“Soul”: de toda a nossa alma | Luiz Adriano Borges

Uma das coisas que mais atribula a mente humana acerca da finitude se encontra na pergunta: e se pudéssemos ter uma segunda chance e viver uma vida melhor? Muitos de nós chegarão ao fim de suas vidas (muitos sentem isso mesmo na flor da idade) pensando que poderiam ter vivido melhor, ter feito outras coisas e que não conseguiram florescer tanto quanto poderiam.

É por isso que histórias como a animação “Soul”, da Pixar, chamam tanta atenção e nos emocionam. O que estamos fazendo com nossas vidas? O que temos feito com nossos talentos? Tenho amado as pessoas de maneira suficiente?

A história do desenho segue a vida (e o pós-vida) de Joe Gardner, um professor de música de ensino fundamental que sonha em seguir uma carreira de jazz. Frustrado com o que ele considera uma vida medíocre, tem uma chance de brilhar nos palcos, mas acaba morrendo antes de obter sucesso. No além-vida ele insiste em voltar e seguir sua carreira.

O filme é muito bonito e emociona até mesmo os adultos. (A representação dos Jerrys, os seres que são a combinação de todos os campos quantizados do universo, é fantástica). Mas o que o filme deve nos ajudar a pensar é em como temos vivido nossas vidas e em nossas escolhas.

Nesse universo além-vida, ao fugir de sua destinação à morte certa, Joe vai para a “Escola da Vida”, um lugar antes do nascimento, uma espécie de preparação. Assim, seu corpo na terra permanece em coma, e ele tem uma experiência além-vida. Nesse tempo, Joe precisa aprender verdadeiramente qual a sua missão na terra, algo que ele achava já saber. Ele é designado para mentorear uma alma complicada, que não quer nascer. No processo ele descobre as almas perdidas, que, devido às suas obsessões, se tornam desconectadas da vida; mas ele também aprende a curtir os pequenos momentos da vida, o sabor de uma pizza, os prazeres de estar vivo. Mas, acima de tudo, ele percebe que a sua missão de vida estava mais perto do que ele imaginava ao despertar a apreciação pela música nas crianças. Colocar nossa “alma” em tudo que fazemos é o que dá sentido à vida.

“E tudo quanto fizerdes, fazei-o de coração, como ao Senhor, e não aos homens” (Colossenses 3.23). Essa é a visão cristã de conectar tudo o que fazemos com nossa fé. A falta de sentido, de achar que tudo o que fazemos é algo inútil, que não colabora para uma grande causa, ficar olhando para o futuro em busca de algo mais, mas esquecer nosso papel no mundo aqui e agora é uma das grandes falhas que o cristão pode cometer.

Como mordomos da criação, devemos buscar colocar nossa “alma” em tudo que fazemos, e não fazer por fazer. Muitas vezes sonhamos com vidas melhores, mas perdemos as pequenas bênçãos da vida cotidiana. Desejamos um futuro imaginado, mas esquecemos de viver onde Deus tem nos colocado.

Quando Joe visita o barbeiro, ele tem um novo insight: o barbeiro nem sempre quis desempenhar essa função; apesar de ser muito bom nesse trabalho, ele já sonhou em ser veterinário, mas, devido as complicações na vida, ele teve que trabalhar no que estava disponível, mesmo assim acabou se saindo muito bem e transmitia alegria a todos os seus clientes. Isso toca fundo em Joe.

Há também uma história semelhante à do desenho, escrita por C. S. Lewis em 1945. Trata-se do livro “O grande divórcio”, uma história ficcional em que os habitantes do Inferno podem fazer uma excursão até os entornos do céu (um tema medieval chamado refrigerium).

Da mesma forma que a animação da Pixar, não devemos tentar interpretar o livro de Lewis como um relato factual sobre o estado da vida após a morte (como ele mesmo deixa claro no prefácio), mas sim fazer criar um ambiente para reflexão, através de imagens vívidas de pós-vida, procurando demonstrar a natureza das nossas escolhas e de como vivemos.

A história de Lewis se passa em um sonho em que o protagonista pega um ônibus para visitar o Inferno e o Paraíso. O Inferno, no sonho de Lewis, é uma cidade cinza, deprimente, e em expansão contínua; já o Céu é uma campina gloriosa, iluminada pelo Sol, com grandes montanhas que brilham à distância. É no Céu que Lewis encontra aquele que será seu guia, George MacDonald. Este escritor teve grande influência para Lewis, alguém que lhe “batizou a imaginação”, e é uma homenagem colocá-lo no Céu.

Falando sobre escolhas entre ir para o Céu ou para o Inferno, MacDonald diz que as pessoas preferem “reinar no Inferno do que servir no Céu”. Isto é, nos rendemos a vícios, a alegrias passageiras, porque a retribuição é imediata. Queremos fazer nossas vontades de maneira egoísta, sem nos preocuparmos com os outros ou o que Deus quer de nós. MacDonald diz que há dois tipos de pessoas. “As primeiras são aquelas que dizem a Deus: ‘Seja feita a tua vontade’; as outras são aquelas às quais Deus, por fim, diz: ‘Seja feita a tua vontade’”. E continua: “Todos os que estão no Inferno escolheram ir para lá” (“O grande divórcio“, p. 87).

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Os moradores do Inferno são almas perdidas, como em “Soul”, pessoas mesquinhas e opressivas, que transformavam o seu amor por algo em uma obsessão, tornando infelizes todos à sua volta. Não à toa, os moradores do Inferno não conseguem conviver próximos e precisam construir suas casas distantes uns dos outros; seus egoísmos são tão grandes que vivem brigando pelo que cada um acha ser seu direito. Não há senso de comunidade.

Mas não nos enganemos, toda a solidão, raiva, ódio e inveja no Inferno não são nada perto das glórias do Céu. Qual caminho escolheremos?

O exercício que a personagem de Lewis faz ao percorrer de ônibus o Inferno e o Céu, e Joe, no desenho da Pixar, é olhar pela perspectiva do tempo para a vida e acabar enxergando que as mesquinharias não valem a pena. O que tem valor eterno é uma vida bem vivida na presença de Deus, uma vida que desempenha a missão para a qual Deus nos chamou, seja para ser um professor de música no ensino fundamental, um barbeiro ou um escritor.

Num momento em que pensamos bastante sobre a vida e a morte, somos brindados por duas narrativas impactantes, que mesmo tendo discordâncias “teológicas” nos despertam para a reflexão.

O que “Soul” e o “O grande divórcio” nos tentam apontar é que podemos fazer a diferença onde estamos, podemos viver nossa vida de forma plena. O título “Soul” remete a um estilo musical em que se faz necessário o trabalho em grupo. O texto de Lewis vai exatamente deixar claro que os principais pecados são fruto de egoísmo; assim, essas narrativas nos fazem olhar para dentro de nós e percebermos o quanto temos deixados de dar à comunidade em que estamos inseridos, enquanto buscamos satisfazer nossos próprios desejos de grandeza. Essas obras nos falam para não andarmos ansiosos por coisa alguma (Filipenses 4.6-16), mas buscar uma vida com propósito, aproveitando as pequenas dádivas cotidianas.

Fazer a diferença neste mundo não está em ser famoso, e muitas vezes até temos que deixar nossos grandes sonhos de lado para fazer a obra de Deus. Mas o chamado de Deus para nossa vida é colocar “alma” em tudo que fazemos. Isso é “amar a Deus de todo nosso coração, de toda a nossa alma, de todas as nossas forças, de todo o nosso entendimento” (Lucas 10.27). Fazendo isso estaremos também amando nosso próximo como a nós mesmos, como diz a continuação do versículo.

