Recuperando o lar | John Cuddeback

O declínio da família tem raízes na falência do lar[1]. Enquanto as duas realidades estão intimamente conectadas, elas não são idênticas. O lar, a casa ou o agregado familiar é uma forma social, uma comunidade doméstica; a família também é uma unidade social, mas se insere no fato puramente biológico da consanguinidade. Uma pessoa pode fazer parte de uma família sem fazer parte de seu lar. Essa distinção é importante se quisermos entender e renovar a vida familiar.

Ameaças à vida familiar podem ser caracterizadas de mais de uma forma. Existe uma grande quantidade de dados sociológicos acerca de relacionamentos conjugais, relacionamentos parentais, relacionamentos entre irmãos e lares quebrados ou desfigurados de várias maneiras. Mas meu foco aqui é diferente. Precisamos prestar atenção a algo que a maioria de nós experimentou, mas que dificilmente nota – e só isso já é um sinal da situação em que nos encontramos. Se uma pessoa de qualquer outra época fosse transportada para o nosso tempo, ela reconheceria imediatamente – além de simples mudanças cosméticas – ao percorrer as ruas da cidade ou do campo, um fato impressionante: as pessoas não vivem em suas casas. Mãe e pai estão no trabalho. As crianças estão na escola. E quando eles retornam, muitas vezes é com comida pronta que se come enquanto cada membro da família está olhando para sua própria tela. A pequena comunidade movimentada que era a casa – o contexto em que os pais educariam seus filhos para serem adultos e cidadãos responsáveis, mesmo em instituições políticas seriamente doentes – praticamente deixou de existir.

Não muito tempo atrás, a casa era um contexto da vida cotidiana. As artes que supriam as necessidades materiais da vida humana eram, em grande parte, artes domésticas, praticadas, desenvolvidas e transmitidas dentro das quatro paredes, ou pelo menos no âmbito imediato da casa. Alimentos, roupas, abrigo, bem como itens não essenciais que embelezavam a vida de alguma forma, eram comumente fruto do trabalho dos membros da família, muitas vezes produzidos tanto com fins para a beleza quanto para a utilidade. Isso continuou até a era industrial. Durante décadas, a Singer vendeu máquinas de costura para donas de casa, que compravam diversos modelos e faziam suas próprias roupas. Os homens construíam galpões de ferramentas no quintal. Avós faziam geleias de framboesa e colocavam em potes Mason.

O lar envolve mais do que apenas trabalho. O tempo nas varandas e o tempo na lareira pontuavam os esforços mais sérios, e muitas vezes também eram ocasiões de trabalho descontraído, como esculpir, bordar e outros passatempos. As refeições exigiam que o trabalho fosse deixado de lado, assim como, é claro, a oração. Esses hábitos eram momentos de presença mútua. Em grande medida, vida familiar significava estar com pelo menos alguns membros da família durante a maior parte do dia.

Recontar estas coisas, uma vez já tomadas como certas, destaca quão distante a ideia de lar está da vida doméstica atual. Mesmo aqueles que intencionalmente buscam ter uma vida familiar “tradicional”, na verdade, muitas vezes não têm a capacidade de compreender a realidade de um lar que não é simplesmente “tradicional”, mas também antigo e profundamente humano. Eles partem para iniciar uma família em um vácuo virtual. O marido e pai costuma se dedicar a um trabalho remoto, e a esposa e mãe tenta administrar o trabalho cotidiano de criação dos filhos – um projeto cuja natureza é realmente elusiva – enquanto se pergunta como ela também poderia estar “lá fora”. Pressões intangíveis sobre pais e filhos parecem inexoravelmente atrair sua atenção e tempo para atividades fora de casa. Júnior é levado para o treino de futebol, e mamãe vai para uma aula de spin.

Uma renovação da vida familiar exigirá uma renovação do lar, especialmente como um lugar de trabalho e experiência compartilhados e um centro de pertencimento. Estamos perdendo a vida verdadeiramente humana porque não conseguimos viver juntos. Essa convivência pode ser feita de diferentes maneiras. Como os antigos reconheceram, a pólis é um lugar onde moramos juntos: organizações cívicas, equipes esportivas e igrejas são lugares de vida comum. Mas é no lar que a natureza fez o melhor que pôde para nos oferecer uma vida comum. O instinto atrai um homem e uma mulher para formar uma família; o lar transforma esse instinto em uma forma contínua de vida.

Uma vez que a necessidade de restaurar os lares não é separável ou mesmo muito diferente do esforço para proteger ou restaurar as famílias, os que se preocupam com a situação da família hoje agem de forma ineficaz quando perdem de vista o lar. Deixar de pensar em termos de lares é interpretar mal a família e as sociedades mais amplas a que elas pertencem.

