Valores transcendentais em Vingadores: Ultimato | Luiz Adriano Borges

Atenção: spoilers

“Vingadores: Ultimato” está aí para provar que valores tão sagrados como liberdade, sacrifício pelo outro, virtude, amor e família ainda são extremamente preciosos para as pessoas. A ponto de muitos aplaudirem e se emocionarem quando momentos-chaves acontecem no filme. Estes momentos mexem com algo profundo em nós, nos fazendo refletir sobre o que é mais valioso em nossas vidas, o que mais prezamos. Talvez por isso que os filmes do Universo Cinematográfico Marvel fazem tanto sucesso frente a outras incursões nas telas: a despeito de discursos pós-modernistas, de valorização de questões identitárias, de relativismos, lá no fundo sabemos o que dá sentido à vida nesta terra.

Observe o desenvolvimento de três principais personagens da chamada Saga do Infinito, Homem de Ferro, Capitão América e Thanos.

Na evolução do caráter de Tony Stark, o Homem de Ferro, vemos um sujeito egoísta e hedonista, preocupado somente com os prazeres que o dinheiro pode trazer e sem pensar nas implicações de suas ações. Mesmo quando ele percebe o que a suas invenções causam (como visto no primeiro filme do Homem de Ferro), ainda assim, resquícios de um utilitarismo, de busca por um bem maior para a maior quantidade de pessoas, permanecem. É o que vemos em “Vingadores: a Era de Ultron”. Tony acredita que usar inteligência artificial irá eventualmente levar à uma grande quantidade de bondade e alegria para um maior número de pessoas. Ele está tão focado em essa ser a escolha moral certa que ele ignora os outros Vingadores e desenvolve a tecnologia em segredo, o que acaba culminando em Ultron, um inimigo ajustado para destruir a raça humana. Para Tony naquele momento, os fins justificam os meios.

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Essas ações levam à Guerra Civil entre os heróis e, do lado oposto ao do Homem de Ferro, temos o Capitão América defendendo deveres morais: o que importa é o que é o certo. Qualquer ação que possa colocar em risco a liberdade humana deve ser restringida, mesmo que ela sirva a uma noção de pretensa melhoria para o maior número de pessoas. Não há negociação quando se refere à liberdade humana (escrevi mais sobre isso aqui).

Assim, o que vemos em “Vingadores: Ultimato” é um Homem de Ferro que abandona o velho utilitarismo e egoísmo e se sacrifica pelo bem de todos. Apesar de ter construído uma família em meio ao caos pós “Vingadores: Guerra Infinita”, ele coloca a vida dos outros acima da sua. Que redenção para o herói!

Já Steve Rogers, o Capitão América, desde o início (em “Capitão América: O primeiro vingador”) se coloca como o ponto de referência moral dos Vingadores. A ética do dever, do que é o certo a fazer, assume um ponto na evolução da figura do Capitão América: não é somente o dever, agora trata-se da virtude. Não é somente “não fazer tal coisa”, mas é saber qual opção é a melhor eticamente. Eu posso fazer o que é certo em minha cultura, mas isso não quer dizer que ela é realmente a opção transcendental correta. Quando felicidade, bem-estar e sucesso estão em acordo, em harmonia, sabemos que agimos com virtude. É por isso que ele é digno de levantar o martelo Mjolnir.

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Mesmo extremamente otimista, ele sente que algo precisa ser feito para desfazer o que Thanos fez, principalmente após o encontro com Natasha, a Viúva Negra, e o aparecimento do Homem Formiga, outro herói cuja vida familiar é bastante valorizada.

E quando o Capitão consegue reverter tudo com ajuda de tantos sacrifícios, como a do Homem de Ferro e a da Viúva Negra, ele decide ficar no passado e envelhecer ao lado do grande amor de sua vida, Peggy Carter.

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O tema que circunda todo o filme é a relação com a família. Mesmo a Viúva Negra, cujo passado é (ainda) pouco explorado nos filmes, vemos um crescimento no relacionamento fraternal com o Gavião Arqueiro. Ela considera os Vingadores como sua família e é primeiramente pelo retorno dos amigos desaparecidos no estalar de dedos de Thanos que ela se sacrifica. Também fica claro na história de Thor a importância que ele dava para sua mãe em um reencontro emocionante.

Os heróis da Marvel são o oposto do ubermensch (super-homem) nietzscheniano; para Nietzsche esses heróis seriam considerados fracos, porque são compassivos, justos e altruístas. O verdadeiro super-homem está além do bem e do mal. Talvez Thanos se encaixe bem na noção desse filósofo.

A figura imponente de Thanos desde sua primeira aparição no Universo Cinematográfico Marvel causou apreensões (ele aparece nos créditos do primeiro filme dos Vingadores de 2012).  Esse tirano genocida tem a intenção de criar um equilíbrio no mundo ao se apossar das joias do infinito. Em “Ultimato” ele dá um upgrade nessa ideia após os incansáveis heróis da terra lhe causarem inúmeros problemas: ele vai destruir esse universo e criar um mundo de seres totalmente obedientes, ignorantes do que ocorreu; seres sem livre-arbítrio. Para ele esse seria o universo ideal.

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Aqui, temos a concepção tão comum nos mitos de criação pagãos: os deuses só criaram os homens para lhes servirem. Não lhes dá opção. O Deus dos cristãos é um Deus que criou esse mundo e dotou os seres humanos com habilidade de escolha; não criou robôs, criou seres para se relacionarem com Ele. O universo que Thanos quer é um universo escuro, egoísta, em que o sacrifício dos outros garante a estabilidade; o universo que os Vingadores defendem é um universo com amor sacrificial, onde todos possam conviver em paz nem que seja através do autossacrifício.

Este filme não foi somente mais um filme, foi uma peça cultural fortíssima em defesa de valores que nós cristãos defendemos há séculos. Estes valores não são novidade, mas a linguagem popular nerd chega aonde muitas vezes não temos conseguido chegar. A “Saga do Infinito” tem o seu fim em um momento em que valores tão caros ao cristianismo têm sido atacados: o ideal de família tem sido esfacelado, o amor se transforma em hedonismo e utilitarismo e o autossacrifício em benefício do próximo não é mais valorizado. Pode-se dizer que certas religiões pregam o sacrifício para o bem maior, como é o caso de terroristas islâmicos, mas estes parecem defender um universo utilitarista ao modo Thanos. Vive-se em um tempo niilista, onde não há mais pelo que lutar, já que nada mais faz sentido. O desespero é visto nos índices alarmantes de suicídio entre jovens.

Em meio a tudo isso, a saga do infinito fecha um ciclo do Universo Marvel que cultivou valores transcendentais. E, lá no fundo, é exatamente esses que importam.

Claro que não se trata de um filme cristão, mas a graça comum nos faz encontrar referências à verdade até na boca de não religiosos. Até as pedras clamarão.

Que ótima oportunidade para nos engajarmos no evangelismo cultural.

Luiz Adriano Borges é professor de história na UTFPR-Toledo, lecionando sobre história da técnica, tecnologia e sociedade, filosofia, sociedade e política. Sua área de pesquisa centra-se na História e Filosofia da Tecnologia e da Ciência. Seus projetos mais recentes são: “A visão cristã da tecnologia” e “Esperança em Tempos de guerra. Ciência, tecnologia e sociedade em Tolkien, Huxley, Lewis e Orwell (1892-1973)".

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