Operação Big Hero: O transumanismo está entre nós? | Luiz Adriano Borges

"Operação Big Hero", Disney.

[atenção, este texto contém spoilers do desenho “Operação Big Hero”]

O eticista bíblico Jacob Shatzer publicou em 2019 o livro Transhumanism and the Image of God (IVP Academic) alertando que estamos sendo preparados para viver em um mundo transumanista. É um ótimo livro (deveria ser traduzido) e que populariza no meio cristão um debate já bastante em andamento lá fora.

O transumanismo moderno foi fundamentado teoricamente ainda na primeira metade do século XX, através de textos escritos por autores ingleses tais como J. B. S. Haldane, John Desmond Bernal e Julian Huxley. O transumanismo é um movimento otimista com relação à ciência e à tecnologia, que pressupõe contornar e até abolir as limitações humanas, tais como orgânicas (suplementos, substituição por órgãos biônicos), extensão de vida (busca por imortalidade) e ampliação de cognição (upload de mentes para computadores, por exemplo). Os transumanistas acreditam que podem dar uma ajuda na evolução ao aplicar os conhecimentos tecnocientíficos para se criar seres aperfeiçoados. Parece conversa de ficção científica, mas é algo que já está entra nós. Só para citar um exemplo recente, algumas semanas atrás foi apresentado o chip da Neuralink, empresa de Elon Musk, que pretende conectar cérebros à computadores. Mas a cosmovisão transumanista tem sido destilada há anos. Mas por que isso seria um problema?

Este breve texto está divido em três partes: 1) posições em relação ao transumanismo; 2) cultura pop; 3) por que isso é um problema?

1. Posições em relação ao transumanismo

Desde o início, o posicionamento com relação ao movimento se divide, grosso modo, entre transumanistas e bioconservadores. Claro que há diferentes ênfases nos diversos defensores, mas podemos demarcar inicialmente dessa forma. Os transumanistas, “tecno-otimistas”, enxergam na tecnologia e na ciência a salvadora da natureza humana (ou até podemos dizer, pós-humana). Veja o que diz Yuval Noah Harari em seu recente livro “Homo deus”:

Reduzimos a mortalidade por inanição, a doença e a violência; objetivaremos agora superar a velhice e mesmo a morte. Salvamos pessoas da miséria abjeta; temos agora de fazê-las positivamente felizes. Tendo elevado a humanidade acima do nível bestial da luta pela sobrevivência, nosso propósito será fazer dos humanos deuses e transformar o Homo sapiens em Homo deus (Harari 2016, chap. “A nova agenda humana”).

É algo controverso se realmente produzimos tantos avanços como é apontado no começo da citação, mas, de qualquer forma, para os transumanistas, a morte é simplesmente uma falha técnica, e a solução se dá justamente por uma tecnologia que possa reverter isso e nos tornar deuses. Limitações físicas, orgânicas, de extensão de vida e de comunicação, tudo pode ser resolvido com tecnologia, uma vez que ela sempre foi considerada extensão do homem (McLuhan).

Os bioconservadores, por seu lado, clamam por prudência, apontando que devem-se tomar medidas cautelosas na utilização de efeitos de longo prazo na biotecnologia. Encarar a vida como dádiva (Michael J. Sandel) e prezar por uma ética da responsabilidade, que postule a prestação de contas de seus atos em relação aos seres humanos (Hans Jonas e C. S. Lewis) é a ênfase nessa linha de pensamento.

O tratamento acadêmico por cristãos acerca do tema já existe há algum tempo. Temos excelentes obras como o de Ronald Cole-Turner Transhumanism and transcendence: Christian hope in an age of technological enhancement de 2011, e diversas obras por Calvin Mercer. Mas esta obra de Jacob Shatzer é pertinente ao trazer um debate qualificado para dentro da comunidade cristã. Shatzer alerta que nossas tecnologias não são neutras; então não é simplesmente ao fazer bom uso de um artefato que eu estou livre de suas consequências. Os cristãos precisam reforçar sua cosmovisão para repensar o uso de suas tecnologias. E não é um anúncio ludita, de que devemos nos refugiar numa cabana no meio do mato sem gadjets (até porque a própria cabana e os artefatos que por ventura usássemos seriam tecnologia). Não é possível viver sem tecnologia e nem Deus queria que vivêssemos sem ela; Ele nos deu um mandamento cultural e possibilitou que ciência e tecnologia fossem desenvolvidas (veja mais sobre isso aqui).

O cuidado que devemos tomar, como nos avisa Shatzer, é que as tecnologias moldam quem somos. Tecnologias de informação modificam a maneira como nos comunicamos uns com os outros; tecnologias de transporte, a maneira como compreendemos o espaço; tecnologias simples, como o relógio, nos fazem ver o tempo de forma diferente. A lista é longa e cabe ao cristão refletir sobre os impactos em sua vida.

