O que é não ser tão radical, Capitão Fantástico? | Fernando Pasquini Santos

Capitão Fantástico, 2016.

“Na vida, a gente não pode ser tão radical”.

Ouço as pessoas dizendo isso. E respondo: “OK, mas e daí? Como assim?”

Esta foi a impressão que o filme Capitão Fantástico me passou. Gostei do filme, e achei que existem boas cenas, capazes de levantar discussões como as que farei a seguir. Mas, no geral, tudo é muito previsível: o pai que tenta isolar os filhos em uma bolha, criando-os separados da sociedade e conforme seus próprios ideais, e que, em um certo momento, descobre que não pode ser tão radical.

Fico até com receio do filme ser interpretado como pretexto para pais abrirem mão de responsabilidades. “Isso, pode deixar usar o celular à mesa”. “Isso, matricula em qualquer escola e relaxa”. Será que penso assim porque eu mesmo já sou um radical e paranoico? Minha filha não assiste YouTube no celular, e minha casa não tem TV na sala. Não tomamos refrigerante e compramos ovo caipira. Será que sou um Capitão Fantástico?

É mais do que urgente pensarmos em parâmetros para evitar os extremos – um extremo envolvendo o controle absoluto sobre a vida familiar, e o outro envolvendo uma irresponsabilidade de dizer “deixa, todo mundo faz assim, não vai ‘dar nada’”. O filme deixa clara a necessidade desse equilíbrio, mas não responde o que seria ele (e talvez nem seja seu propósito mesmo). De fato, ele não é algo simples. Mas deixe-me notar algumas coisas que pude perceber enquanto assistia e refletia.

O filme é interessante para nós hoje porque revela um aspecto cada vez mais presente em nosso mundo: por causa da internet, e das mídias personalizadas, estamos vivendo numa época onde os costumes e hábitos divergem cada vez mais de casa para casa. Ou seja: talvez já não exista mais um grande complexo de costumes e hábitos partilhados por várias pessoas em uma cidade, um estado, ou uma nação. Assim, nas nossas interações sociais – por exemplo, quando vamos fazer alguma refeição na casa de outras pessoas – são cada vez mais comuns os estranhamentos e situações embaraçosas, onde alguém faz para você algo que parece muito óbvio, e tem que te ver com aquele sorrisinho amarelo dizendo “é… então… a gente não faz assim”. “Não tomo Coca-Cola. Não converso com a TV ligada.”

Capitão Fantástico, 2016.

O resultado disso, penso eu, até pode estar tornando os nossos relacionamentos cada mais difíceis, trabalhosos e tensos. Temos cada vez mais receio das pessoas. Uma vez que cada um assume um estilo de vida “reflexivo” (o termo é emprestado da modernidade reflexiva, de Anthony Giddens), facilitado pelos canais de Youtube e mídias sociais, nós não sabemos nem se podemos estender a mão para cumprimentar alguém, perguntando-se se essa pessoa já não assistiu algum vídeo falando que dar as mãos em um cumprimento não é algo legal de se fazer. A hospitalidade, como um todo, nos parece muito mais difícil.

Isso já até aconteceu comigo: certa vez, ao dar uma palestra em uma igreja sobre cristãos e tecnologia, e falar sobre a necessidade de afastarmos nossos filhos pequenos das telas, fui perguntado, ao final, se eu comia cachorro-quente, que era o lanche que eles estavam servindo. Bem, dava para perceber o medo de tentarem me servir com algo que não gosto ou mesmo não aprovo.

Aceitei o cachorro-quente, e tomei a Coca-Cola. É algo que muitos já têm dito: importa mais o serviço das pessoas do que nossos ideais. E esse, na verdade, é o erro do Capitão Fantástico. O filme deixa bem claro como ele odeia as pessoas, e ama mais as suas ideias; ideias sobre o que é melhor para si e para seus filhos. Por causa disso, não há nada mais natural do que formar a sua bolha. Aliás, diante disso, não há nada mais natural do que odiar a religião organizada, como eles fazem no filme. A religião organizada, como o cristianismo, te obriga sempre a conviver com situações e pessoas que pensam e fazem diferente do que você acredita que seja o melhor. Já pensou ter que levar meus filhos para serem educados em uma escola dominical onde a professora lê Adauto Lourenço, sendo que eu leio John Walton?

É por isso que vejo no filme também um alerta para nós – não apenas pais, mas também membros de igreja. Temos nossos livros e ideias bastante fortes, mas precisamos da maturidade para saber que a realidade em que vivemos ainda está longe disso. É o que muita gente que aprendeu teologia na internet precisa aprender. E sabem qual é a chave para aceitar tudo isso e, enfim, conseguir conviver com gente menos “reflexiva” que nós? Simplesmente dizer: “está tudo bem”.