Para Aristóteles, o lar é uma família entendida como uma comunidade de vida cotidiana. A família, a Igreja e a sociedade civil são verdadeiras sociedades. Eles têm uma posição metafísica real porque são intrínsecas à condição humana. Somos animais religiosos, animais políticos e animais domésticos – e isso significa que o lar, assim como a Igreja e a sociedade civil, é em si mesmo objeto de direitos e deveres. O governo deve respeitar os direitos dos pais e reconhecer o sagrado santuário do lar. De forma ainda mais significativa, o lar possui um rico bem comum, um bem que não é simplesmente um bem extrínseco, algo que une os membros da casa porque todos desejam isso. Pelo contrário, a ação coletiva em direção a um fim em si mesmo é o bem intencionado, e este é um aspecto essencial do sucesso ou florescimento de uma verdadeira sociedade. A família não está unida apenas por algum fim; ela está junta simplesmente por estar junta.

Parcerias – por exemplo, uma cooperativa de crédito ou a maioria das empresas – também são unidades de ordem, mas têm unidade em um grau menor do que uma sociedade verdadeira. Duas coisas deixam isso claro. Primeiro, a unidade de ação não é buscada como desejável em si mesma. Podemos apreciar o projeto comum de produzir ou vender produtos, mas o fim da atividade é o lucro, ou algum outro objetivo extrínseco ao bem da própria ação cooperativa. Segundo, o bem comum que une os membros é meramente instrumental para seu ganho privado. Podemos, por exemplo, falar do “bem comum” dos parceiros em um empreendimento comercial puramente monetário, mas esse bem é, na verdade, um agregado de bens privados. Novamente, por sermos animais sociais, nossos locais de trabalho costumam ser ambientes agradáveis ​​e cooperativos. Mas se, em algum momento, o pagamento for muito baixo ou as perspectivas de progresso também diminuírem, nós saímos. Essas unidades de ordem são parcerias, mas não são sociedades no sentido pleno. Elas não visam um bem comum no sentido mais rico e adequado do termo, um bem que pode ser compartilhado por muitos sem sofrer diminuição. O novo sócio da lei pode diluir os lucros. O recém-nascido não subtrai nada do bem da vida familiar.

Russell Hittinger enfatiza a ação unificada como um fim em si mesmo em sua descrição das sociedades em oposição às parcerias: “Uma sociedade não visa apenas um objetivo comum, mas pretende fazê-lo pela ação unida. Pense, por exemplo, em uma família, uma faculdade, uma equipe ou uma orquestra. Em cada caso, a motivação para a ação inclui o bem da ação comum ”. Certamente, cada uma dessas sociedades busca bens extrínsecos. Mas o fracasso em alcançar esse bem não constitui uma razão para sua dissolução, como provavelmente aconteceria em uma parceria. Para uma verdadeira sociedade, a ação unida dos membros é em si mesma um elemento constitutivo da perfeição da comunidade e uma razão para sua própria existência. O time perdedor se esforça para melhorar e a orquestra para tocar peças mais difíceis. A família conturbada busca maior harmonia. E é o esforço e busca em si que faz parte do bem desfrutado.

Talvez isso seja mais facilmente ilustrado com alguns exemplos da vida em uma família ou lar. Pais e filhos na cozinha preparam uma refeição. Um pai ensina um filho a ler. Uma família canta junta ou faz uma caminhada na floresta. Membros da família trabalham no jardim ou constroem um galpão juntos.

Nenhuma dessas ações, em si mesmas, constituem o verdadeiro fim da família ou do lar. Um lar não é uma escola de culinária ou um clube de caminhadas. As atividades devem ser entendidas como ordenadas em direção a um fim mais último, como sustentar a vida e repassar bens humanos para a próxima geração. Ao mesmo tempo, cada uma dessas ações expressa e reforça a unidade corporativa, o que é um grande bem em si. O pai se liga com sua progênie, e a mãe tricota sua vida junto com as de seus filhos.

Isso não pode ser dito acerca de mãos contratadas para construir um galpão juntas. Essas pessoas podem se orgulhar de seu trabalho, mas a comunhão entre elas, se é que existe, é convencional, não intrínseca. Dois trabalhadores cujas habilidades se complementam, mas que não compartilham nada entre si podem formar uma grande equipe, mas eles não fazem uma sociedade. Em contraste, as atividades compartilhadas entre pais e filhos têm uma valência intrínseca em direção a uma união maior de pessoas, mesmo que essas atividades produzam resultados escassos. É preciso caminhar devagar com crianças pequenas, o que muitas vezes significa renunciar a destinos distantes e a caminhadas ambiciosas. No entanto, o que se perde em conquistas é ganho em comunhão.

