Um resumo da vida e pensamento de Martin Luther King e por que ele é importante hoje | Jonathan Silveira

Martin Luther King (1929-1968)

É celebrado hoje, nos Estados Unidos, o Dia de Martin Luther King Jr. — feriado nacional celebrado sempre na terceira segunda-feira do mês de janeiro (data próxima ao nascimento de King) desde 1983, quando foi oficialmente instituído. Ainda que seja um feriado estadunidense, Martin Luther King foi uma figura tão importante em termos políticos e sociais que a celebração de sua vida e suas conquistas transcendem fronteiras geográficas. Martin Luther King nasceu, viveu e morreu nos Estados Unidos, mas é um patrimônio da humanidade e, justamente por isso, seu feriado é mais do que digno de reflexão.

Martin Luther King sempre foi uma figura que atraía minha atenção por sua coragem na luta pelos direitos civis, mas nunca havia de fato me aprofundado para conhecer mais sobre sua história. No final de 2019, quando tive a oportunidade de visitar o museu dos direitos civis em Memphis, Tennessee (localizado no antigo hotel Lorraine onde King foi assassinado), decidi que já havia passado da hora de aprender mais sobre a história dos direitos civis e sobre o seu principal líder. Assim, gostaria de compartilhar alguns pontos importantes sobre a vida de King que julgo merecerem destaque.

Infância

Martin Luther King Jr. nasceu em 15 de janeiro de 1929 em Atlanta, Geórgia, filho de Martin Luther King e Alberta Williams King. Cresceu em uma família cristã rodeada de ministros: seu tataravô, seu avô e seu pai eram pastores batistas.

Vivendo em um Estados Unidos completamente segregado (principalmente na região do Sul onde morava) por força das leis Jim Crow[1], houve um episódio que marcou muito a sua infância. Quando tinha cerca de seis anos de idade, um garotinho branco precisou romper a amizade que tinha com o pequeno King a pedido de seu pai. Tratava-se de uma amizade de três anos que foi rompida pelo preconceito. Depois que seus pais explicaram o motivo dessa ruptura, King pela primeira vez tomou consciência de que existia um problema racial. Até então, nunca havia se dado conta disso.

Depois desse episódio de discriminação racial, muitos outros se seguiram, o que alimentava ainda mais a frustração e o ressentimento de King, uma vez que isso afetava seu senso de dignidade.

Resistência não violenta

A ideia de resistência não violenta que permeou toda a sua liderança no movimento dos direitos civis tem basicamente três origens: Henry David Thoreau, Mahatma Gandhi e principalmente Jesus.

A primeira vez que King aprendeu sobre teoria da resistência não violenta foi estudando sociologia no Morehouse College (20/09/1944 até 8/06/1948), lendo e relendo um texto de Henry David Thoreau intitulado “A desobediência civil”. Thoreau era um homem da Nova Inglaterra que preferiu ser preso a ter que pagar impostos e subsidiar uma guerra com a qual não concordava — uma guerra que poderia ampliar o território escravista.

Logo depois, King foi exposto à filosofia de Gandhi em um sermão apresentado por Mordecai Johnson na Fellowship House, na Filadélfia. Na ocasião, King ficou fascinando como Gandhi conseguira libertar os indianos da opressão do império britânico valendo-se tão somente da “ética de Jesus”, isto é, da “força do amor” (satyagraha). Até então, King acreditava que a ética de Jesus somente era aplicável a relações interpessoais, e não a um âmbito social mais amplo. Por isso, também acreditava que o problema da segregação somente seria resolvido por meio de uma revolta armada. No entanto, depois de aprender sobre os feitos de Gandhi na Índia, com seus jejuns e marchas pacíficas, concluiu que “dar a outra face” e “amar os inimigos” se estendiam também a nações e a grupos raciais. Certamente esse foi um marco na vida de King, pois compreendeu que não era Bentham, Mill, Marx ou Lênin, Rousseau ou Hobbes, que seriam capazes de oferecer fundamentos intelectuais satisfatórios para uma reforma social nos Estados Unidos, mas sim Mahatma Gandhi com a filosofia da resistência não violenta.[2]

Martin Luther King (1929-1968) ao lado de um retrato de Mahatma Gandhi. Imagem: Bob Fitch photography archive, Stanford University Libraries.

Martin Luther King sempre fazia questão de esclarecer que seu pacifismo não significava resignação ao mal, mas, antes, tratava-se de uma resistência passiva, não violenta. Contudo, em vez de se valer do ódio, tal resistência se valia do amor:

“O pacifismo não é a submissão irrealista ao poder malévolo, como sustenta Niebuhr. É, em vez disso, o enfrentamento corajoso do mal pelo poder do amor, na crença de que é melhor ser objeto do que sujeito da violência, já que este só multiplica a existência da violência e do amargor, enquanto aquele pode desenvolver no oponente um sentimento de vergonha, e assim, produzir uma transformação e uma mudança de disposição.”[3]

Naturalmente, como já mencionado, a inspiração para essa estratégia e para esse modo de vida teve Jesus como fonte primária. Ao explicar o sucesso do boicote aos ônibus em Montgomery, Alabama, disse:

“Foi o Sermão da Montanha, mais que a doutrina da resistência passiva, que inspirou inicialmente os negros de Montgomery a uma ação social grandiosa. Foi Jesus de Nazaré que estimulou os negros a protestarem com a arma criativa do amor. […] A resistência não violenta tinha se tornado a técnica do movimento, enquanto o amor continuava sendo seu ideal moderador. Em outras palavras, Cristo fornecia o espírito e a motivação, enquanto Gandhi fornecia o método”.[4]

Assim, embora King tenha se inspirado em Gandhi, Gandhi fez King olhar para a ética de Jesus com outros olhos, fazendo-o reavaliar sua teologia. Mais do que uma mera filosofia, para King a resistência não violenta encontra seus fundamentos teológicos nos ensinamentos de Jesus no Sermão da Montanha.

Mesmo sendo convencido de que o pacifismo era uma posição melhor, King, contudo, admitia que sua posição não estava livre de dilemas morais. Compreendia sua visão não como isenta de pecado, mas como sendo um mal menor comparada à visão não pacifista. Ainda assim, ao ser questionado por líderes negros acerca da autodefesa, disse:

“O debate sobre a questão da autodefesa [é] desnecessário, uma vez que poucas pessoas haviam sugerido que os negros, individualmente, não se defendessem quando atacados. A questão não era se alguém deveria ou não usar uma arma quando sua casa fosse atacada, mas se era taticamente aconselhável usar uma arma durante uma manifestação organizada. Se eles arriassem a bandeira da não violência, disse eu, a injustiça no Mississippi não seria exposta e as questões morais seriam obscurecidas.”[5]

Portanto, embora defendesse a noção de não violência, parece-me que King mitigava esse princípio em casos particulares de autodefesa.

