Perpétua e Felicidade: heroínas da fé | Bryan Litfin

Perpétua e Felicidade

Em toda a história da igreja, seria difícil encontrar uma mulher mais nobre e mais heroica que Víbia Perpétua de Cartago, presa por causa da fé e atirada às feras em 203 d.C. Se você nunca ouviu falar sobre ela, agora é a oportunidade para isso. Você ficará impressionado.

É possível conhecer Perpétua hoje em dia porque, ao contrário da maioria das mulheres da igreja antiga, ela deixou um registro escrito de seus pensamentos. Por ser aristocrata, Perpétua sabia ler e escrever. E por ser uma mulher de profunda devoção a Jesus Cristo, o diário que escreveu na prisão foi muito estimado pelas gerações seguintes e, por isso, copiado por incontáveis mãos até chegar à era moderna.

Perpétua tinha cerca de 22 anos — a idade de uma formanda de faculdade — quando foi executada no anfiteatro de Cartago, no romano norte da África (atual Tunísia). A cidade de Cartago era tão antiga quanto Roma e tinha sido fundada por exploradores marítimos da longínqua Fenícia mais ou menos na mesma época em que os pastores começavam a colonizar as sete colinas de Roma. Quando o poderio dos romanos cresceu, eles logo passaram a considerar Cartago uma de suas principais rivais. Roma acabou por derrotar e arrasar Cartago nas Guerras Púnicas. A cidade permaneceu abandonada por décadas, até que César Augusto decidiu devolver-lhe a antiga glória. Na época de Perpétua, Cartago era outra vez uma metrópole próspera, com uma história milenar — uma cidade cujo tamanho e esplendor perdiam apenas para Roma, na metade ocidental do império. A província enriquecera com a exportação de cereais e azeite de oliva, e a vida da aristocracia romana do Norte da África era muitíssimo confortável. Só poderemos entender Perpétua de forma adequada quando percebermos o quanto ela renunciou quando entregou a própria vida diante de trinta mil espectadores.

Não conhecemos toda a biografia de Perpétua, mas sabemos que ela provinha de família nobre, era casada e estava amamentando um filho quando foi martirizada e morta. Apesar de sua evidente devoção ao Senhor Jesus, a natureza exata de sua fé intriga os historiadores. A igreja do contexto de Perpétua era marcada por um movimento chamado Nova Profecia. Os historiadores de hoje o chamam de montanismo por causa de seu fundador, Montano, que começara a difundir suas ideias na Ásia Menor em meados do século 2. Os principais traços característicos do montanismo eram as profecias divinas recebidas em estado de transe, o estilo de vida mais rigoroso que o da maioria dos cristãos e a crença de que o fim dos tempos estava próximo. De algum modo, esse movimento radical atravessou o mar e chegou à costa africana, onde, pela sinceridade espiritual e a austeridade moral, cativou Tertuliano, um dos mais famosos pais da igreja. Embora tenha sido um tanto sectária nos primórdios com Montano, na África a Nova Profecia funcionou como um movimento de teologia ortodoxa orientado pelo Espírito no âmbito geral da igreja. Pregava que as coisas materiais do mundo estavam passando, que Deus estava falando com o seu povo outra vez, e que nenhum preço — nem mesmo a morte — era alto demais para ser pago pela glória do nome de Jesus. Por esses ideais a virtuosa e inteligente filha de um aristocrata pagão achou-se aprisionada no ano de 203.

Temos de nos lembrar, é evidente, que Perpétua não foi para a morte sozinha. Como em geral acontecia com os mártires da igreja antiga, Perpétua percorreu o sofrido caminho da perseguição ao lado de um grupo de companheiros fiéis. Os escribas da antiguidade acharam por bem mencionar no título de sua narração não apenas o nome da nobre Perpétua, mas também o de Felicidade, a escrava grávida. É claro que essas mulheres eram reverenciadas de um modo especial pela profundidade de sua fé. Também se encontravam no grupo dos cristãos encarcerados alguns mártires do sexo masculino, entre eles o instruído Saturo. Os diários que Perpétua e Saturo escreveram na prisão constituem o núcleo do texto que temos hoje.

A comunidade cristã de Cartago amava tanto esses mártires que os seus feitos heroicos tiveram de ser registrados. As memórias de primeira mão de Perpétua e Saturo foram inseridas numa estrutura editorial que apresentava a narrativa e registrava o resultado final no coliseu. É bem possível que esse habilidoso redator tenha sido Tertuliano. Com a típica eloquência retórica e o estilo impressionante que caracterizam os escritos de Tertuliano, o editor entreteceu a história dos mártires numa narrativa coerente e coesa que une história, teologia e apologética. No entanto, no fundo, o objetivo do editor para o texto era o mesmo de Perpétua: glorificar a Deus perante os olhos do mundo mediante o testemunho máximo do martírio. Os cristãos da antiguidade compreendiam que a fidelidade até a morte tem o poder de continuar edificando a igreja durante muito tempo depois de passada a época deles.