As atividades compartilhadas dos membros de uma família são, portanto, elas mesmas bens comuns da família, e talvez sejam o arquétipo mais primordial da unidade em ação que é desejável em si mesma. Não é algo para todos o servir em organizações cívicas, ou mesmo participar de algum culto corporativo. Mas, durante a maior parte da história humana, a vida doméstica – o lar – foi a experiência primordial da vida comum, ordenada em direção a um bem comum. As atividades familiares – sejam elas de trabalho ou de lazer – representam um modo de estar unido que, pelo menos em espécie, é um constituinte essencial do florescimento e da felicidade humana.

Aqui temos talvez a lição fundamental da vida doméstica: ela nos ensina o que significa e como se parece ser um membro de uma unidade social de ordem. Quando nos preocupamos com as implicações sociais do divórcio, da monoparentalidade e da coabitação, não estamos sendo moralistas. Nós reconhecemos intuitivamente que cada vez menos cidadãos experimentam a vida como membros de uma sociedade, a vida como ordenada em direção a um bem comum. Nossa cultura hoje não sofre de perda de consanguinidade – as pessoas sabem quem são seus pais e mães e sabem os nomes de seus irmãos. Nesse sentido, ainda temos famílias. Mas cada vez mais nos faltam lares, comunidades domésticas permanentes de pais e filhos nos quais uma vida comum é vivida. Essa perda nos debilita moralmente, espiritualmente e politicamente.

Por essa razão, precisamos estar especialmente atentos à distinção entre família e lar. A noção de agregado familiar (em latim domus, e em grego, oikos) define uma família precisamente na medida em que é uma unidade social de ordem. Isso nos permite ver que o agregado familiar pode incluir, e historicamente muitas vezes incluiu, pessoas que não são membros da família nuclear. O termo “família”, pelo menos em inglês [e português], não destaca o aspecto social dessa comunidade. No uso comum, meus irmãos e irmãs ainda somos parte de uma família, mesmo quando agora temos nossas próprias famílias, no entanto, em outro sentido, não somos mais partes de uma família; somos membros de diferentes famílias. Não há problema, dado o uso comum do termo “família”, em dizer que eu pertenço a duas famílias: a da minha esposa e filhos e a dos meus pais e irmãos. Há um problema, no entanto, em dizer que eu pertenço a dois lares ao mesmo tempo. Por quê? Porque um lar se refere a uma sociedade de vida diária. Eu não posso viver com minha família de origem e começar um novo lar. “Por essa razão, deixará o homem pai e mãe…”

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Quando deixei meus pais, não disse: “Estou deixando sua família”. Eu disse (mesmo que não em palavras): “Estou deixando seu lar”.

Por que essa distinção é importante? É porque, ao não vermos a diferença, muitas vezes deixamos de ver o que perdemos, que é menos uma questão de união conjugal, filhos, ou mesmo fidelidade matrimonial, e mais uma perda de vida comum em uma casa, a unidade de ação que ancora nossas vidas cotidianas. O fato de não pensarmos em termos de lares é parte integrante de termos perdido a noção da natureza da vida familiar.

Quando pensamos em uma família hoje, ou mesmo em um lar, não pensamos em uma comunidade real caracterizada por uma ação comum substancial e diária. Em vez de uma comunidade reunida para ações comuns direcionadas a fins comuns, pensamos em um tipo de “base”, um lugar para descansar e recarregar as energias para as atividades diárias remotas. Devemos, por todos os meios, atentar às tristes realidades das famílias quebradas. Mas, muitas vezes, até mesmo pessoas casadas, e com filhos, não conseguem viver como um lar. O trabalho de reparação e renovação é frequentemente necessário para casais comprometidos com sua fé e fiéis aos seus votos matrimoniais, mas tudo isso acaba sendo em vão diante de nossa cultura altamente individualista e orientada para a realização.

Devemos começar considerando a natureza humana, pois a família emerge das inclinações naturais que atraem homens e mulheres. As tradições filosóficas e teológicas, incluindo a da própria Sagrada Escritura, identificam a diferenciação natural entre homem e mulher como crucial para o florescimento mútuo no lar. Em Oikonomikos (“o econômico”, ou “a arte da administração doméstica”), Xenofonte oferece uma poderosa declaração desta visão: “Eu acho que os deuses exerceram um discernimento bastante perspicaz no estabelecimento do particular emparelhamento chamado masculino e feminino, para assegurar que, quando os parceiros cooperarem, isso possa ser do maior benefício mútuo.” Xenofonte dá três razões pelas quais esse pareamento é naturalmente benéfico. Primeiro, serve à procriação; segundo, prevê que as pessoas terão apoio na velhice. A terceira razão, que ele explica com mais profundidade, é que homem e mulher são adequados para diferentes tarefas no trabalho do oikos – ou seja, a casa ou lar.

