Refletindo sobre Aslam e Jesus com C. S. Lewis | Louis Markos

Aslam

Como professor de inglês, passei as duas últimas décadas orientando universitários através de grandes livros da tradição intelectual ocidental. No entanto, apesar de ter lecionado (e adorado) as obras de Homero, Sófocles, Virgílio, Dante, Chaucer, Shakespeare, Milton e Dickens, eu não hesito afirmar que Aslam é um dos personagens supremos de toda a literatura. Embora muitos leitores presumam que Aslam, o leão rei de Nárnia que morre e ressuscita, seja uma alegoria de Cristo, o próprio Lewis discordava disso.

De acordo com o seu criador, Aslam não é uma alegoria de Cristo, mas é o Cristo de Nárnia. A distinção é vital. Se Aslam fosse apenas uma alegoria, um mero substituto do herói dos Evangelhos, ele não envolveria tanto seus leitores como ele envolve. Na verdade, como Lewis explicou, Aslam é como a segunda pessoa da Trindade (Deus Filho) teria sido caso ela tivesse encarnado em um mundo mágico de animais falantes e árvores vivas. Como tal, Aslam assume uma força e uma realidade que fala conosco através das páginas das Crônicas de Nárnia.

Em Aslam, nós verificamos todos os poderosos paradoxos do Filho encarnado: ele é poderoso, mas gentil, cheio de uma ira justa e rico em compaixão; ele inspira assombro e até terror (pois não é um leão domesticado) e, ainda assim, ele é tão belo quanto é bom. O mundo moderno fendeu o Antigo e o Novo Testamento nos deixando com duas divindades aparentemente irreconciliáveis: um furioso, irado Yahweh que ninguém pode se aproximar, e um Jesus meigo e brando que é muito acanhado para defender seus seguidores do mal. Aslam reintegra – não apenas intelectual e teologicamente, mas também emocional e visceralmente – os dois lados do Deus trino que clama por nós em cada página da Bíblia, de Gênesis a Apocalipse.

Sempre que uma personagem entra na presença de Aslam, ele aprende, para sua grande surpresa, que algo pode ser tanto terrível quanto belo, que pode provocar, simultaneamente, sentimentos de medo e alegria. Emprestando uma palavra de Rudolf Otto, Lewis referia-se a esse sentimento dualista ao numinoso. O numinoso é o que Isaías e João sentiram quando foram carregados, tremendo e assombrados, até à sala do trono de Deus, e ouviram os querubins de quatro faces proclamarem: “Santo, Santo, Santo!”. É aquilo que Moisés sentiu quando permaneceu diante da sarça ardente, aquilo que Jacó sentiu quando lutou durante toda a noite com Deus, aquilo que Jó sentiu quando Jeová falou com ele através de um redemoinho, ou aquilo que Davi sentiu quando se viu culpado de seu pecado com Bateseba e experimentou, de uma só vez, o julgamento iroso e a infinita misericórdia do Santo de Israel.

Nossa era perdeu o senso do numinoso, pois perdeu o senso do sagrado. Através da personagem de Aslam, Lewis não apenas nos instrui sobre a natureza do numinoso, mas nos treina a como reagir quando estivermos em sua presença. Ao terminarmos de ler as Crônicas de Nárnia, talvez não sejamos capazes de definir o numinoso, mas sabemos que o sentimos sempre e cada vez que Aslam surge em uma página.

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Jesus

Nenhuma pessoa causou um impacto maior na história do mundo do que Jesus. Ainda assim, nenhuma outra pessoa foi o foco de mais controvérsias e conflitos. Nenhuma pessoa foi adorada com tal devoção ou manipulada com tal ingenuidade egoísta. Por bem mais de um século, um bando de “acadêmicos” bíblicos (sempre em constante mudança de opiniões) se organizaram sob a rubrica do Seminário de Jesus e tomaram como objetivo a busca do “Jesus histórico” como seu graal.

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Infelizmente, embora a maior parte de suas descobertas seja baseada na leitura dos escritos de Mateus, Marcos, Lucas e João (incluindo um evangelho gnóstico ocasionalmente), a maior parte dos membros do Seminário de Jesus recusa-se a tratar os Evangelhos canônicos com o respeito que merecem – apesar do número crescente de historiadores e críticos textuais que consideram os Evangelhos como sendo documentos históricos confiáveis baseados em relatos de testemunhas oculares que não duplicam, mas corroboram um ao outro.

Embora C. S. Lewis não fosse um acadêmico bíblico, ele era especialista em literatura com um olho clínico para distinguir gêneros. Muito antes de a academia moderna confirmar a precisão histórica dos Evangelhos, Lewis já havia explicado a seus leitores que o Jesus dos Evangelhos e o “Jesus histórico” da academia revisionista eram um só.

Qualquer um que leia os Evangelhos juntamente com outros textos antigos verá imediatamente a diferença. Não há nada de lendário nos Evangelhos. Eles são, como Lewis afirma, biografias sóbrias, fundadas em detalhes reais, “pé-no-chão” – o tipo de detalhes que só aparecem na literatura do século 19. O próprio Jesus emerge dos Evangelhos com uma realidade concreta que suplanta todas as outras figuras do mundo antigo (somente Sócrates chega perto). Quando lemos os Evangelhos, conhecemos Jesus de um modo que não conhecemos qualquer outro antes do período moderno.

Quanto às reivindicações que Jesus faz nos Evangelhos, Lewis neutraliza os críticos que tratam Jesus como um bom mestre ou profeta e nada mais com o que talvez seja o seu melhor e mais conhecido argumento apologético. Em seu livro “Cristianismo Puro e Simples”, Lewis mostra a mentira dessa tentativa de domesticar e enfraquecer o Jesus histórico dos Evangelhos.

Lewis nos lembra por várias vezes que Jesus faz reivindicações incríveis sobre si: ele é o Caminho, a Verdade e a Vida; ele é a Ressurreição e a Vida; ele é um com o Pai; ele tem autoridade para perdoar pecados; ele chama pessoas para segui-lo (e não apenas aos seus ensinamentos); ele toma para si o poder de reinterpretar a Lei.

Uma pessoa que fizesse essas declarações e não fosse o Filho de Deus não seria um profeta ou até mesmo um bom homem. Ele seria um enganador, no nível de um maníaco, um louco. No entanto, o consenso esmagador dos Evangelhos e daqueles que conheciam a Jesus exaurem a possibilidade de que ele era um mentiroso ou um louco. Uma vez que essas duas opções são eliminadas, nos deparamos com apenas uma possibilidade, ou seja, que ele era quem ele afirmava ser.

E é por isso que Lewis conclui que nós podemos calar Jesus por ser um louco, matá-lo como a um demônio ou prostrar-nos a seus pés em adoração. Mas, “que ninguém venha, com paternal condescendência, dizer que ele não passava de um grande mestre humano. Ele não nos deixou essa opção, e não quis deixá-la”.

Traduzido por Jonathan Silveira

Texto original aqui.

Louis Markos é professor de inglês e acadêmico residente na Houston Baptist University. É autor de From Achilles to Christ (IVP Academic, 2007), On the Shoulders of Hobbits: The Road to Virtue with Tolkien and Lewis (Moody, 2012), e From A to Z to Narnia with C. S. Lewis (Lampion, 2015).

1 Comentário

  1. Luis Aragão disse:

    gostei

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