Capitão Fantástico é um homem desesperado, buscando um mundo correto, segundo suas próprias ideias, e conforme seus próprios esforços. Como muitas vezes fazemos, esperamos que nossas ações consigam fazer com que nossas igrejas mudem certas atitudes na liturgia ou que nossos filhos tenham uma criação perfeita, sem problemas com educação ou tecnologia.

Sinto-lhe dizer, mas isso não é esperança cristã. Isso é desespero ateu.

E é esse desespero que muitas vezes tem feito pais, pastores e todos cada vez mais cansados (ou, para usar o termo mais recente, experienciando o burnout). Vivemos em uma sociedade do cansaço, como já diz Byung-Chul Han. Nós compramos cada vez mais livros (que não vamos conseguir ler) sobre organização do lar e criação dos filhos, falando muitas vezes de realidades americanas de pais que trabalham só 30 horas por semana (e que já não conseguem cumprir todas as recomendações do livro), e vamos tentar aplicar às nossas realidades de pais que não têm outra escolha senão jornadas de trabalho de 44 horas para pai e mãe, sem contar o tempo do transporte. E então compartilhamos nas redes sociais o nosso cansaço, temperando-os com mensagens de positividade e mostrando o quão ativos nós somos e o quanto lutamos para um mundo melhor (ou vidas melhores) – ou seja, como somos fantásticos. Mas não descansamos. Pensamos: “nosso mundo não está bem, nossa família não está bem, nossa vida não está bem; passemos, então, todo o nosso tempo agindo, estudando, ou talvez até mesmo sempre orando e reavaliando nossas vidas à luz das Escrituras. Mas descanso, nunca.”

Lembro-me da cena onde um dos filhos pergunta: “pai, por que não podemos simplesmente celebrar o Natal, ao invés desse ‘dia de Noam Chomsky?’”. O pai tem uma resposta extremamente lógica, aos moldes do lunático de Chesterton, aquele que perdeu tudo, menos a razão. “Você quer celebrar Papai Noel e elfos, seres imaginários, ou uma pessoa real, um humanitário?”. O filho, obviamente, não tem como responder, e o pai se dá por satisfeito, porque, afinal, ganhou o debate. Pergunto-me se Chesterton, o defensor dos contos de fadas, teria uma resposta para dar. Acho que ele não se preocuparia com isso, e apenas riria, dizendo: “acho que você não entendeu o que significa celebrar”. Celebrar envolve apenas descansar, sem preocupações extremas se o que estou fazendo faz sentido ou não. Há momento de refletir e reavaliar, mas também há momento de entregar as coisas nas mãos de Deus, e viver, sem medo, nesse mundo muito longe do ideal, com nossas vidas também muito longe do ideal. E então fruir das coisas da terra, do jogo de futebol capenga, do bolo de chocolate com açúcar infinito (se isso não te fizer mal), da musiquinha cafona que as “tias” da igreja resolveram cantar para o visitante.

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Às vezes tenho a impressão de que temos crentes muito pesarosos com o desafio de viver fielmente nesse mundo, e se esquecem da Graça.

Mas, então, voltamos à questão inicial: a solução, então, seria entregar o tablet para a criança e matriculá-la na primeira creche que aparecer? Não, não, não vamos nos contentar com soluções vagas. Os extremos são sempre muito fáceis, e há o outro extremo de deixar de se preocupar e descansar demais – ou seja, a preguiça. A questão aqui é simplesmente que precisamos escolher quais batalhas vamos lutar. Não podemos lutar todas, mas precisamos da sabedoria para escolher as mais importantes.

E o filme mostra algumas coisas importantes. O pai, por exemplo, tem uma alta consideração pela educação, e ensina os filhos em casa ao invés de na escola. É, de fato, muito boa a cena onde ele compara o nível da educação de seu filho com a educação do primo – o primo, perguntado se gosta da escola, apenas responde com um “é, tanto faz”, e não sabe responder o que é a Declaração dos Direitos de 1689. Homeschoolers vibram com essa cena, que mostra como a educação dos filhos é importante. Mas, bem, isso não significa que você e todo mundo devem fazer homeschooling (como muitos defensores parecem querer, colocando fardos insustentáveis sobre algumas famílias). O que é preciso notar é que você, como pai, tem uma responsabilidade nesse aspecto, e que vale a pena se cansar para buscar isso.

Quem sabe deixar de lado algumas outras coisas para buscar uma boa educação? Precisamos saber pesar todas essas coisas de acordo com sua importância e diante do que é possível fazer.