Observando que a natureza deu ao homem e à mulher quantidades iguais de “memória” e “consciência”, bem como “a capacidade de ser adequadamente responsável”, Xenofonte sugere que a natureza ajustou o homem para o trabalho “externo”, a mulher para o trabalho “interno” . Embora esses termos indiquem uma separação física, os dois trabalhos estão essencialmente ligados como princípios codependentes de uma realidade: o lar. Xenofonte conclui: “Na medida em que os dois sexos têm diferentes talentos naturais, sua necessidade um pelo outro é maior e seu emparelhamento é mutuamente mais benéfico, porque um tem as habilidades que o outro não tem”. Isso define sucintamente o que a tradição ocidental tem afirmado que seja não apenas uma questão de senso comum, mas um dom divino. E o lugar onde o homem e a mulher descobrem esse dom divino pela primeira vez é construindo um lar juntos.

Onde isso nos deixa em relação à vida no lar? Essa é uma questão controversa no século XXI. Famílias da classe trabalhadora muitas vezes enfrentam pressões econômicas que exigem que as mães trabalhem fora de casa. Entre as classes mais instruídas, as mulheres são treinadas para a vida profissional. Essa socialização pode tornar muito difícil para que as mulheres reorientem suas prioridades e sensos de identidade para o trabalho “interno”. Da mesma forma, enquanto o trabalho de um homem no modelo antigo estava “fora”, porém ainda intrínseco à vida doméstica, hoje seu trabalho está ligado ao lar de forma tênue por meio de um salário.

Enquanto o modelo antigo continha uma distinção entre trabalho interno e externo, como dois princípios de um mesmo projeto, o que temos hoje é uma separação entre o trabalho do homem e o trabalho da mulher – uma separação um do outro e do lar. Como resultado, homens, mulheres e crianças são privados do contexto mais natural para o trabalho compartilhado.

Não há uma única solução aqui. Mas, para começar, devemos ver o trabalho de homens e mulheres – tanto na reprodução quanto na produção – como pertencentes, antes de tudo e por natureza, à família. Não é coincidência que, no século passado, a rejeição de uma diferença natural entre homem e mulher tenha coincidido com o declínio da família – a comunidade na qual essa diferença mais encontra seu lugar. As demandas da economia de mercado são poderosas, e vamos ter problemas se mantivermos fantasias de que homens e mulheres simplesmente se adaptarão a uma divisão razoável de trabalho dentro e fora de casa. A prática comum e as pressões econômicas dizem o contrário. O resultado dessa maneira de pensar quase sempre prejudica a família, já que agora as mulheres imitam a orientação dos homens em relação ao local de trabalho com muito mais frequência do que os homens imitam a orientação feminina em relação à vida familiar.

Conservadores religiosos tendem a adotar atitudes tradicionais para com a família, enquanto ao mesmo tempo aceitam como óbvia o fim da produção econômica no lar. Mais uma vez, não há solução óbvia aqui. As realidades econômicas estão contra as indústrias caseiras tradicionais e, já há muito tempo, desapareceu a pequena fazenda familiar como modelo de vida doméstica. No entanto, devemos abordar uma questão fundamental: em vista da família como uma sociedade de vida cotidiana, em que as pessoas devem experimentar o que significa viver juntas, o trabalho de reprodução (como é compreendido hoje) é suficiente para constituir a vida familiar? Pode o “trabalho” dentro da família realmente apenas consistir nos vários aspectos da educação dos filhos, enquanto o que chamamos de trabalho econômico (uma virada irônica, dado que oikos, a raiz de “econômico”, se refere à família) é feito quase exclusivamente fora da casa?

A este respeito, os homens talvez enfrentem o maior desafio. Embora muitas mulheres tenham recentemente, e desde a Revolução Industrial, entrado na força de trabalho, os homens têm trabalhado bem além dos limites da família. Eles foram socializados para ver o “trabalho” como distinto do “lar”. Como consequência, maridos e pais enfrentam uma necessidade dramática e premente de desenvolver hábitos que revigorem a vida do lar. Os homens precisam pensar em como orientar suas famílias em torno de projetos e empresas comuns. Estes não precisam ser lucrativos, mas devem ser propositais e “produtivos”. Pode ser jardinagem ou melhoria da casa, ou pode ser projetos de caridade ou engajamento cívico. Qualquer que seja a forma, não há substituto para uma união íntima de uma família fazendo um trabalho em conjunto.