Teologia e política

Há cristãos conservadores que torcem o nariz ante a menção a Martin Luther King. Isso ocorre devido às inclinações de King ao liberalismo teológico e ao seu ativismo social e político. Particularmente, creio que seja prudente manter algumas reservas, mas não a ponto de obliterar o reconhecimento de sua importância histórica e de seu exímio trabalho como pastor e ativista. Ainda assim, mesmo sabendo das inclinações não ortodoxas de King, é muito importante ter em mente algumas questões.

King estudou no Seminário Crozer, na Pensilvânia (1948-1951) e em seguida obteve seu doutorado em teologia sistemática na Escola de Teologia da Universidade de Boston (1951-1955). Mesmo estando inserido em um contexto eminentemente liberal, King não comprava qualquer ideia que lhe era oferecida. Cauteloso, lia os grandes filósofos e teólogos e ponderava sobre suas ideias. Aquilo que aos seus olhos não fosse intelectualmente salutar, era descartado; aquilo que fosse (ainda que oriundo de uma fonte bastante questionável), era incorporado ao seu arcabouço intelectual. Desse modo, ao ler Walter Rauschenbusch, por exemplo, entendeu que sua filosofia social “se aproximou perigosamente da identificação do Reino de Deus com um sistema social e econômico específico — tendência que não deveria ter lugar na Igreja”.[6] Contudo, também compreendeu que havia aspectos positivos na filosofia social de Rauschenbusch ao destacar o evangelho a partir do homem como um todo, isto é, incluindo corpo e alma, necessidades materiais e necessidades espirituais. King também rejeitou a ingênua noção teológica liberal de que o homem é bom por natureza: sendo negro e vivendo em um Sul completamente racista, entendeu que o liberalismo oferecia um falso idealismo e, assim, rejeitou essa antropologia demasiadamente otimista e afirmou a doutrina do pecado. Em um de seus discursos, disse:

“Em cada um de nós há uma guerra em curso. É uma guerra civil. Não importa quem você é, não importa onde mora, há uma guerra civil em curso em sua vida. E toda vez que você se dispõe a ser bom, uma coisa o pressiona, dizendo-lhe para ser mau. Isso está acontecendo agora na sua vida. […] E há momentos em que todos nós sabemos, de alguma forma, que há em nós um Médico e um Monstro. E acabamos tendo de proclamar, juntamente com Ovídio, o poeta romano: ‘Eu vejo e aprovo o melhor, mas sigo o pior’. Acabamos tendo de concordar com Platão quando ele diz que a personalidade humana é como uma charrete com dois cavalos teimosos, cada qual querendo seguir numa direção diferente. Ou às vezes temos até de acabar nos juntando a santo Agostinho quando ele afirma, em suas Confissões: ‘Senhor, dai-me a castidade, mas não ainda’. Acabamos proclamando juntamente com o apóstolo Paulo: ‘Não faço o bem que quero, mas o mal que não quero’. Ou acabamos tendo de afirmar, juntamente com Goethe, que ‘há em mim matéria-prima suficiente para produzir tanto um cavalheiro quanto um velhaco’. Há uma tensão no coração da natureza humana. E sempre que nos dispomos a sonhar nossos sonhos ou construir nossos templos, devemos ser honestos o bastante para reconhecê-lo.”[7]

A prudência intelectual era uma característica de King e isso se fez notório não apenas na academia, mas também na liderança do movimento dos direitos civis. Mesmo sendo acusado de promover o comunismo por seus detratores segregacionistas (dentre eles o controverso J. Edgar Hoover, diretor do FBI na época e talvez o principal antagonista de King), King expressamente rejeitou o marxismo. Ao ter contato com o pensamento de Marx, concluiu:

“Em primeiro lugar, rejeitei sua interpretação materialista da história. No comunismo, declaradamente secularista e materialista, não há lugar para Deus. Isso eu nunca poderia aceitar, pois, como cristão, acredito na existência de um poder criativo pessoal neste universo que é a base e a essência de toda realidade – um poder que não pode ser explicado em termos materialistas. A história é guiada, em última instância, pelo espírito, não pela matéria. Em segundo lugar, discordei enfaticamente do relativismo ético do comunismo. […] Em terceiro lugar, eu me opus ao totalitarismo político do comunismo. […] Estou convencido agora, tal como estava naquela época, de que o homem é um fim por ser um filho de Deus. O homem não é feito para o Estado, o Estado é feito para o homem.”[8]

Sua crítica veemente ao comunismo não o impediu, contudo, de compreender as agruras dos desprivilegiados, nem o impediu também de criticar o próprio capitalismo. Para King, a verdade se encontrava em algum ponto na síntese entre comunismo e capitalismo:

“Historicamente, o capitalismo não conseguiu ver a verdade no empreendimento coletivo e o marxismo não conseguiu ver a verdade no empreendimento individual. O capitalismo do século XIX não conseguiu ver que a vida é social e o marxismo não conseguiu, nem consegue ver, que a vida é individual e pessoal. O Reino de Deus não é nem a tese do empreendimento individual nem a antítese do empreendimento coletivo, mas uma síntese que concilia as verdades em ambos contidas.”[9]

Como se vê, embora classificado como teologicamente liberal por alguns conservadores, King ainda preservava a prudência intelectual em muitos aspectos e fez questão de destacar que era muito mais simpático à neo-ortodoxia do que ao liberalismo. Segundo ele, a neo-ortodoxia fazia uma correção necessária ao liberalismo, que era raso e havia capitulado à cultura.

No fim das contas, ao se discutir a teologia de Martin Luther King, não se pode perder de vista a caridade, compreendendo que ele era um produto de sua época, isto é, uma época de brutal segregação racial na qual seminários teológicos conservadores (principalmente em se tratando de seminários do Sul dos Estados Unidos) não acolhiam negros alegremente como parte de seu corpo discente. Por causa disso, que escolha teria Martin Luther King a não ser recorrer a um seminário liberal do Norte para buscar instrução formal ao seu chamado pastoral, bem como fundamentos teológicos para a igualdade racial? A respeito disso, Mika Edmondson comenta:

“Fico profundamente triste em dizer que King simplesmente não poderia ter frequentado seminários conservadores como o Seminário Teológico Batista do Sul ou o Seminário Teológico de Westminster. Tendo em vista que os conservadores não estavam usando seus recursos teológicos para afirmar o igual valor da vida negra, King se engajou criticamente com as fontes teológicas liberais de que dispunha.”[10]

Concordando com a declaração de Edmondson, Albert Mohler comenta:

“O Dr. Edmondson é bastante adepto de perguntas difíceis. Quando Martin Luther King Jr. estava procurando fundamentos teológicos para a igualdade racial, por que ele teve que ir a um seminário liberal e estudar com professores liberais para encontrar ajuda? Por que ele não pôde participar do Seminário Teológico Batista do Sul ou do Seminário Teológico de Westminster? Embora mesmo naqueles dias o Dr. King pudesse ter participado de qualquer um desses seminários, nenhum dos dois era um lugar acolhedor para um jovem ministro negro. Essa verdade é um julgamento cruel contra nossa honra institucional.”[11]

Por isso, parece-me injusto tecer uma crítica conservadora que não reconhece que as inclinações não ortodoxas de King se devem, pelo menos em parte, à própria teologia conservadora da época.

Montgomery, Birmingham, Washington D.C. e Selma

Ao se estudar a história dos direitos civis americanos, nota-se que há quatro cidades[12] que se destacam por terem sido o palco de importantíssimas transformações sociais que reverberaram no âmbito nacional e internacional. São elas: Montgomery, Birmingham, Washington D.C. e Selma — com exceção de Washington D.C., todas são cidades do estado do Alabama.

Montgomery

Montgomery foi a cidade na qual Martin Luther King se engajou em protestos pacíficos pela primeira vez em 1955, sendo o berço de sua luta pela igualdade racial. King pastoreava a igreja batista da avenida Dexter quando a costureira Rosa Parks foi presa por se recusar a ceder o seu assento no ônibus a um branco. Por causa desse episódio, surgiu a estratégia de não cooperação com as empresas de ônibus da cidade que eram orientadas por leis segregacionistas.

Moradores negros de Montgomery caminhado. Boicote aos ônibus de Montgomery, 1955.

Foi nesse contexto que nasceu o líder dos direitos civis como é conhecido hoje. Percebendo o sucesso na adesão de negros ao protesto aos ônibus logo no primeiro dia, os articuladores do boicote se deram conta de que precisariam de um líder que lhes desse direção acerca dos próximos passos. Afinal, deveriam ou não prosseguir com o boicote? Assim, em 5 de dezembro de 1955 foi convocada uma manifestação popular, a Associação para o Progresso de Montgomery (Montgomery Improvement Association) foi criada e King, para sua surpresa, foi eleito presidente por unanimidade. Em seu discurso de posse para quase cinco mil pessoas que proferiu naquela mesma noite[13], King encorajou a continuidade do boicote, mas, ao mesmo tempo, preocupou-se em adotar um tom que não nutrisse o ressentimento dos negros:

“Como poderia fazer um discurso que fosse ao mesmo tempo suficientemente militante para manter meu povo estimulado a uma ação positiva e suficientemente moderado para que seu fervor se mantivesse dentro de limites controláveis e cristãos? Sabia que muitos negros eram vítimas de um amargor que poderia facilmente alcançar proporções excessivas. Que poderia eu dizer a eles para mantê-los corajosos e preparados para uma ação positiva, mas afastados do ódio e do ressentimento? Será que o militante e o moderado poderiam combinar-se num único discurso? Decidi que precisava enfrentar o desafio de peito erguido e tentar combinar duas posturas aparentemente incompatíveis. Procuraria estimular o grupo à ação insistindo em que seu respeito próprio estava em jogo e se eles aceitassem tais injustiças sem protestar estariam traindo seu senso de dignidade e os preceitos eternos do próprio Deus. Mas compensaria isso com uma forte afirmação da doutrina cristã do amor.”[14]

No fim, o protesto foi um sucesso. Evitando os ônibus, os negros passaram a usar táxis, caminhar longas distâncias, e oferecer caronas entre si. Essa não cooperação durou 382 dias e resultou em grande prejuízo financeiro às empresas de ônibus. O protesto somente teve fim em 13 de novembro de 1956, quando a Suprema Corte, por fim, declarou a inconstitucionalidade das leis segregacionistas nos ônibus. Nesse ínterim, King foi preso, sofreu ameaças da Klu Klux Klan e teve sua casa bombardeada.

Birmingham

O Alabama dos anos 1960 governado por George Wallace — famoso pela frase “segregação hoje, segregação amanhã, segregação sempre!” — era uma lástima. Embora o vírus do racismo se alastrasse pelo Sul de modo geral, a Birmingham de Wallace era provavelmente a cidade mais segregada, sendo, segundo Martin Luther King, “o símbolo do núcleo de resistência à integração”. Tendo Eugene “Bull” Connor como comissário de polícia — duro opositor dos direitos civis que se tornou símbolo do racismo institucional e da brutalidade policial —, Birmingham era marcada por prisões, linchamentos, castrações, jatos de água e uso de cães e de bombas contra negros. Na verdade, havia tantas explosões de bombas plantadas por brancos em casas de bairros negros em Birmingham que a cidade chegou a ser tristemente apelidada de “Bombingham”. Para agravar ainda mais a situação, os brancos moderados que discordavam das táticas de Bull Connor e dos maus-tratos contra os negros simplesmente permaneciam silentes diante do mal. Daí surge a famosa frase de King: “A maior tragédia de Birmingham não era a brutalidade dos maus, mas o silêncio dos bons.”[15]

Por esses motivos, o Dr. King decidiu incluir Birmingham em sua rota de manifestações e protestos não violentos. Em 3 de abril de 1963, acompanhado de Fred Shuttlesworth e Ralph Abernathy (também pastores engajados no movimento dos direitos civis), King reuniu voluntários suficientes para iniciar uma campanha na cidade com sit-ins[16] em lanchonetes, passeatas, ocupações em igrejas e bibliotecas, e boicote ao comércio local. No décimo dia de protestos, cerca de 500 pessoas já estavam presas, lotando as cadeias. Assim, no dia 12 de abril (uma Sexta-feira Santa), desafiando uma ordem judicial que ordenava o fim dos protestos, King liderou outra passeata que o levou à prisão. É de lá que escreve um dos mais famosos e importantes documentos da história dos direitos civis, que foi intitulado de Carta de uma prisão em Birmingham[17] — um documento primoroso que constitui uma resposta a oito sacerdotes que criticavam os métodos de desobediência civil e protestos defendidos por King[18]. Ao mesmo tempo que trata de lei, justiça e desobediência civil, a Carta de uma prisão em Birmingham é também um desabafo contra a inércia dos brancos moderados diante do mal. É desse documento que temos a celebrada frase: “A injustiça em algum lugar constitui uma ameaça à justiça em toda parte”.[19]

Outra passeata foi organizada, desta vez com estudantes. No dia do protesto, no entanto, os jovens se depararam com a chocante brutalidade policial liderada por Bull Connor. Ao seu comando, cães e jatos d’água do corpo de bombeiros foram imediatamente usados contra os manifestantes e mais de mil jovens foram presos. A notícia repercutiu internacionalmente.

Os cães de Bull Connor atacam os jovens manifestantes em Birmigham. Imagem: AP/Bill Hudson.

Depois desse episódio, King conseguiu realizar um acordo de dessegregação com os representantes da comunidade industrial e comercial. A campanha de Birmingham durou seis semanas.[20]

Washington D.C.

Washington D.C. é importante na trajetória de King por ter sido o palco da Marcha por Trabalho e Liberdade que ocorreu em 28 de agosto de 1963. Foi nessa marcha, em frente ao Lincoln Memorial, que King proferiu o seu famoso discurso intitulado “Eu tenho um sonho” para mais de 200 mil pessoas. King teve apenas uma noite para pensar no discurso e preparar um esboço. No entanto, dispensou completamente o manuscrito logo no início do discurso e passou a improvisar. Como já havia utilizado a expressão “Eu tenho um sonho” anteriormente em um outro discurso[21] durante uma marcha[22] que acontecera em Detroit, Michigan, sentiu que deveria se valer da mesma frase também ali[23] em Washington D.C. E o resto é história.

“Eu tenho um sonho de que um dia, nas encostas vermelhas da Geórgia, os filhos dos antigos escravos sentarão ao lado dos filhos dos antigos senhores, à mesa da fraternidade. […] Eu tenho um sonho de que os meus quatro filhos pequenos viverão um dia numa nação onde não serão julgados pela cor de sua pele, mas pelo conteúdo de seu caráter. Hoje, eu tenho um sonho! […] Eu tenho um sonho de que um dia todo vale será alteado e toda colina, abaixada; que o áspero será plano e o torto, direito; ‘que se revelará a glória do Senhor e, juntas, todas as criaturas a apreciarão’. Esta é a nossa esperança, e esta a fé que levarei comigo ao voltar para o Sul. Com esta fé, poderemos extrair da montanha do desespero uma rocha de esperança.”[24]

Confira o vídeo do discurso na íntegra:

Sem dúvida, além de ser um dos mais belos e poderosos discursos da história, “Eu tenho um sonho” nos mostra a excelente capacidade de improviso oratório de King.

Selma

Depois de receber o Prêmio Nobel da Paz em 10 de dezembro de 1964, uma outra ação não violenta de grandes proporções precisou ser coordenada, agora na cidade de Selma. Segundo King, a Selma de 1965 era o que a Birmingham tinha sido em 1963. Desta vez, contudo, a luta se concentrava pelo direito ao voto. Embora a legislação de 1957, 1960 e 1964 estipulasse o direito de voto ao negro, King afirmava que seu teor era inadequado em termos de viabilização desse direito. Por conta disso, diversos estados do Sul criavam dificuldades e inviabilizavam ao negro o acesso ao sufrágio. Segundo King, havia em Selma pelo menos 15 mil negros em condições de votar, mas menos de 350 estavam registrados. O processo de registro eleitoral de negros, além de ser incrivelmente moroso, era conduzido por funcionários públicos que cobravam taxas de registro e submetiam os negros a testes de alfabetização e entendimento que eram irrazoavelmente difíceis. Tudo isso tornava o sucesso no processo de registro eleitoral praticamente impossível. Em suma, os negros eram privados do sufrágio.

Assim, iniciou-se uma campanha em Selma em fevereiro de 1965 com o objetivo de promover o registro eleitoral de negros e reivindicar uma nova e aperfeiçoada legislação federal que viabilizasse efetivamente o sufrágio ao negro, sem protelações. Desse modo, foi organizada uma marcha a fim de chamar a atenção da comunidade de Selma e do governo federal — uma marcha pacífica que começaria em Selma e terminaria em Montgomery, um trajeto de 85 quilômetros. Como o Dr. King tinha obrigações dominicais com sua igreja em Montgomery, ele acabou não participando da marcha do dia 7 de março que — em decorrência da brutalidade policial perpetrada contra aproximadamente 600 manifestantes mediante o uso de cassetetes e gás lacrimogênio e televisionada para o mundo — ficou conhecida como “Domingo Sangrento” (“Bloody Sunday”).

Consciente de que a injustiça não deveria prevalecer, no dia 9 de março King inicia novamente a marcha com aproximadamente 2.500 manifestantes, estando agora na linha de frente. Constatando, contudo, que a força policial ao longo da rodovia 80 estava pronta a se valer da força novamente, King recua com os manifestantes, decidindo obedecer a uma ordem judicial contra marcha, pois, segundo ele, “percebemos que tínhamos marcado nossa posição, revelado a presença permanente da violência”.[25] Naquela noite, quatro ministros brancos que marchavam foram atacados e mortos por membros da Klu Klux Klan. Esse dia é conhecido como “Terça-feira da Reviravolta”.

Por fim, no dia 21 de março (dias depois de obter uma confirmação legal do direito de realizar a marcha), King e mais 25 mil pessoas (negros e brancos, protestantes, católicos e judeus) cruzam a ponte Edmund Pettus, chegam à rodovia 80, e dão início à marcha rumo a Montgomery. Durante a marcha, celebridades como Harry Belafonte, Lena Horne, Sammy Davis Jr., Leonard Bernstein, Odetta, Mahalia Jackson, Tony Bennett, Joan Baez e Nina Simone entretinham os manifestantes com músicas de modo a inspirá-los.

Martin Luther King, acompanhado de sua esposa Coretta King, marcham de Selma em direção a Montgomery. Imagem: James “Spider” Martin | spidermartinphoto.com

E, assim, no dia 25 de março, os manifestantes chegam a Montgomery e King profere mais um poderoso discurso em frente ao Capitólio do estado do Alabama por ocasião do encerramento da marcha:

“Venho para lhes dizer, nesta tarde, que, por mais difícil que seja o momento, por mais frustrante que seja a hora, [a justiça] não demorará, porque a verdade, esmagada contra a terra, novamente se erguerá. Quanto tempo? Não muito, pois nenhuma mentira é eterna. Quanto tempo? Não muito, pois colheremos o que semeamos. […] Quanto tempo? Não muito, pois o arco do universo moral é longo, mas se inclina em direção à justiça. […] Glória, glória, aleluia! Sua verdade está a caminho.”[26]

A marcha de Selma a Montgomery chamou a atenção do governo federal, fazendo com que o presidente Lyndon B. Johnson sancionasse a lei dos direitos de voto em 6 de agosto de 1965.

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Anos finais

Depois que recebeu o Prêmio Nobel da Paz, King passou a entender que sua luta contra a injustiça deveria ser ampliada. A partir de então, passou a lutar não apenas contra a injustiça racial, mas também contra a pobreza e a guerra. Segundo ele, cada uma dessas causas “se interligavam no mesmo envoltório do destino humano”.[27] Mesmo acendendo a ira e críticas de muitos, King foi um forte opositor da guerra do Vietnã:

“Estávamos pegando os jovens negros prejudicados por nossa sociedade e os enviando a um lugar situado a 13 mil quilômetros de distância para garantir liberdades no Sudeste Asiático que eles não tinham no sudoeste da Geórgia ou a leste do Harlem. Assim, temos sido repetidamente confrontados pela cruel ironia de ver rapazes negros e brancos nas telas da TV matando e morrendo juntos por uma nação que tem sido incapaz de fazer com que se sentem juntos nas mesmas escolas. E assim os vemos exibindo uma solidariedade brutal ao queimarem as cabanas de uma aldeia pobre, mas percebemos que dificilmente morariam no mesmo quarteirão em Chicago. Eu não poderia silenciar em face dessa manipulação cruel dos pobres…”[28]

“A guerra não é a resposta. O comunismo não será derrotado com bombas atômicas ou armas nucleares. […] Não nos aliemos a um anticomunismo negativo, mas a uma crença positiva na democracia, percebendo que a nossa melhor defesa contra o comunismo é assumir uma postura ofensiva em nome da justiça. Com uma ação positiva, buscaremos acabar com as condições de pobreza, insegurança e injustiça que são o solo fértil no qual a semente do comunismo germina e floresce.”[29]

Assim sendo, King lançou outras campanhas em outros estados tendo como alvo essas “novas causas”. Em 1966, por exemplo, lançou uma campanha em Chicago, lutando por moradia a negros.

Em 1968, enquanto estava em Memphis, Tennesse, para apoiar a causa de coletores de lixo que estavam em greve por melhores condições de trabalho, Martin Luther King foi brutalmente assassinado com um tiro de rifle disparado pelo supremacista branco James Earl Ray no dia 4 de abril, no hotel Lorraine onde King estava hospedado. Na noite anterior, enquanto proferia seu último discurso intitulado de “Eu estive no topo da montanha”, no templo Bispo Charles Mason, chegou a dizer algo tão emblemático que, olhando em retrospectiva, parecia um prenúncio de sua morte:

“Eu estive no topo da montanha. E não me importo. Como qualquer pessoa, gostaria de viver uma vida longa. A longevidade tem o seu lugar. Mas não me preocupo com isso agora. Apenas desejo obedecer aos desígnios de Deus. E Ele me levou ao topo da montanha, olhei ao redor e contemplei a Terra Prometida. Posso não alcançá-la, mas quero que saibam, que nós, como povo, chegaremos à Terra Prometida. Estou tão feliz; não me preocupo com nada; não temo homem algum. Meus olhos viram a glória da presença do Senhor.”[30]

Sua morte gerou uma onda de protestos em 100 cidades dos Estados Unidos.

Considerado um mártir moderno, a estátua de Martin Luther King foi colocada na Abadia de Westminster, Inglaterra, ao lado de outros ícones como Dietrich Bonhoeffer.

Controvérsias na vida pessoal: herói ou santo?

É sabido que desde que King ganhou notoriedade como um dos principais líderes dos direitos civis, J. Edgar Hoover, forte opositor do movimento e diretor do FBI, providenciou que os quartos de hotéis onde King se hospedava fossem grampeados a fim de buscar evidências que pudessem descredibilizar o caráter de King e, consequentemente, provocar uma implosão no movimento dos direitos civis. J. Edgar Hoover chegou a fazer um trabalho de contrainteligência, forjando uma carta destinada a King na qual se fazia passar por um ativista negro que ameaçava revelar ao público seus “escândalos sexuais”, incitando-o ao suicídio. Essa carta foi acompanhada de uma fita que continha gravações telefônicas de suas conversas em casa e em hotéis. Um trecho da carta diz:

“Ouça, repugnante animal antinatural. Todos os seus atos adúlteros, suas orgias sexuais, foram registrados. Isso é apenas uma pequena amostra. […] Só há uma coisa que você pode fazer. Você sabe o que é. […] Está acabado. Só há uma saída para você. É melhor que opte por ela [suicídio] antes que você, seu ser imundo e um antinatural fraudulento, seja exposto à nação.”

Carta fabricada pelo FBI incitando Martin Luther King ao suicídio.

Mesmo sendo um árduo defensor da não violência, Martin Luther King foi mais grampeado pelo FBI do que Malcolm X (que não endossava a filosofia da não violência de King). Isso se deu porque o FBI acreditava que King constituía uma grande ameaça aos Estados Unidos. William C. Sullivan, braço direito de J. Edgar Hoover no FBI na época, chegou a dizer que King “era o homem mais perigoso da América. Temos que usar todos os nossos recursos para destruí-lo.”[31] Foi assim que o FBI obteve diversas gravações de conversas privadas mantidas por King em hotéis. Afirma-se que há nessas gravações evidências de que o líder dos direitos civis mantinha relações extraconjugais. Como essas gravações estão sob sigilo — o período de término do sigilo se dará em 2027, quando então as gravações serão disponibilizadas ao público —, não se pode com certeza determinar a infidelidade conjugal de King. No entanto, apesar do trabalho sujo do FBI, parece haver de fato vários indícios fortes de que o famoso líder dos direitos civis não era um santo. Ralph Abernathy, por exemplo, amigo próximo de King, fez declarações comprometedoras em sua autobiografia publicada em 1989, intitulada “And the Walls Came Tumbling Down”. No livro, Ralph afirma que King envolveu-se em casos extraconjugais até mesmo na noite de seu assassinato.

Coretta Scott King, esposa de Martin, por sua vez, apresentou uma resposta às acusações de infidelidade conjugal em sua autobiografia publicada em 2017, intitulada “Coretta: My Life, My Love, My Legacy”. Coretta não acreditava na infidelidade conjugal de seu marido, apesar das alegações do FBI e das declarações de Ralph Abernathy. Ela diz:

“A pergunta que todos querem saber é: eu acredito que meu marido foi infiel? Tudo que posso falar é o que eu sei. Eu não tenho nenhuma evidência, e nunca tive a sensação de que ele havia se desviado. Nunca experimentei nenhum sentimento de ser rejeitada. […] Não estou dizendo que Martin era um santo. Nunca disse que ele era perfeito. Ninguém é perfeito. Mas, para mim, nosso casamento foi um casamento muito bom, e foi assim até o fim. […] Aqueles que realmente conheciam Martin sabiam que ele tinha um complexo de culpa. Se ele fizesse algo errado, ele se sentia compelido a confessar e se arrepender. Muitas vezes eu era aquela a quem ele confessava seus erros pessoais. Esta é uma das principais razões pelas quais não acredito que nenhuma relação extraconjugal tenha ocorrido. Tudo o que existe sobre meu marido é insinuação e boato. Ninguém jamais foi capaz de provar nada.”[32]

“Eu sabia que Ralph havia enfrentado dificuldades financeiras. Escândalo vende livros; a fidelidade não. Más notícias sobre o comportamento desagradável de um bom homem fazem as páginas virarem melhor do que qualquer coisa que eu tenha a dizer sobre meu marido […]. Como sua esposa, eu o conheço. Se Martin tivesse um caso, eu saberia”.[33]

As palavras de Coretta merecem muita consideração. No entanto, por mais frustrante e desanimador que possa ser uma eventual confirmação de que o ícone da justiça e da igualdade tenha de fato sido infiel em seu casamento, isso certamente não deverá desmerecer todas as suas lutas e conquistas. É possível separar o herói do santo.

