Três sinais de que você está lutando por questões que Jesus nunca pediu que você lutasse | Dale Chamberlain

Muitos cristãos americanos parecem estar sempre procurando pela próxima batalha para lutar. Sentimos, de muitas maneiras, que o que mais nos define é o nosso senso de luta. Quase nos deliciamos com a ideia de que as probabilidades estão contra nós.

E estar disposto a lutar por uma determinada questão não é algo ruim. Na verdade, a primeira geração da Igreja fazia isso o tempo todo.

Ao longo dos primeiros séculos de sua existência, a Igreja foi constantemente perseguida de forma brutal. Os primeiros cristãos que se recusaram a negar sua fé foram espancados, torturados e mortos. Alguns foram até mesmo devorados por leões famintos no Coliseu Romano como uma forma de entretenimento mórbido para milhares de pessoas.

Para muitos cristãos ao redor do mundo, a perseguição ainda é uma realidade hoje.

Mas, para a Igreja primitiva, algo interessante aconteceu no século III. Sua fé deixou de ser perseguida e passou a ser a religião oficial do Império.

Parece que isso seria uma coisa unilateralmente boa. Entretanto, as primeiras gerações da Igreja passaram a admirar tanto a bravura do martírio que quase não sabiam o que fazer com sua recém-descoberta segurança. Estar sempre disposto a sofrer era sua maneira de se tornarem mais semelhantes a Jesus.

Portanto, diante da ausência de uma ameaça externa que infligisse sofrimento, eles começaram a criar maneiras de experimentar um tipo diferente de sofrimento. Foi assim que nasceram as tradições monásticas. Grupos cristãos começaram a se privar da comida, do sono, do conforto e dos relacionamentos matrimoniais. Eles intencionalmente dificultaram suas vidas para crescerem como Jesus. Seu martírio deixou de ser aplicado externamente para ser experimentado em seus próprios corações.

Essa mentalidade continua a permear a igreja nos dias de hoje.

Repito, isso nem sempre é ruim. A Bíblia nos ensina que precisamos morrer para nós mesmos, crucificar nossa carne e tomar nossa cruz.

Mas também existe um perigo. Às vezes, acabamos lutando por questões que Jesus nunca pediu que lutássemos. Nós planejamos o sofrimento (ou pelo menos o sofrimento percebido) em nome de Jesus. Mas Jesus nem sempre está nesses lugares.

Embora nossa fé informe profundamente como entendemos o sofrimento e saibamos que às vezes seremos mal compreendidos, malquistos e até mesmo perseguidos por nossa fé em Jesus, nunca é saudável tender para um complexo de mártir.

Às vezes, o evangelicalismo americano parece estar em uma relação codependente com seu próprio senso de luta. Assim, se não houver nenhum monstro para matarmos, criaremos um. Vamos intensificar a retórica acerca de um mundo que está atrás de nós para nos perseguir, roubar nossos filhos e arruinar nossos valores cristãos americanos.

Em meio a tudo isso, bradamos que estamos sendo perseguidos.

A verdade, porém, é que nossos vizinhos não cristãos não nos odeiam por causa de nossa fé. Eles não gostam de nós porque falhamos em amá-los. E falhamos em amá-los porque estávamos muito ocupados lutando por questões que Jesus nunca pediu que lutássemos.

Isso não quer dizer que não tenhamos batalhas legítimas para travar. E certamente pode ser difícil discernir quais questões somos chamados a lutar.

Desse modo, vejamos três sinais que podem indicar que você está lutando por uma questão que Jesus nunca pediu que você lutasse.

1. Você nunca é capaz de criticar sua própria tribo

Na era da cultura do cancelamento, a lealdade e a conformidade com sua base costumam ser mais valorizadas do que a verdade e a virtude. Embora muitos cristãos conservadores condenem esse tipo de relativismo moral, é muito provável que eles incorram no mesmo erro.

Os seguidores de Jesus são chamados à unidade com outros crentes. Somos chamados a amarmos uns aos outros. Por causa do Espírito Santo dentro de nós, temos uma conexão existencial e eterna uns com os outros.

Nada disso, porém, quer dizer que não temos problemas sérios que precisamos resolver entre nós.

Ainda assim, há muitas pessoas dentro do evangelicalismo que parecem ser totalmente alérgicas à ideia de que a igreja americana sempre falhou no que diz respeito a questões de abuso de poder, discriminação racial, maus-tratos a mulheres, teorias da conspiração e desinformação. Qualquer pessoa na comunidade de fé que trate dessas questões é imediatamente considerada suspeita. Elas são chamadas de marxistas sociais e de pregadoras woke destituídas do evangelho.

Mas vamos deixar uma coisa bem clara. Se você está lutando pela negação da disparidade racial, da supressão das mulheres ou teorias da conspiração equivocadas, você está lutando por questões que Jesus certamente nunca lhe pediu para lutar.

Muitas vezes, nossa disposição para lutar por essas questões tem menos a ver com nossa convicção teológica e mais a ver com nosso medo. Medo de estarmos errados. Medo de que, se estivermos errados, não saberemos o que fazer a respeito. Medo de perder nosso poder ou influência se “mudarmos de time”.

E por causa desse medo, fazemos qualquer ginástica teológica necessária para apresentar nossa postura como sendo a visão “bíblica”.

2. Você não consegue imaginar por que alguém discordaria de você

Embora muito tenha sido falado recentemente sobre o chamado pecado da empatia, a incapacidade de compreender por que alguém pensaria diferente de você não constitui virtude moral. Na verdade, é um indicador bastante forte de baixa inteligência emocional.

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Se você não consegue entender por que alguém seria tão tolo (ou tão mau) em manter certo ponto de vista sobre um assunto importante, você pode estar lutando por uma questão que Jesus nunca lhe pediu que lutasse. Procurar compreender e ter empatia pela perspectiva de outra pessoa ajudará você a discernir se é esse o caso.