[Nota do editor: Segue abaixo trecho da narrativa registrando parte dos acontecimentos no coliseu. A tradução completa do manuscrito do diário de Perpétua encontra-se na obra Conhecendo os mártires da igreja primitiva, de Bryan M. Litfin, (Vida Nova), livro a partir do qual selecionamos o presente trecho para publicar.]

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Perpétua e Felicidade são pisoteadas por uma vaca 

Para as jovens mulheres, no entanto, o Diabo preparou uma vaca muito feroz.[1] Não era esse o costume, mas fizeram isso para arremedar o sexo das duas mulheres. Então, elas foram despidas, envolvidas em redes e conduzidas à arena. Os espectadores, entretanto, ficaram horrorizados quando viram que uma delas era uma jovem frágil e a outra tinha acabado de dar à luz e tinha os seios ainda túmidos de leite. Por isso as autoridades cobriram as duas com túnicas folgadas.

A vaca arremessou Perpétua primeiro, que caiu sobre o quadril. Sentando-se, ajeitou depressa a túnica no local onde se rasgara, ao lado do corpo, para cobrir as coxas — pois se preocupava mais com a decência do que com a dor. Em seguida procurou o seu grampo e ajeitou os cabelos despenteados. Acreditava que não era adequado morrer com os cabelos soltos, pois em seu momento de triunfo isso lhe daria o aspecto de uma mulher de luto.

Pôs-se de pé. Ao ver Felicidade caída no chão toda dobrada, aproximou-se dela e ofereceu uma das mãos à amiga ajudando-a a se levantar. As duas permaneceram ali lado a lado. Satisfeita a brutalidade da multidão, as duas mártires foram levadas de volta ao Portão da Vida.

Enquanto aguardavam, um crente não batizado chamado Rústico ficou ao lado de Perpétua dando-lhe apoio. Foi então que ela despertou do que parecia uma espécie de sono, embora, na verdade, ela tivesse sido arrebatada no Espírito.[2] Começou a olhar em volta e, para a admiração de todos, perguntou:

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— Quando vamos ser lançadas para a vaca, ou seja lá o que for?

Ao ouvir que isso já havia acontecido, não conseguiu acreditar até ver os cortes em seu corpo e os rasgões na roupa.

Em seguida, Perpétua chamou seu irmão e disse a ele e a Rústico.

— Fiquem firmes na fé — instou — e amem-se uns aos outros, todos vocês! Não deixem que nosso martírio seja uma pedra de tropeço para vocês.

Os mártires dão a vida por Cristo

Pouco depois, Saturo foi atirado inconsciente com os outros mártires no local onde era costume cortarem a garganta dos moribundos.[3] No entanto, a turba exigiu que os mártires fossem levados para a arena. Assim, quando a espada traspassou o corpo dessas vítimas, os espectadores tomaram parte no homicídio com os próprios olhos e se tornaram cúmplices do crime.

Os mártires se levantaram de maneira espontânea e foram para o lugar onde o povo os desejava. Antes, porém, beijaram-se uns aos outros e com isso consumaram seu martírio com o beijo da paz. Todos eles permaneceram completamente imóveis e cada um recebeu em silêncio o golpe da espada, sobretudo Saturo. Assim como havia sido o primeiro a subir a escada no sonho, assim também foi o primeiro a render o espírito. Mais uma vez estava à espera de Perpétua.

Ela, todavia, teve de sofrer um pouco mais de dor. Quando a espada penetrou entre seus ossos, Perpétua soltou um grito pungente. Depois ela mesma guiou a mão trêmula do jovem e inexperiente gladiador até a própria garganta. Talvez possamos dizer que essa mulher tão notável, temida pelo demônio que habitava o carrasco, não pudesse ser morta se ela mesma não o permitisse.

Impetração de bênção

Salve, ó mártires assaz corajosos e bem-aventurados! Em verdade vocês foram chamados e escolhidos para a glória de nosso Senhor Jesus Cristo! Todo aquele que o engrandece, honra e adora deve ler estas histórias exemplares para a edificação da igreja. Estes novos relatos de milagroso poder não são menos importantes que as narrativas de outrora. Eles nos lembram de que o mesmo Espírito Santo continua a operar, mesmo hoje, junto com Deus Pai Onipotente e seu Filho Jesus Cristo, nosso Senhor, a quem sejam a glória e o poder infinito para todo o sempre. Amém!