2. Cultura pop

Há anos temos sido preparados para um futuro transumanista. Vejam a cultura pop com mangás, animês e filmes como “Ghost in the Shell” (que prega que nossa mente é somente um fantasma numa casca), filmes como “Transcendência” (a maneira de evitar a finitude, transcender, é baixar a mente para um computador), até em desenhos infantis como o aparentemente inofensivo “Operação Big Hero”. Quero me focar um pouco nesse último desenho. Deve ficar claro que não acho que ele seja “perigoso” e impróprio, mas sim que ele destila uma certa mentalidade que devemos nos atentar.

“Operação Big Hero” é um desenho da Disney lançado em 2014. A história se passa numa futurística San Fransokyo (uma mistura de São Francisco e Tókio), e conta a história de um garoto, Hero Hamada, gênio da robótica, que forma um time de super-heróis tecnológicos, com a ajuda de um robô criado por seu irmão, Tadashi, para lutar contra um vilão mascarado. Até aí nada demais. O problema está nos detalhes. [Aqui teremos grandes spoilers do filme].

Já na posição divergente face à tecnologia dos dois irmãos podemos perceber o algo comum no nosso mundo: Hero é inconsequente e não pensa nas implicações éticas; por outro lado, seu irmão Tadashi pensa em criar tecnologia para ajudar os outros. Tadashi cria Baymax, um robô de cuidados de saúde. Hero, após uma visita ao laboratório do Instituto de Tecnologia da cidade, onde seu irmão trabalhava, decide seguir a carreira tecnológica na universidade. Mas para entrar ele precisa surpreender os juízes numa feira de ciência e tecnologia. Lá, ele apresenta seus “microbots”, que são milhares de pequenos robôs que podem se conectar em qualquer arranjo imaginável usando um transmissor neural. Elon Musk e o brasileiro Miguel Nicolelis ficariam orgulhosos. Sem estragar muito da história, algo sai errado e seu invento cai nas mãos erradas. Hero não pensou como sua tecnologia poderia ser usada de maneira negativa.

Assim, tem início uma busca para neutralizar o vilão através da formação de um time de seis nerds de laboratório e suas tecnologias aperfeiçoadas. É uma história empolgante para meninos que estão crescendo nesse nosso mundo tecnológico e a Disney parece ter se saído bem em alcançar um novo público. O filme em si não possui uma mensagem descaradamente ruim. Até aconselho se assistir em família, pois o filme proporciona muitas conversas e diálogo entre pais e filhos. Aqui em casa, logo após assistir e mesmo dias depois, voltávamos para comentar algo que nos impressionou ou nos incomodou. Essa é uma ótima atitude de pais cristãos. Mas vamos aos pontos questionáveis.

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O próprio robô de cuidados de saúde é aparentemente uma grande invenção. Ele escaneia a pessoa, verifica dados de saúde e propõe um tratamento, se necessário. Entretanto, ele pode ser um grande problema se pensarmos em como os dados coletados por ele podem ser utilizados. Uma subsidiária da Google, a Verily, tem dado seus primeiros passos para entrar no campo de seguradoras de saúde nos EUA. A Google recebe terabytes de informação sobre saúde a cada minuto, ainda mais com equipamentos medidores que colocamos nos nossos pulsos, nas palmas de nossas mãos e dados que enviamos livremente. É uma maneira simples de saber exatamente como anda a saúde de possíveis futuros segurados. Sem um pensamento ético com relação ao uso dessas tecnologias, podemos ter grandes dificuldades no futuro. A série Black Mirror está aí para apresentar um futuro distópico onde tecnologias já presentes no nosso cotidiano atual podem levar a consequências nefastas. Pense seus dados de saúde sendo usados para lhe cobrar mais alto devido a uma possibilidade de doença? Ou uma empresa não te contratando porque possui informações sobre um possível câncer futuro? As possibilidades de dar errado são imensas.

O próprio filme nos dá pistas sobre o que os idealizadores pensam do assunto. Em uma cena de passagem, a mãe dos meninos está assistindo ao antigo filme Frankenstein, e ouvimos a famosa frase “It’s alive”.

Cena de “Operação Big Hero”, Disney 2014.

Frankenstein é uma história publicada por Mary Shelley em 1818 e que serviu para criticar os usos e abusos da biologia. Na história, um cientista procurar criar um novo ser a partir de pedaços de corpos mortos. Logo que consegue trazer seu ser à vida, o doutor percebe que sua criatura tem poder e vontade próprios e se questiona sobre seu feito. É uma história que tem muitas implicações para o debate ético em filosofia da ciência e da tecnologia e é sintomático que ele apareça no desenho, mesmo que brevemente. Ele aponta para os perigos de se criar tecnologia à parte de valores éticos e virtuosos.