Além disso, se aplicarmos os mesmos critérios a todos os gigantes, quem subsistirá? Na Bíblia, Davi adulterou e assassinou. Martinho Lutero fez declarações antissemitas e também ridicularizou Copérnico por suas descobertas heliocêntricas. João Calvino acreditava que os hereges deviam ser punidos com a morte. Já em termos de posicionamentos teológicos, Dietrich Bonhoeffer, Karl Barth, C. S. Lewis, N. T. Wright e outros tantos, são conhecidos por ideias bastante questionáveis em algumas ocasiões. Contudo, mesmo diante das imperfeições morais e da teologia questionável desses homens (certamente existem outros exemplos), é inegável que fizeram contribuições grandiosas à fé cristã. Nem os gigantes estão isentos da imperfeição e do pecado, mas penso que, desprezar o valor e o trabalho de gigantes com base em seus erros é uma visão muito simplista e empobrecedora. Deus usa os homens apesar dos homens.

“Em última análise, Deus não nos julga por incidentes ou erros isolados que possamos cometer, mas pela propensão geral de nossas vidas. Em última análise, Deus sabe que seus filhos são fracos e frágeis. Em última análise, o que Deus exige é que nosso coração esteja certo. Salvação não é alcançar o destino da moralidade absoluta, mas estar no processo e caminho certos. […] Não sei sobre vocês, mas posso dar meu testemunho. Vocês não precisam sair dizendo que Martin Luther King é um santo. Ah, não. Quero que vocês saibam esta manhã que sou um pecador da mesma forma que todos os filhos de Deus. Mas quero ser um bom homem. E quero um dia ouvir uma voz me dizer: ‘Eu o aceito e abençoo porque você tentou. Que bom que isso estivesse no seu coração’.”[34] — Martin Luther King

Por que Martin Luther King é importante hoje?

Martin Luther King definitivamente não é uma figura que pode ser simplesmente ignorada. Seu brilhantismo intelectual, sua coragem e suas conquistas são muito grandes para que ele passe despercebido em nossos estudos sobre racismo, justiça, política e desigualdade social — temas perenes que frequentemente são motivo de inquietação e efervescência social. Por isso, nada mais importante do que trazer Martin Luther King ao debate.

Esperança negra à luz da Bíblia

Martin Luther King basicamente fundamentou sua luta contra a segregação racial na doutrina da imago Dei, nos profetas do Antigo Testamento e no Deus que libertou seu povo da escravidão do Egito, levando-o à Terra Prometida. Com isso, podemos aprender que os textos bíblicos, embora devam ser lidos em seu devido contexto, nos oferecem aplicações diversas, às mais variadas necessidades humanas. Comentando sobre aquilo que eu chamaria de hermenêutica da empatia, Timothy Keller diz:

“Quando fui diagnosticado com câncer e minha vida foi ameaçada por isso, comecei a ver coisas em passagens bíblicas familiares que antes eu havia ignorado. Por quê? Porque a Bíblia somente responde às perguntas que fazemos a ela, e um homem com câncer faz a uma passagem bíblica perguntas diferentes das de um homem sem câncer. Neste quesito, os cristãos não brancos nos Estados Unidos têm, de muitas maneiras, uma experiência de vida totalmente diferente e, por isso, podem mostrar aos cristãos brancos coisas da Bíblia que eles perderam de vista. Se você é branco, como pode começar a fazer isso? Primeiro, aproxime-se de líderes cristãos de cor em sua denominação e também em sua cidade. Em segundo lugar, leia os livros e obras de líderes cristãos de cor. Cristãos brancos geralmente não sabem por onde começar, mas se você se aproximou de sua denominação e de sua cidade, seus novos amigos e colegas podem lhe fornecer as fontes. Minha seleta lista de pessoas que me ajudaram (quando eu era jovem) é composta por Martin Luther King Jr., John Perkins e Carl Ellis. Justo Gonzalez, Esau McCaulley e Anthony Bradley são alguns nomes relevantes mais atuais.”[35]

Assim, diferentemente dos antigos senhores de escravos e segregacionistas que faziam interpretações racistas da Bíblia (e, portanto, heterodoxas), King nos mostra que uma leitura ortodoxa das Escrituras oferece grande esperança aos negros.

Tumultos sociais e protestos

Sendo um defensor da não violência, King sempre condenou atos de violência em protestos. Na campanha de Selma, chegou a dizer: “Como um líder não violento, eu não podia defender a ruptura de uma barreira humana formada por policiais.”[36] Do mesmo modo, em 16 de junho de 1966, Stokely Carmichael, também ativista dos direitos civis, desencadeou uma controvérsia com King ao utilizar o slogan “Poder Negro” (“Black Power”). King notou que havia um ressentimento profundo por trás do slogan e, acreditando que o significado semântico das palavras implicaria em um supremacismo negro, exortou Carmichael e seus seguidores a abandonarem o lema. Entretanto, ao mesmo tempo em que veementemente rejeitou o slogan “Poder Negro” e condenou atos de violência, King também foi empático o bastante para compreender as razões por trás do ressentimento e da violência:

“Acho que os Estados Unidos devem ver que os tumultos não se desenvolvem do nada. Certas condições continuam a existir em nossa sociedade que devem ser condenadas com tanto vigor quanto condenamos os tumultos. Na análise final, um tumulto é a linguagem daquele que não é ouvido. E o que é que os Estados Unidos não conseguiram ouvir? Não conseguiram ouvir que a situação dos pobres negros piorou nos últimos anos. Não conseguiu ouvir que as promessas de liberdade e justiça não foram cumpridas. E falhou ao ouvir que grandes segmentos da sociedade branca estão mais preocupados com tranquilidade e status quo do que com justiça, igualdade e humanidade. E, assim, em um sentido real, os verões de tumultos de nossa nação são causados ​​pelos invernos de atraso de nossa nação. E enquanto os Estados Unidos adiam a justiça, estamos na posição de ter essas recorrências de violência e tumultos repetidas vezes. Justiça social e progresso são os garantidores absolutos da prevenção de tumultos.”[37]

No tópico acerca de tumultos sociais e protestos, King nos proporciona o importante equilíbrio entre a condenação de atos violentos e a empatia necessária para compreendermos o ressentimento e o rancor que provocam a violência por parte de nosso próximo para que, quando necessário, remediemos isso por meio da prática da justiça.

Política

Em uma época de polarizações políticas, King constitui um bom modelo de prudência, já que não se associava a partidos políticos e criticava tanto democratas quanto republicanos (isto é, esquerda e direita, comunismo e capitalismo). King não era um anarquista, mas também não era um conformista do status quo. Curiosamente, na época em que liderava o movimento dos direitos civis e lutava contra o status quo do racismo sustentado por “conservadores” brancos, King era facilmente acusado de ser progressista e marxista. Por outro lado, ao defender o uso da não violência, poderia hoje ser facilmente criticado por grupos identitários progressistas que se valem da força como meio revolucionário.