Quando você consegue ver o mundo através dos olhos de outra pessoa e compreender as circunstâncias e emoções que a levou a essa posição, isso pode levá-lo a suavizar sua abordagem. Em outros casos, pode levar você a mudar totalmente de posição.

Isso nem sempre será o caso. Por mais que possamos sentir pelas dores de outra pessoa, nossa moralidade ainda está ancorada nas verdades das Escrituras.

Contudo, quando transformamos outras pessoas em vilãs, corremos o risco de tratá-las com muito mais severidade do que Jesus faria. Além disso, encerramos o debate e fazemos com que a cooperação redentora seja menos provável. Jesus nunca nos pediria para fazer isso.

3. Existem outros cristãos sinceros que você declarou como inimigos

Como eu disse acima, os cristãos são chamados a amar uns aos outros. Portanto, se você sustenta uma posição específica ou a sustenta de um modo que faz com que você trate outro crente ou subgrupo de crentes como seu inimigo declarado, é provável que você esteja lutando por uma questão que não deveria lutar.

Quando for esse o caso, alguns argumentarão que, se outra pessoa fosse realmente uma seguidora de Jesus, ela concordaria com você neste ponto específico. Tenho visto inúmeras vezes cristãos questionarem a legitimidade da fé de outras pessoas apenas para poderem criticá-las impunemente.

Contudo, essa falácia “do verdadeiro escocês” revela o fato de que não temos o direito de julgar a salvação de outra pessoa.

E isso não quer dizer que você nunca possa sustentar uma visão que faça com que qualquer outro crente pense em você como seu inimigo declarado ─ apenas que você não deve vê-los dessa forma.

Às vezes, sua fidelidade a Jesus fará com que outros o desprezem. Esse é um tema importante em todo o Novo Testamento. Mas o que aprendi é que, infelizmente, a probabilidade de você ser desprezado por outros crentes é a mesma que ser desprezado por descrentes.

No entanto, embora eles possam desprezá-lo, você nunca pode recusar-lhes um ramo de oliveira. Como diz Paulo: “Se possível, no que depender de vós, vivei em paz com todos os homens” (Rm 12.18 – A21). Guarde o seu coração para garantir que está fazendo tudo o que depende de você, mas saiba que isso nem sempre é possível.

Ao mesmo tempo, a resposta cristã é nunca perder a esperança de que as coisas podem mudar. Se você a perder, então está lutando por algo que Jesus nunca lhe pediu para lutar.

Cuidado com a retórica que você perpetua

Ao contrário de muitos dos primeiros cristãos, muitas vezes não nos custa muito escolher uma questão pela qual lutar, tendo em vista que são questões que não oferecem risco à vida. Talvez seja esse o motivo de sermos tão rápidos em agirmos assim.

O que muitas vezes não percebemos é que, embora isso possa não nos custar muito, nossa teimosia pode acabar custando muito caro a outras pessoas.

Recentemente, escrevi um artigo sobre uma mulher que teve um transplante de rim negado após se recusar a tomar a vacina contra a COVID-19. Os médicos não realizarão a cirurgia, pois a taxa de mortalidade de pacientes não vacinados que recebem transplante e contraem COVID-19 está entre 20 e 30 por cento. A razão pela qual a mulher está recusando a vacina é porque ela é cristã e acredita que isso violaria suas convicções religiosas.

Essa querida mulher está literalmente morrendo em uma luta por uma questão que Jesus não pediu que ela lutasse. E eu não a culpo e nem quero envergonhá-la por isso. Porém, quero destacar que, como muitos cristãos não estão dispostos a mudar de opinião sobre a questão da desinformação a respeito das vacinas, ela é quem está morrendo por causa disso. E ela está morrendo porque pessoas dentro da comunidade cristã fizeram com que ela fosse induzida a erro.

Este é o meu ponto. A vida já é desafiadora o suficiente sem a necessidade de fabricarmos um senso de luta. Como Jesus disse, neste mundo teremos aflições. Mas isso não significa que literalmente tudo no mundo está contra nós. Quando optamos por acreditar que está, isso é tóxico para nossas almas e prejudicial para a vida das pessoas ao nosso redor.

Traduzido e revisado por Jonathan Silveira.

Texto original: 3 Signs You’re Dying on a Hill That Jesus Never Asked You To. Her&Hymn.

Dale Chamberlain (M.Div. Talbot School of Theology) é pastor, podcaster e escreve com sua esposa Tamara no blog Her&Hymn.

3 Comentários

  1. Excelente reflexão! Só se deve ter o cuidado para não esquecermos que do ponto de vista moral o mundo é sim contra o povo de Deus. Pois se no passado não souberam lidar com a paz, talvez estejamos vivendo tanto tempo de calmaria no acidente que não saibamos lidar com as verdadeiras oposições que se levantam e acabemos descaracterizando a fé em nome do amor. Mas volto a dizer, essa luta é do ponto de vista moral.

  2. Wellington Tadeu disse:

    Esta afirmação absolutamente ANTIbíblica: “A verdade, porém, é que nossos vizinhos não cristãos não nos odeiam por causa de nossa fé (?????)” DERRUBA todo o artigo. Em João 15:18.25, Jesus foi muito claro: “Se vocês fossem do mundo, o mundo amaria o que era seu; mas vocês não são do mundo — pelo contrário, eu dele os escolhi — e, por isso, o mundo odeia vocês” (v. 19).
    Nos Estados Unidos (país do autor do artigo), há, por exemplo, casos de pessoas que foram tachadas de “propagadoras de discurso de ódio” por dizerem a alguém, simplesmente: “JESUS TE AMA”.

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