O roubo da tecnologia dos “microbots” e utilização pelo vilão como arma aponta o “paradigma Frankenstein”, quando as tecnologias são criadas com uma intenção, mas acabam sendo usadas para outras finalidades. Os microbots serviriam para uma série de objetivos bons, mas Hero não pensou nas consequências dessa ferramenta nas mãos de pessoas mal-intencionadas. Uma das mensagens do filme é que tecnocratas inescrupulosos podem se utilizar dos inventos de inocentes desenvolvedores para fins de poder e controle. Entretanto, a solução heroica é desenvolver mais tecnologia para vencer o vilão. Isso é tecnicismo, pois não se pensa na implicação de tecnologias antes de produzi-las.

Em mais uma pista que estava na nossa cara o tempo todo, temos a música tema do desenho que se chama “Immortals”. A busca por imortalidade é o sonho transumanista. E com um robô de cuidados de saúde o primeiro passo está dado!

Na verdade, antes mesmo desse desenho da Disney, outro falava até mais claramente sobre transumanismo: Max Steel – bastante conhecido pelas crianças. Esse desenho de 2013, baseado em brinquedos, traz o vilão como um líder de uma empresa transumanista.

Cena de “Max Steel”.

3. Por que isso é um problema?

C. S. Lewis, meditando sobre as questões do transumanismo se pergunta: a busca por controle da natureza pelo homem pode trazer avanços positivos para a natureza humana ou irá destruí-la? Para Lewis, a resposta estava sendo dada já durante sua vida. Testemunha de avanços tecnológicos que traziam poluição, destruição da vida humana através de campos de concentração, armas, guerras e experimentos não éticos, a conclusão que Lewis chega é que a busca por controle da natureza, ainda mais a humana, seria na verdade a busca por controle da humanidade por alguns indivíduos, tendo a tecnologia e a ciência como ferramentas. Em seus livros “A abolição do homem” e sua versão ficcional “Aquela fortaleza medonha” o autor quis deixar o mais claro possível as implicações éticas desse tipo de pensamento. A visão tecnicista e cientificista, que acreditam que a resposta para todos os problemas humanos se encontra na tecnologia e na ciência traz como consequência atitudes não éticas. Muitos bioconservadores de ontem e de hoje acusam um pano de fundo eugenista (Chesterton) nessa forma de pensamento. Parece que o preço a ser pago por visões como essas é de uma rendição completa à tecnologia; “uma transação fáustica em que a imortalidade é obtida ao preço da liberdade humana” (Verkerk et al. “Filosofia da Tecnologia”, p. 323‑324).

Mas o velho temor de robôs se levantando contra nós deve ser deixado de lado, ao menos por enquanto, porque o transumanismo está entre nós e é mais discreto. Quando não conseguimos passar uma hora sem pegar o celular, quando nossos relógios inteligentes estão gravando dados sobre nossa saúde, quando as redes sociais acumulam informação sobre nossa vida cotidiana, quando ansiamos por um ambiente tecnologicamente conectado, já estamos nos tornando transumanos.

A busca por melhorar a saúde é um grande tema e justificativa para investimentos em tecnologia. Não que não devemos investir pesadamente e mais nessa área, mas devemos questionar acerca de qual cosmovisão está por trás desse desenvolvimento. Em “Operação Big Hero”, o grande professor no instituto de tecnologia, Robert Callahan, é alguém inspirador. Mas, no fim, descobrimos que ele é o vilão que arquitetou tudo para se vingar da morte de sua filha em um experimento tecnológico. Ele roubou e perverteu uma tecnologia que teria fins bons e a utilizou como arma para obter sua vingança.

Não imagino que tenha sido intencional, mas Callahan é também o sobrenome de um estudioso da temática de cuidados da saúde. Daniel Callahan escreveu o livro “What kind of life?” em que discute os objetivos e limites da medicina e quais seriam as políticas públicas para o futuro. O que entendemos por progresso, saúde e natureza humana é fundamental para definir que futuro queremos. Se não pensarmos sobre isso, estamos fadados a receber o que tecnocratas têm a nos oferecer.

O debate sobre tecnologia, e especialmente, sobre transumanismo, é algo que devemos realizar mais em nossas comunidades. Sinceramente, tenho a convicção de que o cristianismo tem a melhor resposta intelectual e prática para se construir um futuro tecnologicamente melhor, que leve em consideração o bem-estar comum. Agora cabe a cada um de nós arregaçar as mangas e nos colocarmos na linha de frente da reflexão filosófica e teológica. Ou, do contrário, é aceitar o que os intelectuais “seculares” tem a nos dizer. Mas aí não adianta mais nos escandalizarmos com as tecnologias e políticas públicas impostas.

Luiz Adriano Borges é professor de história na UTFPR-Toledo, lecionando sobre história da técnica, tecnologia e sociedade, filosofia, sociedade e política. Sua área de pesquisa centra-se na História e Filosofia da Tecnologia e da Ciência. Seus projetos mais recentes são: “A visão cristã da tecnologia” e “Esperança em Tempos de guerra. Ciência, tecnologia e sociedade em Tolkien, Huxley, Lewis e Orwell (1892-1973)".

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