Se você está lutando na guerra cultural, você está perdendo | Cap Stewart

Um novo consórcio cristão, dedicado a preservar a liberdade religiosa, está promovendo sua missão com imagens e linguagem militaristas. O site do grupo usa termos como “batalha”, “lutadores” e “guerra”. É claro que os fundadores desta organização se veem na linha de frente do conflito pela alma de nossa nação. Eles são participantes orgulhosos da guerra cultural em curso.

Para alguns, essa abordagem pode parecer legítima. Afinal, na luta pelo domínio entre grupos polarizados, apenas um lado pode sair vitorioso – e não é o lado que se recusa a lutar.

A pergunta que devemos fazer é esta: uma postura guerreira é a resposta adequada a uma sociedade cada vez mais anticristã? Tal abordagem representa a “sabedoria que vem do alto” ou a sabedoria que é “terrena, não espiritual [e] demoníaca” (Tiago 3.13-18)?

Tudo é justo no amor e na guerra cultural

O problema com a abordagem da guerra cultural não é que ela (corretamente) discerne a oposição do mundo. O problema está no modo de resposta escolhido.

Ao abraçar o paradigma da guerra cultural, muitos cristãos adotam – provavelmente de modo inadvertido – uma perspectiva de que “tudo é justo no amor e na guerra”. Afinal, em uma guerra não se dá a outra face; se contra-ataca tão forte quanto seu oponente, ou mais forte que ele. É assim que as guerras são vencidas.

E assim, empregamos táticas de batalha que normalmente não acharíamos defensáveis:

  • Lutamos e brigamos com nossos oponentes – esquecendo que tais escaramuças têm origem em motivos egoístas (Tiago 4.1) e que “ao servo do Senhor não convém discutir, mas, pelo contrário, deve ser amável para com todos” (2Timóteo 2.24).
  • Zombamos daqueles que se opõem a nós, usando a retórica popular de memes sarcásticos, xingamentos e linguagem condescendente – esquecendo que devemos nos comunicar “com mansidão e temor” (1Pedro 3.16) e nos comportar “com sabedoria para com os de fora”, permitindo que nossa “palavra seja sempre amável”(Colossenses 4.5-6).

Em suma, os guerreiros da cultura lutam com os outros de uma forma antitética ao ensino das Escrituras: “Pois não é contra pessoas de carne e sangue que temos de lutar, mas sim contra principados e poderios, contra os príncipes deste mundo de trevas, contra os exércitos espirituais da maldade nas regiões celestiais” (Efésios 6.12). Ou, como o próprio Jesus disse: “Se o meu reino fosse deste mundo, os meus servos lutariam para que eu não fosse entregue aos judeus. Entretanto, o meu reino não é daqui.” (João 18.36).

Nossa guerra é espiritual. Recebemos nossas ordens de marcha de nosso próprio ex-Inimigo, aquele que nos reconciliou consigo mesmo pelo derramamento de sangue – não o nosso (em justa retribuição), mas o dele (em graciosa propiciação).

Engajamento cultural

Alguns podem perguntar: “Mas não deveríamos nos opor aos males que estão se espalhando em nossa sociedade?” A resposta é um sim retumbante. Engajar-se – e até mesmo confrontar – nossa cultura é uma forma legítima de ser sal e luz no mundo.

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Novamente, o fator decisivo é a natureza do nosso engajamento. Estamos procurando destruir ou resgatar nossos oponentes? Quando corrigimos, nos opomos ou reprovamos, é com o objetivo de ganhar a conversa ou ganhar o próximo com quem estamos conversando? Nós confrontamos os outros com o espírito certo?

Nas palavras de Jonathan Edwards, nos engajamos com alguém que se opõe a nós “sem reflexões raivosas ou linguagem desdenhosa. . . [e] buscando seu bem em vez de seu mal; [e] mais para livrá-lo da calamidade em que caiu do que estar com ele pelo prejuízo que trouxe”? Como essas palavras sugerem, não estamos em guerra com nossos oponentes ideológicos – estamos em guerra por eles.

Engajar-se com nossa cultura de maneira militante e hostil é abandonar nosso papel de embaixadores. É trocar nossos vistos diplomáticos por etiquetas de identificação militares. É trocar a armadura de Deus pelas folhas de figueira do esforço humano. Tentar lutar pelo reino de Deus nos termos do mundo, é uma capitulação à sabedoria terrena.

Nossos inimigos ou nossos próximos?

Ao longo da história humana, os cristãos demonstraram amor valente em face de oposição avassaladora. É por isso que o apóstolo Paulo pôde se dirigir a uma multidão, que havia acabado de tentar matá-lo, como “irmãos e pais”. É por isso que Maria Goretti conseguiu pronunciar estas palavras pouco antes de morrer devido às feridas causadas por seu agressor: “Eu o quero comigo no céu para sempre”. É por isso que o recém-convertido Ed Johnson foi capaz de dizer “Deus abençoe a todos” antes de ser linchado por uma turba.

É assim que os cristãos são chamados para a batalha. Não combater fogo com fogo – pelo menos não como essa frase é normalmente entendida: “Se o teu inimigo tiver fome, dá-lhe de comer; se tiver sede, dá-lhe de beber; porque, se fizeres isso, amontoarás brasas sobre a cabeça dele” (Romanos 12.20). Por mais contraintuitivo que possa parecer, o fogo do ódio humano só pode ser superado pela centelha do amor divino. A humildade despretensiosa desse amor pode parecer fraca e ineficaz, mas gera uma produção sobrenatural mais poderosa do que qualquer arma terrena que possamos usar.

Muitas vezes, a provocação gera retaliação. Muitas vezes, quando a cultura se opõe a nós, sentimos que a única forma de resposta é fazendo o mesmo tipo de oposição. Mas o segundo maior mandamento nos lembra que devemos amar nosso próximo como a nós mesmos. E a parábola do Bom Samaritano nos lembra que nosso próximo é qualquer pessoa com quem tenhamos contato – incluindo aqueles que nos insultam e ameaçam.

Por decreto divino, todos são nossos próximos. Sem exceções. E conquistamos nossos próximos pelo mesmo amor que nos conquistou.

Traduzido por Jonathan Silveira.

Texto original: If You’re Fighting the Culture War, You’re Losing. The Gospel Coalition.

Cap Stewart é criador do curso “Personal Purity Isn’t Enough: The Long-Forgotten Secret to Making Scriptural Entertainment Choices”. Como comentarista cultural, contribuiu com “Cultural Engagement: A Crash Course in Contemporary Issues” (Zondervan Academic, 2019), entre outras publicações impressas e online. Seu site é capstewart.com.

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