Se Jesus é a Palavra de Deus, o que a Bíblia é? | Thiago Oliveira

Há uma dúvida que paira entre algumas pessoas que não saberão lidar com o fato de Cristo ser a Palavra de Deus e dizer o mesmo com relação à Bíblia, pois, como Escritura Sagrada, ela também recebe a mesma titulação. Karl Barth, o grande teólogo suíço que foi fundamental no combate contra o liberalismo teológico, na primeira metade do século passado, tinha a sua obra fundamentada no apreço por Cristo como o autor e consumador da história da salvação. Ele rejeitava dizer que a Escritura era Palavra e alegava que a Bíblia (e a pregação também) tornam-se a Palavra na medida em que transmite o fim da revelação divina, isto é, Cristo Jesus.

Por mais que Barth tenha buscado colocar a Jesus num patamar distinto e acima de todas as coisas, incluindo a própria Bíblia, por ter tamanha estima ao Verbo Encarnado, isso gerou muitos problemas posteriores, e, por conta de sua influência, alguns de seus leitores acabaram se aproximando do liberalismo que Barth tanto combateu, enfraquecendo a ortodoxia ao colocar em xeque a autoridade da Escritura, por não terem rejeitado completamente os pressupostos hermenêuticos do método histórico crítico. Todavia, é preciso entender que, embora Jesus e a Escritura sejam distintos, ambos são Palavras de Deus e tendo a distinção bem fundamentada, não correremos o risco, como alegam alguns, de venerarmos o livro ao invés de venerarmos a pessoa de Jesus.

Primordialmente, Jesus é aquele que é a Palavra (João 1.1), por toda a eternidade. A Escritura, tem caráter de transitoriedade, pois, ao estarmos no Reino Celestial em plena comunhão com Cristo, conheceremos de maneira íntima e gloriosa aquele que é a Palavra Viva (1João 1.1). De modo que a Escritura não se fará necessária por já ter cumprido o seu papel em ser a Palavra de Deus que aponta para Cristo nesta presente era. Assim como no Éden, o relacionamento com o Deus Triúno era pessoal, pois Deus “andava pelo jardim” (Gênesis 3.8), assim será a nossa comunhão restaurada, onde falaremos com o SENHOR face a face e nos alimentaremos diretamente da Sua glória.

Mas, então, por que chamamos a Bíblia de Palavra de Deus? A resposta mais simples seria porque através dela Deus fala e comunica a revelação. A Bíblia registra as ações de Deus no mundo, e Cristo é a personagem fundamental no drama da redenção. Portanto, a Bíblia, ao falar de Cristo, revela as ações do Deus Triúno no desenrolar da criação, queda e redenção. Por isso que não podemos tratá-la como um simples livro: “A Bíblia é ‘sagrada’ porque seu discurso se distingue como instrumento da atividade comunicadora trinitária e, portanto, como extensão da presença comunicadora pessoal do próprio Deus (VANHOOZER, 2016, p. 69)”[1].

O apóstolo Paulo parece compreender isso ao escrever “Pois a Escritura diz ao faraó: Para isto mesmo te levantei: para mostrar em ti o meu poder, e para que o meu nome seja anunciado em toda a terra” (Romanos 9.17, versão Almeida 21). Aqui temos a palavra grega graphē (γραφὴ), que em seu uso comum sempre alude aos escritos sagrados, como quando o apóstolo fala a Timóteo que “Toda a Escritura (graphē) é inspirada por Deus” (2Timóteo 3.16). A alusão é de quando Moisés vai até faraó e ele transmite a Palavra de Deus, logo, se o profeta falou aquilo que é a divina verbalização e Paulo usa o termo “Escritura” pare relatar isso, não concluímos outra coisa senão que não apenas Paulo, mas o colegiado apostólico (uma vez que o próprio Pedro recomenda a leitura das cartas paulinas [2Pedro 3.15-16]) consideram o livro como sendo a Palavra, por conta de sua origem divina.

Se o que está registrado na Bíblia são os atos e as palavras de Deus, temos a ação de Deus por meio da linguagem. Linguagem esta que aponta para Cristo desde Gênesis 3.15, onde temos a primeira promessa messiânica. Ademais, é o próprio Cristo quem diz que as Escrituras dão testemunho dele (João 5.40). Destarte, ao invés de enxergar um conflito para usar a mesma terminologia para falar de Jesus e da Bíblia, deveríamos buscar o entendimento de que “É imprescindível dar atenção total, e sábia, à Escritura como Palavra de Deus registrada por escrito se quisermos adorar e seguir corretamente a Palavra encarnada, o Filho de Deus (WARD, 2017, p. 89)”[2].