A lição que podemos aprender com Martin Luther King é que a manutenção do status quo a qualquer custo (e muitas vezes defendida por conservadores), não é necessariamente algo bom. Por vezes, a mudança e o progresso são necessários, e o conservadorismo genuíno não deve ter o medo como principal obstáculo para mudanças que sejam realmente importantes. Podemos aprender também que o progresso cego é perigoso. O progresso não deve ser imposto pelas vias do rancor e do ressentimento, mas deve ser conquistado pela via do autossacrifício e do amor ao inimigo. King nos ensina a humildade necessária para aprendermos que verdades podem ser encontradas em ambos os lados do espectro político e que os seres humanos são muito mais complexos para serem reduzidos simplesmente à categoria dual conservador/progressista. Como disse G. K. Chesterton (autor lido por Martin Luther King):

“Todo o mundo moderno se dividiu em conservadores e progressistas. O negócio dos progressistas é seguir cometendo erros. O dos conservadores é evitar que os erros sejam corrigidos. Mesmo quando o próprio revolucionário possa se arrepender de sua revolução, o tradicionalista já está defendendo-a como parte da sua tradição. Assim, nós temos dois grandes tipos: a pessoa avançada que nos empurra para a ruína e a pessoa retrospectiva que admira as ruínas. Ela as admira especialmente à luz da lua, para não dizer moonshine (pinga). Cada novo erro do progressista ou do arrogante se torna instantaneamente uma lenda ou antiguidade imemorial para o esnobe. Isso é chamado de equilíbrio, ou contrapesos mútuos, em nossa Constituição.”[38]

Por essas razões, Martin Luther King se apresenta como um bom remédio às nossas discussões políticas.

Ministério profético

Por fim, Martin Luther King nos lembra de nosso ministério profético como cristãos diante das injustiças. Quando olhamos para o Antigo Testamento e olhamos para os feitos dos profetas, vemos que se trata de um ministério solitário e impopular. Profetas desafiam o rei, não são bajuladores políticos, agem em favor da justiça e são porta-vozes de Deus. Contudo, verdadeiros profetas de Deus não são justiceiros sociais arrogantes sem temor a Deus que atropelam tudo e todos. Ao se ter contato com a vida e trajetória de Martin Luther King, acredito que dois sentimentos podem brotar em nós: uma indignação justa por tudo quanto os negros sofreram no passado (e ainda sofrem hoje) ou um ressentimento nocivo alimentado pela justiça própria contra todos os segregacionistas. Podemos e devemos condenar o racismo com a veemência necessária, mas não precisamos ser arrogantes justiceiros sociais. Afinal de contas, devemos ter a humildade de nos perguntar: o que nos garante que realmente estaríamos ao lado de Martin Luther King se vivêssemos naquela época? O que nos garante que não seríamos mais um racista? Ou então, o que nos garante que não seríamos mais um dos moderados que se silenciavam diante do mal e que o Dr. King tanto criticou? Simplesmente não temos como saber a resposta a essas perguntas. Nossa época é muito mais desperta e intencional em relação ao ensino de questões raciais, mas não era assim no contexto dos anos 1950 e 1960 nos Estados Unidos.

Martin Luther King (1929-1968). Wikimedia Commons.

Desse modo, um ministério profético é importante. Como cristãos que devem ser sal e luz, precisamos denunciar o mal aonde quer que ele esteja. Todavia, um ministério profético genuíno é, antes de tudo, um ministério de humildade e temor a Deus. E podemos aprender muita coisa com Martin Luther King a respeito disso.

Filmes e documentários

 Se você deseja aprender mais sobre Martin Luther King e a história dos direitos civis, aqui está uma lista de alguns ótimos filmes e documentários:

  • Gandhi (filme, 1982)
  • Mississippi em chamas (filme, 1988)
  • Malcolm X (filme, 1992)
  • 4 meninas: uma história real (documentário, 1997)
  • Boicote (filme, 2001)
  • J. Edgar (filme, 2011)
  • O mordomo da Casa Branca (filme, 2013)
  • Selma (filme, 2014)
  • Até o fim (filme, 2016)
  • Detroit em rebelião (filme, 2017)
  • King no deserto (documentário, 2018)

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[1] As leis Jim Crow eram leis que estabeleciam a segregação racial entre negros e brancos no sul dos Estados Unidos. Foram aplicadas entre 1877 e 1964.

[2] Cf. Clayborne Carson (org.), A autobiografia de Martin Luther King, Ed. Zahar, Rio de Janeiro, 2014, p. 40. Tradução: Carlos Alberto Medeiros.

[3] Ibidem, p. 42.

[4] Ibidem, p. 88-89.

[5] Ibidem, p. 374.

[6] Ibidem, p. 32.

[7] Ibidem, p. 421. Trecho do sermão intitulado “Unfulfilled Dreams” pregado na Igreja Batista Ebenezer em 3 de março de 1968, um mês antes de sua morte. Para conferir a pregação na íntegra, acesse: https://kinginstitute.stanford.edu/king-papers/publications/knock-midnight-inspiration-great-sermons-reverend-martin-luther-king-jr-9

[8] Ibidem, p. 34-35.

[9] Ibidem, p. 37. Confira o discurso na íntegra: https://kinginstitute.stanford.edu/king-papers/documents/where-do-we-go-here-address-delivered-eleventh-annual-sclc-convention

[10] Mika Edmondson, Is Black Lives Matter the New Civil Rights Movement?. The Gospel Coalition: https://www.thegospelcoalition.org/podcasts/tgc-podcast/is-black-lives-matter-the-new-civil-rights-movement/

[11] Albert Mohler, Ugly, Stain, Beautiful Hope: My Response to Mika Edmondson. The Gospel Coalition: https://www.thegospelcoalition.org/article/ugly-stain-beautiful-hope-response-mika-edmondson/

[12] Martin Luther King destaca a importância de três cidades (Montgomery, Birmingham e Selma), mas incluí Washington D.C. dada a relevância da Marcha por Trabalho e Liberdade e de seu famoso discurso “Eu tenho um sonho”, em 28 de agosto de 1963. De qualquer maneira, ele disse: “Cidades que foram cidadelas do status quo tornaram-se, contra a sua vontade, os locais de nascimento de uma importante lei federal. Montgomery levou às Leis dos Direitos Civis de 1957 e 1960; Birmingham inspirou a Lei dos Direitos Civis de 1964; e Selma produziu a Lei do Direito de Voto de 1965” (Clayborne Carson [org.], A autobiografia de Martin Luther King, Ed. Zahar, Rio de Janeiro, 2014, p. 342. Tradução: Carlos Alberto Medeiros).

[13] Para conferir o discurso na íntegra, acesse: https://www.blackpast.org/african-american-history/1955-martin-luther-king-jr-montgomery-bus-boycott/

[14] Ibidem, p. 79.

[15] Ibidem, p. 210.

[16] Sit-ins (ou protestos sentados) eram protestos não violentos em que os negros se dirigiam até locais estratégicos, como lanchonetes e vias públicas, e permaneciam sentados até serem retirados à força. Frequentemente eram agredidos.

