uma significa aceitar outra.

Nossas opções se limitam a apenas três. Primeira: moralidade é apenas uma ilusão. Segunda: regras morais objetivas existem, mas são meros acidentes, são produto do acaso. Terceira: regras morais não são acidentes, mas sim produto de inteligência. Qual opção faz mais sentido dadas as nossas quatro observações sobre moralidade?

Alguns querem argumentar que não existe moral, que ela não é nada mais do que ilusão, algo fictício, porém útil, que nos ajuda a viver em harmonia. Esta é a resposta dos relativistas. Este ponto de vista não é uma opção para os que levantam o problema do mal. A queixa deles sobre a injustiça do universo é um reconhecimento tácito de moralidade. C. S. Lewis observou:

Assim, no próprio ato de tentar provar que Deus não existe – ou,, por outra, que a realidade como um todo não tem sentido –, vi-me forçado a admitir que uma parte da realidade – a saber, minha ideia de justiça – tem sentido, sim. Ou seja, o ateísmo é uma solução simplista. Se o universo inteiro não tivesse sentido, nunca perceberíamos que ele não tem sentido – do mesmo modo que, se não existisse luz no universo e as criaturas não tivessem olhos, nunca nos saberíamos imersos na escuridão. A própria palavra escuridão não teria significado.[4]

Alguns vão por outro caminho. Eles acreditam em moralidade objetiva, mas afirmam que Deus não é necessário para embasar a ética. Nós a descobrimos como parte da mobília do universo, por assim dizer, mas ela não tem (e não precisa de) explicação. Parece que foi esse o caminho escolhido por Christopher Hitchens, autor do best-seller de deus Não É Grande – Como a Religião Envenena Tudo.

E isso não serve por uma boa razão: regras morais que não possuem embasamento ou justificação não precisam ser obedecidas.

Quero dar uma ilustração aqui. Um dia, jogando Scrabble, você nota que as palavras “não vá” foram formadas no tabuleiro, em meio à confusão de peças do jogo. Seria isso uma ordem que deve ser obedecida? Claro que não. Não é uma ordem de forma alguma, apenas uma coleção aleatória de letras.

Ordens são comunicações entre duas mentes. O acaso pode até criar a aparência de uma regra moral, mas não pode haver uma ordem bona fide se não há ninguém falando. Já que estas palavras são acidentais, podem ser ignoradas sem problema algum.

Leia também  Argumentos que se autorrefutam | Gregory Koukl

Mesmo se há alguém por trás da comunicação, pode-se ignorar a ordem se não tiver o respaldo de alguma autoridade adequada. Se eu ficasse em pé no meio de um cruzamento com as mãos para cima, os carros poderiam até parar voluntariamente, mas não teriam o dever de fazê-lo. Eles poderiam me ignorar sem o medo de receberem punição, porque eu não possuo autoridade para controlar o trânsito. Por outro lado, se um guarda de trânsito estivesse no meu lugar, todos teriam o dever de parar.

Qual é a diferença entre o guarda e eu? Minha autoridade é infundada. Ela não se apoia em nada sólido. O guarda, entretanto, representa o governo, então sua autoridade é justificada. O Estado pode designar representantes legítimos para realizar sua vontade porque funciona dentro de seu próprio domínio.

Com isso, aprendemos que a lei possui força moral quando é dada por uma autoridade adequada, operando dentro de sua jurisdição legítima. Se alguém viola a lei, deve ser punido. E o mesmo vale para as leis morais. Elas possuem incumbência – ou seja, força – se existe uma autoridade adequada por trás delas. Regras morais que aparecem por acaso não possuem este mesmo respaldo.

Nossa segunda opção não funciona porque não explica as três características importantes que observamos sobre a moralidade. Quando aparece por acaso, a moralidade deixa de ser uma comunicação entre duas mentes e, portanto, não pode ser imperativa. Ela não traz consigo a incumbência das leis morais, nem dá sentido à culpa e à punição esperadas que sentimos quando tais regras são violadas.

A única resposta restante

Resta somente uma resposta para a possível origem da moralidade. Se ela não é uma ilusão nem produto do acaso, então as leis morais devem ser o produto de uma Mente inteligente. Leis morais universais que possuem incumbência genuína requerem um autor cujo domínio seja o universo, e que tenha autoridade moral para outorgar suas leis e poder para punir toda injustiça.

Qual é a melhor explicação para a existência da moralidade? A melhor resposta é: um Deus pessoal cujo caráter provê um padrão absoluto de bondade. Uma força impessoal não serve porque regras morais são proposições e ordens, e essas duas coisas são características de mentes. O eticista Richard Taylor explica:

Um dever é algo que é devido… mas algo pode ser devido a apenas uma ou algumas pessoas. Não pode haver um dever isolado… O conceito de obrigação moral [é] ininteligível fora da ideia de Deus. As palavras ficam, mas seu significado desaparece.[5]

Somente uma opção faz sentido em todas as observações sobre a moralidade: um Deus pessoal, que criou tanto o domínio material como o imaterial. Leis morais sugerem alguém que as fez. Suas leis são uma comunicação de seus desejos, imperativos que devem ser obedecidos.

A existência de Deus também explica a incumbência da moralidade. A ética possui respaldo adequado porque Deus é uma autoridade adequada para as leis morais. O universo é dEle porque Ele o criou, e Ele tem o direito de governar sobre ele.