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Aprouve ao Senhor que o conhecimento acerca de si mesmo se desse por meio da palavra que está registrada no livro sagrado. Por isso que obedecer a Palavra escrita é o mesmo que obedecer a Palavra viva; e desprezar a primeira é desprezar a segunda. É pertinente utilizarmos outra citação de Timothy Ward (2017, p. 87):

Se relutamos em pensar nas Escrituras como “Palavra de Deus” inequívoca, distanciamos Cristo das Escrituras por meio da qual ele se apresenta a nós para que possamos conhecê-lo. Em consequência, seria difícil eliminar a suspeita de que, conhecer Cristo pelas Escrituras não significa que tenhamos comunhão com Deus como ele é de fato. As Escrituras dão testemunho de uma relação real e ontológica entre o Filho e suas palavras nela registradas. Portanto, não devemos nos afastar da terminologia que o próprio Deus nos concedeu nas Escrituras para que possamos lidar com essa relação profunda entre Cristo como Palavra e as Escrituras como Palavra.[3]

A Bíblia é o local mais confiável que temos para acessarmos as informações sobre o Divino. Obviamente o SENHOR é bem maior, no entanto, quis Ele deixar este conhecimento escriturado, com um cânon fechado para não poder sofrer acréscimos, e através desse cânon os homens tivessem noção de quem Ele é, e, concomitantemente, descobrissem também algo sobre si, ou seja, que são pecadores que se encontram sob a ira divina, necessitados da graça para obter o perdão de seus pecados e, consequentemente, a salvação. O Soberano nos deu um livro sagrado que nos conta exatamente aquilo que precisamos saber. A Bíblia não nos fornece todas as informações sobre Deus, mas ela nos dá as informações que são necessárias. Se quiserem tratar as Escrituras, isto é, o seu conteúdo, como não sendo a Palavra de Deus, então de onde tirarão um conhecimento revelacional seguro sobre o mesmo?

Finalizo este breve artigo com a sabedoria registrada na Confissão de Fé de Westminster que em seu primeiro capítulo, no artigo sexto, assim nos diz: “Todo o conselho de Deus concernente a todas as coisas necessárias para a glória dele e para a salvação, fé e vida do homem, ou é expressamente declarado na Escritura ou pode ser lógica e claramente deduzido dela”. Confiem na Escritura, pois ela é a Palavra de Deus.

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[1] VANHOOZER, Kevin J. A Trindade, As Escrituras e a Função do Teólogo. São Paulo-SP, Edições Vida Nova 2016.
[2] WARD, Timothy. Teologia da Revelação. São Paulo-SP, Edições Vida Nova 2017.
[3] Ibidem.

Thiago Oliveira é graduado em História e especialista em Ciência Política, ambos pela Fundação de Ensino Superior de Olinda (Funeso). Mestrando em Estudos Teológicos pelo Mints-Recife. Casado com Samanta e pai de Valentina, atualmente pastoreia a Igreja Evangélica Livre em Itapuama/PE.
Por toda a história cristã, a Bíblia tem sido considerada pela esmagadora maioria de estudiosos a palavra viva e ativa de Deus.

Neste livro, Timothy Ward descreve a natureza da relação entre o Deus vivo e as Escrituras. Examina a razão por que, para adorarmos a Deus fielmente, precisamos prestar atenção à Bíblia; para sermos fiéis discípulos de Jesus, o Verbo Encarnado, precisamos fundamentar nossa vida nas palavras da Bíblia; para nos mantermos em harmonia com o Espírito Santo, precisamos confiar no que diz a Bíblia e a ela obedecer.

Ward oferece uma compreensão da natureza das Escrituras em três seções principais: o esboço bíblico mostra que as palavras da Bíblia formam parte significativa da ação de Deus no mundo; o esboço teológico enfoca a relação das Escrituras com cada uma das Pessoas da Trindade; o esboço doutrinário examina os “atributos” das Escrituras. O último capítulo explora algumas áreas significativas em que a doutrina das Escrituras deve ser aplicada.

Publicado por Vida Nova.

1 Comentário

  1. franklin disse:

    ótimo artigo, simples e direto.

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