O que você pode aprender com o Autorretrato de van Gogh com a Orelha Cortada | Russ Ramsey

'Autorretrato com a Orelha Cortada' (Vincent van Gogh, janeiro de 1889)

Caso você já tenha tentando fazer um autorretrato, eis o que descobriu: somente a verdade irá funcionar. Durante o Ensino Médio, nas minhas aulas de arte, fui incumbido de fazer um autorretrato. À medida que ia de um lado a outro, do espelho para o papel, eu tentava desenhar o que via. Mas o fato é que eu também queria melhorar o que via: olhos mais brilhantes, nariz mais esculpido, as maçãs do rosto mais definidas e um rosto não tão infantilizado.

Eis o resultado da minha vaidade: o retrato de alguém que em nada se parece comigo e uma nota baixa.

Van Gogh, a alma torturada

Vincent van Gogh (1853-1890) pintou mais de 40 autorretratos. Alguns deles não são nem um pouco fiéis. Há um autorretrato que ele fez quando estava fascinado pela arte japonesa em que se mostra com a cabeça raspada e olhos asiáticos de um monge budista. Contudo, um de seus autorretratos se destaca: ele é brutamente fiel. É chamado de Autorretrato com  a Orelha Cortada, pintado por van Gogh em janeiro de 1889, mesmo ano em que pintou Noite Estrelada e um ano antes de se matar com um tiro no coração.

Caso seu conhecimento de van Gogh não esteja circunscrito à sua arte, talvez você saiba que ele era uma alma atormentada: sofria de depressão, paranoia e surtos públicos tão desconcertantes que em março de 1889 — dois meses após pintar o autorretrato com a orelha cortada —, seus vizinhos, 30 deles na aldeia de Arles, França, pediram à polícia para cuidar desse fou roux [louco ruivo]. A polícia atendeu ao pedido dos vizinhos e o removeu de seu apartamento alugado, A Casa Amarela, famoso pela pintura Quarto em Arles.

Não muito tempo depois do aviso de despejo, van Gogh foi, por iniciativa própria, para uma clínica psiquiátrica, a clínica de Saint-Paul, em Saint-Rémy-de-Provence. Naquela época, a maioria das doenças psicológicas era simplesmente diagnosticada como “loucura”. Depressão debilitante? Loucura. Bipolaridade? Paranoia? Epilepsia aguda? Loucura. O tratamento para a loucura envolvia, na maioria das vezes, ir para uma clínica psiquiátrica. Rotulado de louco por sua própria comunidade, o “louco ruivo” foi por iniciativa própria para o Saint-Rémy e permaneceu lá pelo período de um ano: de maio de 1889 a maio de 1890.

O que ele fez como paciente em Saint-Rémy? Ele pintou. Na verdade, as obras mais famosas de van Gogh foram criadas enquanto ele estava na clínica psiquiátrica: Íris, Noite Estrelada e Campo de Trigo com Ciprestes. Ele pintou os jardins, o terreno e os corredores da clínica. Ele pintou os campos que ele podia ver além das paredes da clínica e os olivais que ele caminharia quando ocasionalmente deixasse a clínica. Ele pintou retratos de seus cuidadores e colegas pacientes. Ele pintou suas próprias versões de obras de outros artistas que ele amava. E van Gogh pintou autorretratos. Ele fez mais de 140 pinturas durante o tempo em que permaneceu na clínica, uma tela a cada três dias. Tamanha beleza surgiu desse período da vida, mas o fato de ter enfrentado tanta humilhação e rejeição pública facilitou isso.

Van Gogh e sua orelha

O que levou van Gogh a se internar na clínica? O que levou os vizinhos a pensar que ele estava louco? Por que eles pediram à polícia para removê-lo de sua comunidade? Foram muitos os fatores, mas o episódio mais contundente havia ocorrido algumas semanas antes, quando ele e seu colega de apartamento — o pintor impressionista Paul Gauguin — brigaram. Van Gogh aproximou uma lâmina na orelha, cortou o lóbulo, enrolou-o num papel e o levou a uma prostituta local de nome Rachel, que parecia ter sido uma amiga em sua comunidade de amigos de marginalizados. Quando lhe entregou o pacote encharcado de sangue, lhe pediu que “guardasse o objeto cuidadosamente”.

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Essa informação se espalhou rapidamente e causou um alvoroço. Na manhã seguinte, a polícia o encontrou dormindo na cama, ensanguentado. Van Gogh foi levado ao hospital e lá começou a contar sobre seu prejuízo, o que ele havia perdido. Seu companheiro de quarto, amigo e colega havia ido embora e van Gogh se sentiu responsável. Seu corpo estava permanentemente mutilado e seus vizinhos sabiam a história.

Para piorar as coisas, quando van Gogh cortou a própria orelha, ele já era uma estrela em ascensão no mundo da arte. Após anos de obscuridade, seu trabalho começou a despertar o interesse da comunidade artística. Ele estava prestes a ser reconhecido artisticamente. Assim, diante de tudo isso, seu espetáculo sangrento — sua orelha cortada responsável pela expulsão do apartamento e internação na clínica — trouxe com ele humilhação e vergonha profissional gigantesca.

No entanto, mesmo no hospital, van Gogh continuou fazendo o que sempre fez: pintar. Ele pintou pelo menos dois autorretratos com sua orelha cortada, capturando o momento de sua maior vergonha.

Nosso autorretrato fiel

Torna-se difícil, se você é como eu, apresentar um autorretrato fiel, pois queremos esconder aquilo que não é atraente. Queremos esconder o que está danificado. Queremos parecer lindos. Contudo, quando agimos assim, encobrimos o que necessita de redenção, ou seja, tudo aquilo que confiamos a Cristo para redimir. Quando fazemos isso, esquecemos que o que Cristo redime torna-se belo.

O Autorretrato de van Gogh com a Orelha Cortada está no meu escritório para lembrar-me de que se eu estiver desenhando meu autorretrato infiel, se eu fingir que estou bem e que não preciso de ajuda, estou, portanto, escondendo dos outros o fato de que estou fragmentado.

Esse autorretrato de van Gogh deve provocar nossos corações. Estamos dispostos a admitir que temos muitas coisas em nós que não estão corretas? Estamos dispostos a admitir que nossas feridas precisam ser curadas, que precisamos desesperadamente de uma clínica? Se não podemos mostrar isso com honestidade, como alguém verá Cristo em nós? Ou pior, que tipo de Cristo eles verão?

No autorretrato de van Gogh, percebemos certa ironia. Esse autorretrato — no qual ele capta sua pobreza tanto espiritual quando relacional — agora vale milhões. Essa tela que ele captura o momento decisivo de sua vergonha e sua necessidade de resgate tornou-se uma obra de arte que ninguém que conheço poderia se dar ao luxo de comprar.

Não é dessa forma, porém, que Deus vê o seu povo? Estamos totalmente expostos a ele com todas as nossas deficiências e, ainda assim, somos de valor inimaginável! É dessa maneira que devemos olhar o outro; é dessa maneira que devemos estar dispostos a ser visto pelo outro: fragmentado, mas ainda assim de valor incalculável.

No livro, A Volta do Filho Pródigo, Henri Nouwen escreveu: “Nossa fragmentação não tem outra beleza senão a beleza da compaixão que a rodeia”. Nossas feridas não são bonitas, mas a história por trás da cura de todas elas é bonita.

Contudo, como podermos contar a história de nossa cura se as feridas que precisam ser curadas estiverem escondidas?

Traduzido por Ubevaldo G. Sampaio e revisado por Jonathan Silveira.

Texto original: What You Can Learn from van Gogh’s Bloody-Eared Self-Portrait. The Gospel Coalition. Publicado com permissão.

Russ Ramsey é pastor na Christ Presbyterian Church, graduado pela Taylor University e pelo Convenant Theological Seminary (MDiv, 2000; ThM, 2003). Seu livro mais recente se chama 'Struck: One Christian’s Reflections on Encountering Death' (IVP, 2017).

2 Comentários

  1. Samira Cataldi disse:

    UM dos posts mais interessantes que li! Parabéns pela sinceridade e delicadeza no olhar.

  2. Abner Souza disse:

    Muito bom, esse com toda a certeza, foi um dos melhores que já li. Deus abençoe

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