Quando nos retraímos – Evangelismo e os limites do Pluralismo (Parte 2) | David T. Koyzis

Abraham Kuyper (1837-1920)

Abraham Kuyper (1837-1920) foi um dos gigantes de sua época, exercendo diversas ocupações durante sua vida, como recontado por James Bratt em sua biografia definitiva intitulada de Abraham Kuyper: Modern Calvinist, Christian Democrat. Começando sua carreira como pároco, prosseguiu fundando uma universidade, um partido político e uma denominação eclesiástica. Ensinou teologia, serviu na segunda câmara do Parlamento Holandês e posteriormente como primeiro ministro, editou dois periódicos e encabeçou um movimento para mobilizar os cristãos reformados ortodoxos de seu país a fim de resistirem às investidas das ideologias secularizadoras engendradas pela Revolução Francesa. E seu movimento foi bem-sucedido, pelo menos por um período.

Poucos negariam que a Holanda hoje é um lugar muito diferente do país que Kuyper serviu um século atrás. Quando era jovem, fiquei chocado durante uma visita a Amsterdã ao ver a proliferação de “sex shops” e o descaramento do distrito da luz vermelha da cidade. Nas quatro décadas seguintes a Holanda veio a ser conhecida por suas atitudes permissivas em relação à eutanásia, às drogas recreativas e, é claro, à expressão sexual. O que aconteceu? E por que isso aconteceu tão rapidamente, ou seja, no período de duas gerações após a morte de Kuyper?

Não deveria ter sido assim. As comunidades cristãs reformadas que Kuyper liderou exibiu alguns heróis genuínos durante a ocupação alemã entre 1940 e 1945. Eu trabalhei com holando-canadenses por quase trinta anos e eles contaram histórias de como as igrejas e escolas cristãs desafiaram as exigências das autoridades da ocupação nazista e contribuíram para a resistência do movimento. Na verdade, a família de um de meus amigos mais próximos arriscou suas vidas para esconder uma família judia durante a guerra e essa história não foi de modo algum incomum. Muitos pagaram com suas vidas por causa de seu comprometimento incondicional com o reino de Deus. No entanto, tudo isso desapareceu supreendentemente rápido no período pós-guerra. No fim dos anos 1960, as forças secularizadoras que Kuyper buscou impedir haviam completado seu trabalho. Hoje, muitos membros da Igreja Cristã Reformada aqui no Canadá possuem parentes no velho país que não mais frequentam a igreja e são um pouco diferentes de seus vizinhos crentes em seus compromissos e na condução de suas vidas.

As explicações para essa tragédia não são fáceis de serem obtidas. O mistério da descrença tem intrigado teólogos e leigos por séculos. Por que algumas pessoas creem e outras não? Por que muitos cristãos, depois de passarem o início de suas vidas na igreja recebendo ensino adequado, abandonam a infância de sua fé? Obviamente, somente Deus pode ver o íntimo do coração. Talvez sirva de algum consolo observar que a Holanda foi parte de uma tendência muito maior que viu a secularização varrer os vestígios remanescentes de crença ao longo da Europa ocidental e da província canadense de Québec. Mais tarde, em 1957, Michael Fogarty identificou a presença de uma faixa territorial de alta observância religiosa, estendendo-se desde os Países Baixos até a costa veneziana da Itália. A década seguinte, porém, viu esse “cinturão bíblico” europeu desaparecer à medida que uma onda sem precedentes de prosperidade se conjugou com a exaustão espiritual que havia se estabelecido após duas grandes guerras para produzir um consumismo niilista amplamente indiferente, senão hostil, às fés tradicionais. Se poucos holandeses frequentavam a igreja, o mesmo pode ser dito de seus pares franceses, alemães, suíços e italianos. Semelhantemente, se o sistema político francês finalmente alcançou estabilidade depois de 1958, pode ter sido devido a uma melhor harmonização dos poderes legislativo e executivo na constituição de Gaulle do que devido a uma laïcité secularizadora que finalmente teria derrotado a subcultura tradicionalista com a qual travara uma batalha por quase dois séculos.

Entretanto, algo mais pode ter feito com que o empreendimento kuyperiano descarrilasse: seus seguidores talvez não tenham enfatizado suficientemente o esforço evangelístico. Aqui na América do Norte, a Igreja Cristã Reformada tem perdido membros desde 1992 e as igrejas de Kuyper na Holanda (Gereformeerde Kerken na Holanda) deixaram de existir uma década atrás quando se fundiram à Igreja Reformada da Holanda (Nederlandse Hervormde Kerk) para formarem a Igreja Protestante, que soava mais genérica (Protestantse Kerk na Holanda). Há lições aqui para evangélicos e católicos que aspiram garantir um espaço na esfera pública.