A dor ética – a culpa moral – também faz sentido. Já que as leis morais não são princípios separados, mas sim ordens pessoais, uma violação delas não significa apenas que uma regra foi quebrada, mas também que a pessoa que fez a regra foi ofendida. O filósofo dinamarquês Soren Kierkegaard observou que não conseguiríamos sentir peso na consciência se Deus não existisse.

Alguns, como Michael Shermer, tentam argumentar que não precisam de Deus para serem morais, e que podem ser pessoas virtuosas mesmo sendo ateus. Ninguém que pensasse profundamente sobre esse assunto poderia negar que ateus podem se comportar de uma forma que podemos chamar de moral. A verdadeira pergunta é “Por que ele deveria agir assim?”. O monge trapista Thomas Merton coloca isso da seguinte forma:

Em nome de quem você me pede para me comportar? Por que eu deveria ceder à inconveniência de negar a mim mesmo a satisfação que desejo em nome de algum padrão que existe somente na sua imaginação? Por que eu deveria adorar as ficções que você me impôs em nome de nada?[6]

O ateu “moral” é como um homem que senta para jantar, mas não acredita em fazendeiros, rancheiros, pescadores e cozinheiros. Ele crê que a comida simplesmente aparece, sem explicação ou causa suficiente. Isto é bobagem. Ou sua comida é uma ilusão ou alguém a proveu para ele. Da mesma forma, se a moral existe – como a realidade do mal prova – então houve uma causa que explica adequadamente o efeito. Deus é a solução mais lógica.

O veredito final

O argumento contra Deus baseado no problema do mal só pode ser usado se alguma forma de objetivismo moral for verdadeira. A moral, portanto, existe. Eu não preciso dar uma taxonomia completa das diretrizes éticas para provar meu argumento. Se existe pelo menos um absoluto moral, ele requer a pergunta “Que tipo de cosmovisão explica melhor sua existência?”

O ateísmo não consegue compreender isto, e, a propósito, nem a maioria das religiões orientais. Se a realidade é uma ilusão como elas afirmam, então a distinção entre o bem e o mal não tem sentido algum. Algo como a ideia judaico-cristã ou muçulmana sobre Deus deve ser verdadeiro para explicar as leis morais.

A moralidade fundamentada em Deus explica nossa fome de justiça – nosso desejo por um dia de julgamento final, quando todas as coisas erradas forem corrigidas, quando o sofrimento dos inocentes finalmente terminar e quando todos os culpados forem punidos e os justos, recompensados.

Isso também explica nosso senso pessoal de temor. Nós nos sentimos culpados porque somos culpados. Nós sabemos, bem no fundo, que ofendemos um Ser moralmente perfeito, que tem a autoridade legítima para nos punir. Nós sabemos que teremos que responder por nossos próprios crimes contra Deus.

No fim, somos forçados a escolher uma de duas alternativas. Ou o relativismo é verdadeiro ou a moralidade é verdadeira. Ou vivemos em um universo no qual a moralidade é um conceito sem sentido e somos condenados eternamente ao silêncio com relação ao problema do mal, ou as leis morais existem e estamos em dívida com um Deus moral que nos responsabiliza por quebrar Sua lei.

Não existem outras opções. Como o Dr. Francis Schaeffer coloca: “Estas não são respostas prováveis; são as únicas respostas. Ou é isso ou nada.”[7]

____________________________

[1] Clive Staples Lewis, Cristianismo Puro e Simples (Martins Fontes, 2005), 51.

[2] Veja um tratamento mais profundo destes quatro pontos em Beckwith e Koukl, Relativism – Feet Firmly Planted in Mid-Air, Baker Books, 1998, cap. 16, “Why Morality?”

[3] Alguns se opõem ao termo “lei moral” porque leis morais podem ser quebradas, ao passo que as leis científicas são invioláveis. Eu tenho duas respostas. Primeira: não é óbvio que as leis científicas não podem nunca ser violadas. Milagres implicam a suspensão da lei natural, e parecem ser ao menos possíveis, e não reais, a menos que, arbitrariamente, se declare o naturalismo como sendo verdadeiro. Segunda: leis morais são diferentes de leis naturais precisamente neste ponto. A natureza de uma lei moral consiste em ela poder ser desobedecida por criaturas com livre arbítrio moral. Se ela não pudesse ser desobedecida, não seria qualificada como lei moral.

[4] Lewis, idem.

[5] Richard Taylor, Ethics, Faith, and Reason (Englewood Cliffs, N.J.: PrenticeHall, 1985), 83-4.

[6] Citado em Phillip Yancey, The Other Great Commission, Christianity Today, 07/10/1996, pág. 136.

[7] Francis Schaeffer, He Is There and He Is Not Silent, em The Complete Works of Francis Schaeffer (Wheaton, IL: Crossway Books, 1982), vol. 1, 303.

Traduzido por Filipe Espósito e revisado por Jonathan Silveira.

Texto original: The Problem of Evil. Stand to Reason.

Gregory Koukl obteve seu mestrado em filosofia da religião e ética na Talbot School of Theology e seu mestrado em apologética cristã na Simon Greenleaf University. É professor adjunto de apologética cristã na Biola University. Tem apresentado seu próprio programa de rádio por 20 anos, onde defende a cosmovisão cristã.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *