O que os ateístas podem aprender com George Orwell | Matt Rawlings

George Orwell (1903-1950)

Quando o sociólogo Mark Regnerus publicou seu estudo sobre a família, no qual descobriu que as crianças são mais saudáveis se criadas dentro de um casamento tradicional, ele foi atacado e tachado como um estudioso falso e fanático. Regnerus, que leciona na Universidade do Texas, foi alvo de uma investigação cujos administradores anunciaram, discretamente, que haviam verificado seu trabalho e o considerado são. Isso não surpreende, dado que Regnerus ganhou seu diploma de doutorado na Universidade da Carolina do Norte em 2000 e passou a década passada estudando vários sistemas familiares. Ele publicou vários livros acadêmicos e mais de 30 trabalhos revisados por especialistas no assunto.

Mesmo assim, “progressistas” sociais o atacaram, sendo que alguns até se apressaram para gerar, em semanas, estudos que concorriam com o de Regnerus. Esse ataque não deveria ter surpreendido ninguém. Afinal, os esquerdistas seculares dizem seguir conclusões de pesquisas científicas consistentes aonde quer que elas os levem, mas quando acontece de serem levados a áreas que abominam, eles rapidamente saltam fora desse caminho e exigem ou que as evidências concordem com seus valores (irônico, não?) ou que sejam descartadas.

10597_381179351994339_1329876434_nO estudo de Regnerus é apenas um exemplo. Vários estudos publicados nas últimas décadas mostram que os cristãos casados são as pessoas mais felizes do mundo ocidental. Tais estudos são continuações de vários trabalhos que demonstraram os benefícios físicos e psicológicos de práticas religiosas como a oração ou a crença em um ser superior.

Os principais pensadores ateus rapidamente discordaram desses estudos, afirmando que são exemplos das “ciências humanas” e que apenas mostram uma correlação, não necessariamente a causa de tudo. É claro que se pode replicar, sarcasticamente, que os escritores ateus se valem dos crimes históricos cometidos por pessoas que se diziam cristãs como prova de que a religião é algo perigoso. Tais ateístas nunca perguntam se aqueles que cometeram atrocidades, como a Inquisição Espanhola, entendiam realmente a fé, se eram reais adeptos mesmo se a entendessem ou se quaisquer outros fatores, como a política, poderiam ter sido a motivação original. Em outras palavras, eles não conseguem atender a seus próprios critérios.

A diferença entre os estudos citados acima e as alegações dos ateus, é claro, é que os estudos foram submetidos a análises, e as alegações não. Os estudos que mostraram que os cristãos são mais felizes e que o casamento tradicional geralmente é benéfico às crianças (o que, a propósito, é o motivo pelo qual os tribunais sempre defenderam o casamento como sendo “um homem e uma mulher” ao longo da história) podem até ser produto das “ciências humanas”, mas têm sido notavelmente consistentes ao longo dos anos. Os resultados vêm se mantendo depois de décadas de mudanças culturais. Portanto, os estudos são aparentemente consistentes e devem ser considerados como sólidas evidências até que se prove o contrário.

Mesmo assim, como os apologetas vêm observando há muito tempo, os secularistas têm colocado sua fé no materialismo a ponto de desconsiderarem toda e qualquer evidência contrária (e quase sempre isso vem acompanhado de uma grande quantidade de raiva). O comprometimento materialista de seguir evidências a apenas onde eles querem ser levados não só é anticientífico como também perigoso.

O autor George Orwell foi um esquerdista secular que se sentiu traído por regimes totalitários, como os liderados por Joseph Stalin. Ele escreveu o clássico romance distópico 1984 em resposta à sua frustração. Ele via, tanto no fascismo como no comunismo, um comprometimento de criar um Éden secular mesmo que fosse preciso tomar posições contraditórias para servir aos propósitos dos líderes do Estado, o que incluía silenciamento permanente a todo e qualquer tipo de crítica.

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Se estivesse vivo, Orwell poderia ter sentido que havia sido vingado pelo fato de a esquerda secular ter reescrito rapidamente a história depois da Segunda Guerra Mundial. Um dos projetos preferidos da esquerda secular no final do século 19 e começo do século 20 era a Eugenia, que incluía a esterilização forçada dos indivíduos com deficiências físicas, um incentivo para a legalização do aborto, eutanásia etc. Essa causa foi patrocinada por “progressistas” como Roger Baldwin (fundador da ACLU – União Americana pelas Liberdades Civis), Margaret Sanger (que queria, principalmente, eliminar a população afro-americana, além de ser a fundadora do Planned Parenthood – “Paternidade Planejada” ou “Maternidade Planejada”, em inglês), Oliver Wendell Holmes Jr. (juiz da Suprema Corte) e muitos outros. Vários esquerdistas seculares acreditavam que a Eugenia derivava logicamente dos trabalhos de Darwin.

Vários esquerdistas seculares importantes chegaram a comemorar quando o Partido Socialista Nacional Alemão adotou o controle de reprodução do governo. Os que se opuseram a esse “progresso”, como foi o caso de um jovem cristão convertido em Oxford chamado C. S. Lewis, foram simplesmente rejeitados com deboche.

Entretanto, quando o horror do holocausto foi à tona, a Eugenia subitamente caiu no desgosto da população e não se podia encontrar ninguém da esquerda que admitisse ter apoiado a causa. Além disso, assim como Winston Smith, o protagonista de Orwell que estava mudando a história ao processar o Grande Irmão, os esquerdistas seculares começaram a reformular os eventos do século 20 para ficarem bem vistos pela sociedade. O nome “Partido Socialista Nacional Alemão” era, de repente, difícil de se encontrar, já que os esquerdistas passaram a chamá-los de nazistas, a fim de evitar que a palavra “socialista” ficasse manchada. As origens radicais de grupos como a ACLU e a Planned Parenthood também foram enterradas. Diabos, até mesmo George Orwell foi batizado postumamente pela esquerda como um profeta que anunciou os perigos do conservativismo, apesar de haver uma quantidade enorme de evidências que provassem o contrário.

Então qual é meu argumento? Simplesmente isso: ignorar evidências, não importa quão desagradáveis, quase sempre leva a caminhos perigosos. Pode também levar à erosão contínua da família tradicional em detrimento das gerações futuras ou, em casos extremos, pode até levar à morte de milhões de “indesejáveis”.

Orwell nos alertou sobre isso décadas atrás, mas a esquerda secular conseguiu, com sucesso, distorcer suas palavras proféticas para satisfazer seus desejos. Cristãos comprometidos permitiram que isso acontecesse se protegendo de debates acadêmicos, ao mesmo tempo em que pagavam para que seus filhos fossem doutrinados pela esquerda secular em universidades estaduais e até particulares.

Eu publiquei um artigo sobre como os cristãos falharam em falar a verdade à face do poder e, com isso, ajudei a criar uma cultura perigosa (link em inglês). Eu obtive muitas reações negativas. Minha meta não era ofender, mas simplesmente mostrar que, historicamente, quando o debate livre é silenciado e evidências claras são ignoradas, todos nós sofremos. Se você não acredita em mim, leia Orwell. Ele viu tudo isso nos Estados totalitários do século 20, e nós apenas ignoramos seus alertas por nossa conta e risco.

Traduzido por Filipe Espósito e revisado por Jonathan Silveira.

Confira o texto original, clicando aqui.

Matt Rawlings é Pastor de Ensino na Christ’s Community Church, em Portsmouth, Ohio, advogado e Diretor Regional da Leadership Development for Alliance Defending Freedom. É graduado em Teologia e especialista em Apologética.

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