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[1] A vaca leiteira era um símbolo universal do aleitamento materno. Perpétua e Felicidade, que haviam renunciado o direito aos filhos, são comparadas a uma vaca selvagem como sinal de escárnio sobre elas por terem rejeitado o papel materno tradicional. Tal ato era repugnante e incompreensível para a sensibilidade romana. As duas mulheres são consideradas semelhantes a vacas que voltaram ao estado selvagem e se tornaram ferozes. Como vimos, porém, elas não rejeitaram a maternidade de per si — apenas a puseram em segundo plano diante de uma lealdade ainda mais irresistível. Jesus disse: “Quem ama seu filho ou sua filha mais do que a mim não é digno de mim” (Mt 10.37).

[2] Sem pôr em dúvida a força que o Espírito Santo infundiu em Perpétua nesse momento, podemos imaginar também que, do ponto de vista filosófico, ela se encontra em estado de choque por causa dos ferimentos e com dificuldade de compreender o que acontece ao seu redor. Seus atos — cobrir-se, procurar o grampo de cabelo, ajudar Felicidade, encarar a multidão em meio ao seu estado de estupor — não são intrinsecamente impossíveis nem mesmo improváveis num momento em que a jovem traumatizada procurava preservar a própria dignidade ou entender o que estava ocorrendo. Contudo, é provável que esses atos não tenham sido praticados com a intencionalidade e a clareza mental que o autor quer nos dar a entender. No contexto da antiguidade, isso não teria sido considerado uma fuga à fidelidade factual. O público desse texto entendia bem seu caráter “teologizado” e não esperava nenhum relato jornalístico dos acontecimentos.

[3] Nos coliseus antigos, esse aposento se chamava spoliarium, um lugar onde se retirava a armadura dos gladiadores mortos e os criminosos moribundos recebiam o golpe de misericórdia do executor. Segundo um estudioso, o spoliarium do anfiteatro de Cartago situava-se perto da Porta da Morte, no lado oeste da estrutura (David L. Bomgardner, “The Carthage Amphitheater: A Reappraisal”, American Journal of Archeology 93, n. 1 [January 1989]: p. 89, 100). Embora houvesse um cemitério do lado de fora dessa parte do edifício, Perpétua e seus companheiros não foram sepultados ali. Os restos mortais dos mártires acabaram indo parar na grande igreja da antiga Cartago, chamada Basílica dos Antepassados, construída sobre o antigo cemitério da rica família de Perpétua. Essa igreja foi destruída, e os ossos dos santos se perderam. Entretanto, há num museu da Tunísia uma placa de pedra onde se lê “Aqui jazem os mártires Saturo, Saturnino, Revogado, Secúndulo, Felicidade (e) Perpétua, que sofreram em 7 de março”. Perto do local onde foi encontrada a placa, em 1906, na abside da igreja, os arqueólogos descobriram o túmulo de uma criança cujo corpo estava envolvido num tecido bordado a ouro. Encontraram também dois sarcófagos de adultos, num dos quais o morto estava envolvido num pano igualmente rico. É tentador imaginar tratar-se das relíquias de Perpétua e Dinócrates, seu irmão mais novo, embora os dados talvez não nos permitam tal afirmação. Mesmo assim, onde quer que estejam esses ossos, não ficarei surpreso se eles começarem a se mover quando soar a última trombeta.

Trecho extraído e adaptado da obra “Conhecendo os Mártires da Igreja Primitiva: Uma Introdução Evangélica“, de Bryan M. Litfin, publicada por Vida Nova: São Paulo, 2019, pp. 109-110, 125-126, 127-128. Publicado no site Tuporém com permissão.

Bryan M. Litfin é formado em jornalismo pela University of Tennessee, é mestre em Teologia Histórica pelo Seminário de Dallas e Ph.D. no campo da História da Igreja pela University of Virginia. Atualmente é professor de Teologia no Moody Bible Institute, em Chicago, Illinois. É autor de Conhecendo os pais da igreja: uma introdução evangélica, publicado por Vida Nova.
Os relatos de martírio preservados na literatura do cristianismo primitivo são especialmente intensos e dramáticos. Contudo, essas narrativas são inacessíveis para muitos leitores. Conhecendo os mártires da igreja primitiva reúne em um único volume as principais histórias de martírio da igreja primitiva, oferecendo novas traduções de escritos originais e comentários de especialistas.

Mais do que um estudo histórico, esta obra de Bryan Litfin inspira maior fidelidade nos leitores e nos leva a refletir: “O que significa tomar cada um de nós a sua cruz e seguir os passos do Senhor?”. De acordo com o autor, “não é a morte pelas chamas ou pelos dentes das feras que une os cristãos atuais aos mártires da Antiguidade, mas, sim, a decisão inabalável de seguir Jesus Cristo a qualquer custo”.

Publicado por Vida Nova.

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