Robin Williams: 1951-2014 | Silas Chosen

“O espírito humano é mais poderoso do que qualquer droga e é ISSO o que precisa ser nutrido: com trabalho, diversão, amizade, família. ESSAS são as coisas que importam.” – Dr. Malcom Sayer, TEMPO DE DESPERTAR

Há uma anedota dentro da Graphic Novel Watchmen, de Alan Moore, que foi muito lembrada na semana que passou. Um homem em tremenda depressão vai ao médico e expõe sua vida. Seu trabalho, família, sonhos e anseios não são nada mais do que barcos afundando num mar de desespero. Não consegue sorrir, não consegue endireitar a cabeça. O médico então diz “Já sei. O grande Pagliacci está na cidade, você deve ver sua apresentação. Ele é hilário, e seu número é um sucesso. Isso com certeza renovará seus ânimos.” O homem então responde:

“Mas doutor, eu sou o Pagliacci”.

É estranho pensar que uma pessoa que fez de sua missão de vida fazer os outros rirem pode ser levada aos abismos mais profundos da depressão. E Robin Williams não fazia só os outros rirem. Quase todos os seus personagens, até mesmo os cômicos, tinham no mínimo uma nota de melancolia, um olhar pensativo e um peso nas costas. Seu talento para improvisação e para comédia rápida, para criar piadas do nada e tirar sarro do que quer que estivesse à sua frente influenciou uma geração inteira de comediantes. É só observar seus shows de stand up e vemos que ele era capaz de manter uma energia impressionante como uma metralhadora de piadas. E os alvos eram os diversos: a política, a dele e a dos outros, as falhas, as dele e as dos outros, a religião, a dele (ele era membro da igreja Episcopal, para a qual fez a lista cômica “Top 10 razões para ser Episcopal) e a dos outros. Como uma caricatura, Robin Williams sabia que rir de si mesmo era a melhor maneira de rir.

Mas seus filmes dramáticos realmente são um caso completamente diferente. Parece que se dividiam em duas categorias: alguém que carrega algum tipo de dor tremenda, ou alguém cuja missão é encher o coração das pessoas de esperança. Isso quando não comportava os dois papéis na mesma pessoa. E o fato dele fazer essas escolhas de papel pode revelar muito.

Dor e esperança podem andar juntos dentro da mesma pessoa. Elas não se anulam. Elas não brigam entre si. Não se chega ao ponto de dizer que são “duas faces da mesma moeda”, porque o espírito humano não é uma moeda, é um dado de 100 lados. E a esperança ensina, mas a dor sempre ensina mais.

O professor de Sociedade dos Poetas Mortos existe para ensinar os alunos que poesia não tem fórmula. Assim como Patch Adams existe para ensinar que pacientes têm nome. O psicólogo de Gênio Indomável existe para nos ajudar a controlar os ímpetos autodestrutivos e para nos ensinar que não é culpa nossa. Em um de seus papéis mais excepcionais, o homem que enlouqueceu com a morte de sua esposa em O Pescador de Ilusões, existiu para ensinar que as pessoas podem ser resgatadas do mais fundo dos poços.

Williams era o tipo de pessoa que, após descobrir que seu grande amigo Christopher Reeve tinha ficado tetraplégico, não hesitou em entrar em seu quarto de hospital, fantasiado de médico, e avisando a ele com um sotaque russo que seria seu novo proctologista. Ozzy Osbourne pediu para ele ir fazer sua esposa rir quando descobriram que ela tinha câncer, então ele simplesmente entrou no quarto dela sem avisar e não parou de falar besteiras até ter certeza que ela não tinha mais risadas para dar. Além disso, mesmo sendo um defensor atuante do partido democrata, ele viajava até os lugares onde as tropas americanas estivessem posicionadas para, novamente, falar besteiras até os soldados sentirem-se bem. E mesmo tendo um coração tão carinhoso, mesmo tendo uma força tão aparentemente inesgotável, a depressão o encontrou.

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É uma doença que, estranhamente, ainda não é levada a sério em todos os lugares. E o que ela ataca é a mais importante das coisas, aquilo que Williams passou sua carreira transmitindo: a esperança. A mente de uma pessoa com depressão está quimicamente impossibilitada de funcionar direito, de controlar seus pensamentos. O poço não tem fim, como no inferno de O Amor Além da Vida. Robin Williams teve problemas sérios com drogas e bebida, e a luta contra seus vícios exauriu todas as suas forças. Além disso, descobriu os primeiros sinais do Mal de Parkinson pouco antes de morrer.

A esperança ensinada por seus personagens não foi embora. A obra de comédia, de dramaturgia, de genialidade e de humanitarismo de Robin Williams não vai ser esquecida. Mas, esse é um dia que aqueles que cresceram nos anos 80-90 irão lembrar com tristeza. Robin Williams explicou o que é ser pai e o que é ser criança (no mesmo filme), e seu humor ainda vai ajudar a salvar muita gente.

Eu tive um problema com depressão leve em 2011. E se o que eu tive foi depressão leve, não posso imaginar o que Robin Williams e milhares de pessoas passam quando têm diagnósticos piores. No meio da incoerência e do sofrimento, onde a fé em Deus era a única coisa que tinha restado, a psicóloga disse: “Seu humor é o que vai te salvar”.

Eu uso meu senso de humor como uma forma de relacionamento com todo mundo que conheço. E todo mundo que conheço, as pessoas que Deus colocou em volta, são a razão pela qual eu consegui voltar ao normal. E infelizmente, as pessoas à volta de Robin Williams não foram suficientes para que ele desistisse da ideia de tirar a própria vida.

Preste atenção às pessoas à sua volta. Todo mundo está sempre enfrentando uma luta da qual você não tem ideia. E, às vezes, é você quem tem que mandar essa pessoa rasgar a primeira página do livro de poesia e fazer com que ela siga o sonho que o destino lhe deu.

Pelo menos podemos ter algum mínimo conforto no fato de que, agora, o Gênio está livre de sua lâmpada.

Silas Chosen é roteirista, cineasta, publicitário, ilustrador e é viciado em cinema e histórias. Escreve para sites e programas de rádio sobre cinema, cultura pop e cristianismo desde 2004. Faz parte da 4U Films, ministério de cinema independente.

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