Durante os anos 1960 e 1970, um grande número de cientistas políticos, incluindo Arend Lijphart e Hans Daalder, voltaram sua atenção profissional a um fenômeno que chamaram de consociativismo. Em um ente político consociativo, os líderes de subculturas mutualmente hostis têm aprendido a colaborar para propósitos políticos imediatos, mesmo que seus respectivos constituintes permaneçam bastante isolados dos outros. A partilha de poder ocorre no nível da elite, enquanto que, na base, cada subcultura possui suas próprias igrejas (se for o caso), sindicatos, hospitais, organizações de caridade, associações fraternas e assim por diante. Frequentemente se faz referência a esta segmentação social usando a palavra holandesa verzuiling, ou pilarização. Os esforços de Kuyper levaram ao estabelecimento de uma variedade de organizações explicitamente cristãs em paralelo aos seus pares seculares. (O pintor Piet Mondrian cresceu nessa subcultura Gereformeerd.)

À medida que os sucessores de Kuyper imigraram para a América do Norte, eles trouxeram sua tendência de estabelecer e manter instituições cristãs de todos os tipos, incluindo uma rede de escolas cristãs chamadas de Christian day schools, uma organização sindical cristã, mais de uma organização política e uma rede de instituições de ensino superior. Eu mesmo há muito tempo tenho me comprometido com esses esforços e tenho ensinado em uma dessas universidades afiliadas.

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No entanto, tenho refletido se a coexistência talvez muito pacífica de Kuyper com as forças da secularização em 1917 teria sido suficiente para manter a subcultura que ele conduziu a longo prazo. Kuyper certamente não teria ficado satisfeito com o fracasso de seus seguidores em evangelizar, e a pilarização não precisaria conduzir a uma falta de estratégia externa, mas, historicamente, tais acordos de partilha do poder estimulam a busca de uma forma menos comum de denominador e suaviza diferenças. Em uma sociedade pilarizada, as subculturas distintas tornaram-se adeptas da ideia de se construir e manter barreiras contra outras subculturas. Ainda assim, os acordos consociativos que eles apresentam têm tido um curto período de vida. O último Pacto Nacional do Líbano teve início em 1943 e durou até a guerra civil irromper em 1975. Um acordo similar no récem-independente Chipre teve início em 1917 e durou até aproximadamente 1966, quando as divisões entre as subculturas começaram a se desmantelar.

Uma comunidade religiosa focada apenas em sua própria sobrevivência em um ambiente hostil já pode ter perdido a batalha. E é neste ponto que talvez os esforços dos seguidores de Kuyper tenham deixado a desejar. Se genuinamente acreditamos que a história redentiva contida na Bíblia não é apenas nossa história, mas a história do mundo, temos razões, então, para não guardá-la conosco, mas proclamar essa notícia com urgência e entusiasmo e de viver em conformidade com ela. Um cessar-fogo político pode servir o bem imediato de paz intercomunal, mas nunca pode ser um substituto para o mandamento bíblico de se pregar o evangelho ao mundo, cuja salvação, em última instância, depende disto. Diferentes grupos confessionais podem concordar em discordar no presente, mas os seguidores de Jesus Cristo devem manifestar a confiança de que a verdade que nos liberta é uma verdade que vale para todos e não apenas uma verdade subjetiva peculiar à nossa própria comunidade. Em suma, não deveríamos nos contentar em nos retrair defensivamente, mas deveríamos sempre alcançar o mundo de maneira mais ampla. Se perdermos confiança no poder transformador do evangelho, corremos o risco de perder terreno em um conflito que esquecemos que ainda está sendo travado, mesmo sob condições formais de um cessar-fogo político.

Enquanto seus pares europeus estão desaparecendo, o rápido crescimento de igrejas na África parece compreender isto. Como, então, seria o século XXI se juntássemos a agenda cultural kuyperiana com sua ênfase na criação de instituições para o reino com o dinamismo evangélico das igrejas da África? Inspirada por esta visão, a comunidade cristã nunca se daria ao luxo de descansar despreocupadamente com um mero cessar-fogo, mas se empenharia, espera-se, para viver sua fé de que a verdade de Deus é de fato a verdade do mundo.

Traduzido por Jonathan Silveira.

Texto original: When we turn inward: Evangelism and the limits of pluralism (Part 2). First Things.

Leia aqui a primeira parte do artigo.

David T. Koyzis é doutor em Filosofia pela Universidade de Notre Dame e atualmente é professor de Ciência Política na Redeemer University College, em Ancaster, Ontário, onde leciona desde 1987. Em 2004, sua obra Visões e ilusões políticas, publicada por Edições Vida Nova, foi premiada em primeiro lugar na categoria não ficção/cultura pela The Word Guild Canadian Writing Awards.
visoes-ilusoes-politicasLivro premiado em primeiro lugar na categoria não ficção/cultura pela The Word Guild Canadian Writing Awards.

Nesta obra, o cientista político David Koyzis examina as principais ideologias de nossos dias, incluindo o liberalismo, o conservadorismo, o nacionalismo, a democracia e o socialismo. Koyzis oferece uma análise bastante cuidadosa e crítica de cada ideologia, com a finalidade de explicitar as questões espinhosas inerentes a cada cosmovisão. São apresentados tanto os pontos fortes como os fracos de cada ideologia. Em sua conclusão, o autor propõe modelos alternativos que desafiam sobretudo os cristãos que trabalham na esfera pública, bem como os cientistas políticos e estudantes do pensamento político moderno.

Publicado por Edições Vida Nova.

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