Os sofrimentos do jovem Werther | Jonathan Silveira

Werther

Em 1774 o escritor alemão J. W. Goethe publicou o seu primeiro livro que, na época, causou uma onda de suicídios. Intitulado de “Os sofrimentos do jovem Werther”, o romance narra a trágica história da paixão irrefreável de Werther por uma bela jovem chamada Lotte. A história começa com um Werther contemplativo, deslumbrado com a beleza nos pequenos detalhes da vida.

“Ando tão inteiramente absorto no sentimento de uma existência tranquila […]. Quando o vale gracioso exala em torno de mim uma névoa repleta de fragrâncias, o sol do meio-dia repousa no obscuro inviolável da floresta, e somente alguns raios esparsos penetram o interior do santuário; quando, estendido sobre a relva espessa, perto do rio que flui, descubro rente à terra mil variedades de plantinhas; quando sinto, mais próximo de meu coração, o fervilhar desse pequeno mundo entre os arbustos, as figuras inúmeras, infinitas, dos vermes e dos insetos; quando sinto, enfim, a presença de Deus Todo-Poderoso, que nos criou à Sua imagem e semelhança, e o sopro do Seu amor infinito, que nos dirige e nos sustenta, embalados  em uma alegria eterna. Meu amigo, se o dia começa a raiar à minha volta, se o mundo que me cerca e o céu inteiro descansam no meu peito como a imagem de uma bem-amada, então suspiro e digo para mim mesmo: ‘Ah! Caso pudesse se exprimir, caso pudesse passar para o papel o que em você sente viver com tanto ardor e tamanha abundância, de forma que ali estivesse o espelho de sua alma, como sua alma é o espelho de Deus infinito!…’. Ah, meu amigo… Mas me sufoco, esmoreço diante da magnitude dessas visões” (J. W. Goethe. Os sofrimentos do jovem Werther. Clássicos Abril Coleções. Vol. 7. São Paulo: Abril, 2010. p. 15).

“Considero-me imensamente feliz apenas por poder sentir a simples e inocente alegria do homem que põe em sua mesa um legume que ele próprio cultivou e que não apenas o saboreia, mas igualmente, e em um só momento, sorve todos esses dias felizes, a linda manhã em que os plantou, as encantadoras tardes em que o regou e teve o prazer de vê-lo crescer, dia após dia!” (p. 39-40).

À medida que a história se desenvolve, Werther se apaixona pela jovem Lotte. O mundo de Werther começa a se destruir quando percebe que seu amor é inviável e não-correspondido.

“Ela [Lotte] não devia fazer isso! Não devia excitar minha imaginação com essas imagens de inocência e felicidade celestes, despertando meu coração do sono em que muitas vezes a indiferença da vida o embala!…” (p. 107).

“Ah! Esse vazio! Esse vazio terrível que sinto em meu coração! Penso muitas vezes: ‘Se eu pudesse uma vez, uma só vez, apertá-la [Lotte] de encontro ao meu peito, todo esse vazio seria preenchido’” (p. 111).

No lugar daquele sentimento de assombro com a vida, agora é a depressão e o niilismo que governam a alma de Werther.

“Deus sabe quantas vezes vou deitar-me com o desejo, com a esperança, de não mais despertar. E pela manhã, quando abro os olhos e revejo a luz do sol, sinto-me infeliz. Oh! Se eu fosse leviano, poderia culpar o tempo, uma outra pessoa, um empreendimento fracassado e, assim, o insuportável fardo do descontentamento não me pesaria tanto. Pobre de mim! Percebo muito bem que a culpa é toda minha: não a culpa, não! A verdadeira fonte de toda a minha desgraça está oculta em meu peito, a mesma fonte que outrora produzia toda a minha felicidade. Será que já não sou mais o mesmo que antes flutuava na plenitude dos sentimentos; que encontrava um paraíso em cada passo; que possuía um coração capaz de abraçar com seu amor o mundo inteiro? Mas, agora, esse coração está morto; dele já não brota nenhum entusiasmo; meus olhos estão secos e, como meus sentidos já não têm o alívio das lágrimas refrescantes, tenho a face contraída pela angústia.

Sofro muito, pois perdi aquilo que era a única alegria de minha vida, a força sagrada, vivificante, com a qual criava mundos em torno de mim: hoje ela já não existe! Quando, de minha janela, contemplo, na colina distante, o sol da manhã atravessando o nevoeiro e iluminando, no fundo do vale, os prados tranquilos; quando vejo o doce regato correr junto de mim através dos salgueiros desfolhados… Oh! Ocorre, então, que essa natureza magnífica parece estar sem vida diante de meus olhos, como uma gravura em um quadro envernizado; e toda essa visão encantadora não é capaz de conduzir, do coração ao cérebro, a menor centelha de alegria, e eu me vejo tão infeliz perante o Criador como uma fonte esgotada, um pote vazio. Muitas vezes ajoelho-me e peço a Deus que restitua as lágrimas, como um lavrador pede que chova, tendo sobre si o céu soturno e, a seu redor, a terra seca, improdutiva” (p. 113-114).

O desfecho da história é trágico: a depressão de Werther entrelaça-se irremediavelmente à sua alma, levando-o a dar cabo de sua vida.

“O desânimo e a tristeza haviam lançado raízes cada vez mais profundas na alma de Werther, e elas tinhas se entrelaçado fortemente, apoderando-se pouco a pouco de todo o seu ser. A harmonia de seu espírito estava completamente rompida; um ardor e uma agressividade contida aniquilavam progressivamente todas as suas forças, produzindo um abatimento do qual só se livrava com angústias ainda mais penosas que todos os males contra os quais até então lutara. Seu coração desesperado consumiu-lhe as últimas forças do espírito e também sua vivacidade e argúcia. No convívio social mostrava-se acabrunhado, cada vez mais infeliz e, como consequência, cada vez mais injusto” (p. 124).

“Sou um homem acabado: meus sentidos se confundem; há mais de oito dias que não consigo pensar em nada; meus olhos estão cheios de lágrimas; não me sinto bem em parte alguma e sinto-me bem em toda a parte. Nada desejo, nada peço. Seria melhor partir” (p. 132).

Werther se permitiu ter o fascínio pela vida apagado em decorrência de sua frustração amorosa. Seu amor se tornou tão irracional e insano que deixou de ser amor; seu amor tornou-se um ídolo, um demônio.

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“O amor passa a ser um demônio no instante em que passa a ser um deus” (C. S. Lewis).

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“Não acordeis, nem desperteis o amor, até que este o queira” (Cântico de Salomão 2.7b).

Jonathan Silveira é graduado em Direito pela Universidade São Francisco e mestre em Teologia pelo programa Master of Divinity da Escola de Pastores da Primeira Igreja Batista de Atibaia. É casado com Carrie, membro na Igreja Batista da Palavra, em São Paulo, trabalha na área de produção editorial e marketing em Edições Vida Nova e é fundador e editor do site Tuporém.

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