Um homem e uma mulher começam uma vida juntos tendo em vista uma família. Criar filhos certamente envolve uma quantidade significativa de atividade, e essa atividade caracteriza especialmente a vida da sociedade familiar. Não é de surpreender que os lares em que os pais estão cuidando de crianças sejam os lares com maior atividade.

Mas criar filhos não é uma atividade isolada. De fato, na medida em que se torna uma atividade isolada, a criação de filhos se torna empobrecida e menos eficaz. Nos lares tradicionais, o principal material do dia-a-dia era o trabalho de prover as necessidades materiais. Esse trabalho foi o primeiro e mais natural contexto para a formação de crianças. É claro que, à medida que as crianças cresciam, eram introduzidas “atividades educacionais” mais exclusivas – geralmente na forma de trabalhos acadêmicos. Mas é desnecessário dizer que a formação acadêmica sempre foi acessória a uma formação humana mais fundamental.

A formação humana começa com certas funções comuns da vida diária. Onde quer que haja vida, há roupa, poeira e louça. Essas tarefas podem oferecer uma oportunidade regular para os membros trabalharem juntos pelo lar. Outro aspecto interessante dessas funções comuns é que elas exigem que fiquemos em casa. Mesmo tendo um robô Roomba, você ainda precisa estar fisicamente presente para lavar a louça ou arrumar a cama.

No entanto, além do conjunto de coisas, animadas e inanimadas, que precisam ser arrumadas, limpas ou consertadas, a vida humana possui necessidades mais básicas que sempre exigem atenção e, assim, oferecem um contexto para a vida comum. Essas necessidades parecem se agrupar em torno da nutrição corporal, e essas, especialmente, podem ser a salvação da casa. Estômagos sempre precisam estar cheios, por isso os alimentos devem ser produzidos, preparados e servidos. Destes três estágios, o primeiro poderia ser feito novamente, em alguma medida real, e com grande efeito, em mais casas. O movimento em direção à produção local de alimentos pode ser aproveitado como um meio de revitalizar a vida em muitos lares. Duas gerações atrás, os “jardins da vitória” se tornaram comuns em todo o país tendo em vista o servir à causa da guerra. Talvez hoje eles possam ser cultivados por uma causa ainda mais primordial.

Mas é no segundo e terceiro estágios de alimentação que todos nós podemos ter o contexto para uma vida comum alegre, rica e cotidiana. A preparação de alimentos é uma arte disponível para todos e útil para todos. Mesmo em seu caráter entediante, e de fato rígido, há algo aqui que marcou cada um de nós e que sempre pode nos unir. Quem entre nós não tem imagens de vovó na cozinha? É como se aquela colher de pau fosse um apêndice de seu braço. Podemos não nos lembrar de algumas coisas que ela disse, mas nós sempre nos lembramos de sua comida. E nos lembramos de como foram aqueles tempos, e do amor que recebemos neles.

Diante do poder vinculante desse trabalho, pessoas de todas as idades podem participar. Nem todos conseguem gratinar batatas, mas todos podem descascar batatas. Sempre que algo está sendo feito, sempre há, para cada um de nós, um lugar no balcão da cozinha.

E depois há, é claro, o comer juntos. Nosso lugar na mesa é o lugar onde recebemos nossa porção de humanidade que compartilhamos. Sentado naquela cadeira, sei que sou um cidadão pleno dessa comunidade, pois me alimento de uma reserva comum de alimento. Deus é agradecido e louvado; os seres humanos são agradecidos e elogiados, e então nós ouvimos e falamos, cada um de seu lugar. Uma pessoa que está ali é uma pessoa que pertence. Uma pessoa que mora aqui é uma pessoa que está viva e nunca estará sozinha.

Como o povo antigo, à mesa, falava e falava! Era como se não houvesse amanhã, nem mesmo os problemas do dia. Só Deus sabe o que eles conversavam. Mas nós podemos conversar de novo, e podemos viver juntos novamente – bem no lugar que a natureza nos ofereceu: nosso lar.

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[1] [Nota do tradutor: traduzimos como “lar” o termo em inglês household, que também é traduzido como “casa” em outros lugares, e refere-se ao agregado familiar, incluindo pessoas (não necessariamente da família) e atividades realizadas no contexto familiar].

Traduzido por Fernando Pasquini Santos e revisado por Jonathan Silveira.

Texto original: Reclaiming the Household. First Things.

John Cuddeback é professor e cadeira de filosofia no Christendom College.

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