Somos chamados para realizar a obra de Deus no local mesmo onde estamos; olhe para dentro de você, mas também olhe à sua volta e se pergunte: tenho cumprido o chamado de Deus em minha família, em minha vizinhança e em meu trabalho? Aqui está a grande escolha de nossas vidas, uma escolha que impactará na eternidade. O viver em comunidade é algo que nem sempre traz alegrias imediatas, mas a gratificação muitas vezes é intangível e a verdadeira alegria, quando vier, será permanente. Não precisamos de uma experiência de quase-morte para mudarmos os paradigmas de nossas vidas; temos a palavra de Deus. O que as histórias fantasiosas fazem é somente nos lembrar de tempos em tempos onde está a verdadeira paz e a verdadeira alegria. Graças à Deus pela criatividade humana a serviço de seu Reino, muitas vezes de maneira inconsciente.

Um lembrete: tanto o desenho “Soul” como o “O grande divórcio” não são obras que tratam teologicamente da vida pós-morte. São obras de ficção. Para livros que tratem desses temas de maneira mais detida, veja: Russell Shedd, Alan Pieratt (eds.), Imortalidade. Vida Nova: São Paulo, 2019; Milard Erickson, Escatologia. Vida Nova: São Paulo, 2010. Sobre vocação, veja: Timothy Keller, Como integrar fé e trabalho. Vida Nova: São Paulo, 2015.

Luiz Adriano Borges é professor de história na UTFPR-Toledo, lecionando sobre história da técnica, tecnologia e sociedade, filosofia, sociedade e política. Sua área de pesquisa centra-se na História e Filosofia da Tecnologia e da Ciência. Seus projetos mais recentes são: “A visão cristã da tecnologia” e “Esperança em Tempos de guerra. Ciência, tecnologia e sociedade em Tolkien, Huxley, Lewis e Orwell (1892-1973)".

4 Comentários

  1. CLAUIDETE CARDOSO disse:

    QUE COMENTARIO MARAVILHOSO. COMO FALOU AO MEU CORAÇÃO!!! NEM VI O FILME AINDA RSRS. MAIS VOU VER COM CERTEZA.
    QUE DEUS NOS AJUDE A TER ESTE PROPÓSITO DE VIDA ¨. COLOCAR ALMA EM TUDO O QUE FAZEMOS¨.

  2. Wederson Cardoso disse:

    Esse texto desperta em nós a necessidade de pensar mais nas coisas celestiais.

  3. Marcia Macedo d'Haese disse:

    Quando a gente assiste Soul, em meio a toda beleza técnica e artística, a nossa “alma” sente um certo constrangimento em questionar se existe ali qualquer tendência “anti-alguma-coisa”. O filme segue influente diante dos nossos olhos e ouvidos, encantados com músicas, efeitos, cores e expressões faciais e corporais, e se aplica a sugerir uma proposta espiritual sobre a morte e o sentido da vida. Não encontramos nenhuma nuance a respeito dos pilares da criação, queda e redenção, mas em vez disso o enredo sugere que a alma pode se perder ou se encontrar, na medida em que o ser estiver satisfeito plenamente consigo mesmo. O que eu gostei no artigo de Luiz Adriano, é que ele analisa a satisfação da ALMA (Soul) do ponto de vista das escrituras, mostrando o quanto a alma humana revela sua busca em qualquer meio de comunicação e em qualquer tempo. É hoje a mesma busca de sempre… desde o início da humanidade. Ainda que neste século seja apresentada de forma impressionante em sua moderna tecnologia e interpretação, o que vemos afinal, o que as histórias fantasiosas fazem é somente nos lembrar de tempos em tempos onde está a verdadeira paz e a verdadeira alegria.

  4. marta mello disse:

    Assisti o filme, e pude viajar no filme através da Bíblia… Esse artigo está tremendo, claro e impactante… obrigada professor Luiz Adriano Borges, foi um prazer e acima de tudo, edificante, poder ler estas maravilhosas linhas!

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