Capitão Fantástico, 2016.

Há tantas coisas que desejamos para nós e nossos filhos, mas não podemos ter! Eu mesmo gostaria de criar meus filhos na casa que o Capitão Fantástico termina o filme criando os seus. Estudando sobre tecnologia, especificamente a obra de Albert Borgmann, vejo o valor e a importância das coisas e experiências focais, de um engajamento mais rico com a realidade, incluindo a natureza e a beleza. Alguns autores até falam sobre o problema da “desordem de déficit de natureza”, que costuma atingir as crianças de nosso tempo. Mas não posso fazer nada. Criarei meus filhos em um apartamento de 70m2, de frente para um muro cheio de pichações. Não tenho recursos para mudar isso. E vivo numa sociedade onde essa mudança não é importante.

Minha tentação é entrar em desespero. Sair reclamando pelos cantos, e tentar ler milhares de livros tentando encontrar um caminho de ação para mudar essas situações. É o que às vezes faço, e talvez isso valha a pena até certo ponto, uma vez que aproveite a chance que Deus me deu de ser um professor universitário e pesquisador. Mas o perigo sempre está lá: esses esforços não devem tirar meu sono e minha paz em Deus. “Está tudo bem!”, é o que deveria ouvir de Cristo, e descansar.

Ainda assim, e voltando ao tema de entregar ou não os tablets aos filhos, há algo que podemos fazer em relação à tecnologia. Andy Crouch, por exemplo, em seu livro The Tech-Wise Family, não oferece soluções muito complicadas ou distantes de nós. A exposição de nossos filhos às telas é um problema grande e real, e precisamos nos dar conta disso – lembrando, muitas vezes, que não é só o conteúdo das telas que importa, mas a forma: as telas educam a atenção de nossos filhos, ensinando-os sobre o que vale a pena prestar atenção e o que não vale. Precisamos perceber que “o meio é a mensagem”.

Assim, creio que vale muito a pena, em nossos lares, dedicar esforços para, nos termos de Crouch, “colocar a tecnologia no seu devido lugar”. Nossos filhos precisam da nossa atenção, e não que lhes demos celulares e tablets. Isso é bom não só para eles, como também para nós. Vivemos em tempos de autossuficiência, onde não temos qualquer motivo ou incentivo para olhar para o outro, ao nosso lado, que precisa do nosso cuidado e atenção (e não é à toa que, por causa disso, vivemos numa sociedade contra crianças). Nós preferimos o desengajamento dos dispositivos – celulares, tablets, escolas, serviços terceirizados – ao engajamento real, que realmente transforma e edifica pessoas feitas à imagem de Deus.

E se pararmos para pensar, veremos que não é impossível limitar o nosso uso de dispositivos e tecnologia. A própria internet já pode nos ajudar a conhecer outros pais que conseguem fazer isso (por exemplo, gosto de ter como referencial o Luiz Adriano Borges, escritor também deste site, que consegue manter um certo controle sobre o uso da tecnologia por seus filhos). Seus filhos não se tornarão ETs se não assistirem YouTube à mesa. Você mesmo não foi criado com celulares, e acha que “matou” seus pais de cansaço por causa disso? Não é tão difícil como parece.

É possível ser só um pouco Capitão Fantástico, na confiança de que mais fantástico ainda é aquele que está conosco. Que Ele nos dê sabedoria para saber quando lutar e quando ceder.

Fernando Pasquini Santos é formado em Engenharia de Computação e professor de Engenharia Biomédica na Universidade Federal de Uberlândia. Além do ensino e pesquisa nessas áreas, também se interessa em situar o desenvolvimento e interação com tecnologias à luz da narrativa cristã. Também é presbiteriano, pianista, casado com a Jemima e pai da Suzana.

3 Comentários

  1. Eric Passim disse:

    Fantástico, mil vezes fantástico. Excelente reflexão. Será que se eu repetisse mais uma vez fantástico estaria sendo extremista ou apenas eu mesmo com minha tendência hiperbólica?
    Apenas viver não é mais o suficiente, avaliamos tudo e todos e queremos enquadrar a realidade que nos cerca a telinha que brilha para tirar as diferenças, buscando a uniformidade assimilada.
    Precisamos ser fantásticos na Palavra, pois bem sabemos que “pais de verdade, são pais da Verdade”.

  2. Geziel disse:

    Obrigado pelo excelente texto.

  3. Irene Eler disse:

    É pela graça de Deus que encontramos pessoas tão consciente como o jovem acima Fernando pasquine. Que Deus o abençoe e vc possa smp ser luz através de seus artigos.

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