[17] Para ler a carta na íntegra, acesse: http://www.reparacao.salvador.ba.gov.br/index.php/noticias/822-sp-1745380961

[18] É muito curioso notar que, embora o Dr. King fosse acusado de ser um forasteiro agitador que promovia a desobediência civil por onde passava, os desobedientes civis eram, na verdade, os governantes brancos dos estados do Sul que se recusavam a reconhecer a decisão de 1954 da Suprema Corte que entendeu ser inconstitucional a segregação racial em escolas públicas. Como o próprio King destaca em sua Carta de uma prisão em Birmingham, “É por isso que posso exortar os homens a obedecer à decisão da Suprema Corte de 1954, por ser moralmente correta, e ao mesmo tempo incitá-los a desobedecer às posturas segregacionistas, por serem moralmente ilegítimas” (Ibidem, p. 234).

[19] Ibidem, p. 228.

[20] Infelizmente Birmingham não deixou de ser uma cidade segregada depois desse episódio. Ainda havia violência e resistência. Quatro meses depois, no dia 18 de setembro de 1963, supremacistas brancos da Klu Klux Klan plantaram várias dinamites na Igreja Batista da Rua 16 (uma igreja de negros), matando quatro garotinhas. Para saber mais sobre essa história, acesse: https://tuporem.org.br/o-dia-em-que-a-intolerancia-roubou-as-vidas-de-quatro-garotinhas-negras/

[21] Confira o discurso na íntegra: https://kinginstitute.stanford.edu/king-papers/documents/address-freedom-rally-cobo-hall

[22] Essa marcha aconteceu devido a um convite que Martin Luther King recebeu do reverendo C. L. Franklin, um dos principais ativistas dos direitos civis em Detroit e pai da cantora Aretha Franklin. A marcha aconteceu no dia 23 de junho de 1963 (cf. Um apelo à consciência: os melhores discursos de Martin Luther King, Ed. Zahar, Rio de Janeiro, 2006, p. 57. Tradução: Sérgio Lopes).

[23] Há uma história interessante que diz que Martin Luther King usou a expressão “Eu tenho um sonho” em seu discurso após o incentivo da cantora Mahalia Jackson, que se encontrava próxima a King no momento do discurso. Segundo essa história, assim que King começou a discursar, Mahalia, que já ouvira King usar a expressão “Eu tenho um sonho” antes, teria dito: “Conte a eles sobre o seu sonho, Martin! Conte a eles sobre o sonho!”. Para saber sobre essa história, acesse: https://tuporem.org.br/jazz-e-o-sonho-de-martin-luther-king-jr/

[24] Um apelo à consciência: os melhores discursos de Martin Luther King, Ed. Zahar, Rio de Janeiro, 2006, p. 75. Tradução: Sérgio Lopes.

[25] Clayborne Carson (org.), A autobiografia de Martin Luther King, Ed. Zahar, Rio de Janeiro, 2014, p. 334. Tradução: Carlos Alberto Medeiros.

[26] Um apelo à consciência: os melhores discursos de Martin Luther King, Ed. Zahar, Rio de Janeiro, 2006, p. 108. Tradução: Sérgio Lopes. Para conferir o discurso na íntegra, acesse: https://kinginstitute.stanford.edu/our-god-marching

[27] Clayborne Carson (org.), A autobiografia de Martin Luther King, Ed. Zahar, Rio de Janeiro, 2014, p. 311. Tradução: Carlos Alberto Medeiros.

[28] Ibidem, p. 397-398. Discurso proferido na Igreja Riverside, em Nova York, em 4 de abril de 1967. Para conferir o discurso na íntegra, acesse: https://kinginstitute.stanford.edu/king-papers/documents/beyond-vietnam

[29] Ibidem, p. 129. Discurso proferido na Igreja Riverside, em Nova York, em 4 de abril de 1967. Para conferir o discurso na íntegra, acesse: https://kinginstitute.stanford.edu/king-papers/documents/beyond-vietnam

[30] Um apelo à consciência: os melhores discursos de Martin Luther King, Ed. Zahar, Rio de Janeiro, 2006, p. 171. Tradução: Sérgio Lopes. Para conferir o discurso na íntegra, acesse: https://kinginstitute.stanford.edu/king-papers/documents/ive-been-mountaintop-address-delivered-bishop-charles-mason-temple

[31] Fonte: https://brasil.elpais.com/cultura/2020-09-17/martin-luther-king-um-lider-moral-ou-um-adultero-mentiroso.html

[32] Coretta Scott King; Reynolds, Rev. Dr. Barbara. Coretta: My Life, My Love, My Legacy, p. 129, 130. Hodder & Stoughton. Edição do Kindle. Tradução nossa.

[33] Ibidem, p. 259. Tradução nossa.

[34] Clayborne Carson (org.), A autobiografia de Martin Luther King, Ed. Zahar, Rio de Janeiro, 2014, p. 421, 422. Tradução: Carlos Alberto Medeiros. Trecho do sermão intitulado “Unfulfilled Dreams” pregado na Igreja Batista Ebenezer em 3 de março de 1968, um mês antes de sua morte. Para conferir a pregação na íntegra, acesse: https://kinginstitute.stanford.edu/king-papers/publications/knock-midnight-inspiration-great-sermons-reverend-martin-luther-king-jr-9

[35] Timothy Keller, Racismo e justiça à luz da Bíblia. Ed. Vida Nova, São Paulo: 2020, p. 106-107. Tradução: Jonathan Silveira. É possível baixar gratuitamente o e-book no link: http://bit.ly/34XkbpR

[36] Clayborne Carson (org.), A autobiografia de Martin Luther King, Ed. Zahar, Rio de Janeiro, 2014, p. 333-334. Tradução: Carlos Alberto Medeiros.

[37] Trecho do discurso intitulado “The Other America”, proferido na Stanford University. Tradução nossa. Para conferir o discurso na íntegra, acesse: https://www.crmvet.org/docs/otheram.htm

[38] G. K. Chesterton, The Collected Works of G. K. Chesterton, vol. 33, p. 313, Ignatius Press, 1990. Tradução nossa.

Jonathan Silveira é graduado em Direito pela Universidade São Francisco e mestre em Teologia pelo programa Master of Divinity da Escola de Pastores da Primeira Igreja Batista de Atibaia. É casado com Carrie, membro na Igreja Batista da Palavra, em São Paulo, trabalha na área de produção editorial e marketing em Edições Vida Nova e é fundador e editor do site Tuporém.

2 Comentários

  1. Pesquisa não só bem alicerçada em robusta bibliografia mas, sobretudo, traça um fio condutor que atinge seu clímax na ética social de JESUS e, por conseguinte, desperta um saudável desejo de retorno ao Evangelho da cruz de Cristo. Justamente o que a sociedade precisa hoje.

  2. José Edson Soares disse:

    Excelente texto! Retrata muito bem aspectos importantes da vida e carreira de Luther King.

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