(V)erdade, (v)erdade, (v)erdade(s) | Lucas Freitas

"O que é a verdade?" - Jesus diante de Pilatos (Nikolai Ge, 1890)

Se perguntarmos para pastores e líderes cristãos qual o problema mais sério dos dias atuais, creio que uma vasta maioria dirá ser o relativismo moral. Se os respondentes não forem cristãos – ou até mesmo em uma visão mais popular do cristianismo –, os resultados serão opostos: o que é verdade para mim pode não ser verdade para você; a vida é assim e tudo bem. A estatística é inventada, mas o cenário é plausível, e o relativismo moral parece ser a escola ética mais influente dos nossos dias.

Relativismo não teria se tornado tão presente caso não tivesse um ponto de ressonância com nossa humanidade. Alguns podem até dizer que o relativismo fala exclusivamente ao pecado que habita em nós, mas uma visão tão negativa, além de provavelmente equivocada, dificilmente aponta para uma saída. Aqui, a clássica prática cristã de afirmar que toda a verdade é proveniente de Deus parece ser um caminho mais produtivo.

Neste contexto, revisitar os termos e clarificar o que se quer dizer com determinadas palavras pode ajudar a desembaraçar as ideias. No caso do relativismo, um termo chave é a palavra verdade. “Mas o que é a verdade?”, já disse Pilatos, demonstrando que a dúvida não é exatamente moderna (João 18:38). De fato, “verdade” é um termo bastante abrangente, e há benefícios em fazer alguma distinção entre o que queremos dizer quando usamos esta palavra em diferentes contextos.

É claro que simplesmente definir os termos não é suficiente. Não podemos tratar as palavras como se elas tivessem um poder absoluto sobre a realidade, como se fosse possível desaparecer com os problemas dizendo “abracadabra”. Portanto, em um segundo texto será necessário cavar mais fundo. No entanto, para atacar a raiz do problema precisamos empunhar uma definição mais afiada de “verdade”.

Três tipos de verdade

A meu ver, podemos dividir “verdade” em três categorias. A (v)erdade, singular e com “v” minúsculo, são as verdades terrenas, relativas ao mundo criado. As (v)erdade(s), plural e com “v” minúsculo, têm a ver com nossa experiência do mundo. E a (V)erdade, singular e com “V” maiúsculo, refere-se àquilo que é eterno e imutável.

Nestes termos, é possível dizer que a (v)erdade, “v” minúsculo, é o escopo principal das ciências. Ao descrever e medir o mundo, a ciência é plenamente capaz de fazer afirmações verdadeiras. As chamadas ciências duras – física, química, etc. – têm alguma vantagem sobre as ciências humanas neste âmbito porque é mais simples concordar a respeito da matemática por trás de uma conclusão científica do que chegar a um consenso a respeito das experiências chave por trás de um determinado fenômeno humano. Ainda assim, ciências como a história, a sociologia, a economia, entre outras, são capazes de descobrir e afirmar coisas que são demonstradamente (v)erdade a nosso respeito. Portanto, e como testemunhado pelo desenvolvimento tecnológico e social dos últimos séculos, podemos confiar nas ciências – duras ou humanas – como fonte de (v)erdade a respeito do mundo criado.[1]

As (v)erdade(s), minúscula e plural, por outro lado, referem-se a nossa experiência individual no mundo. Salvo alucinações ou as experiências daqueles que são clinicamente loucos, a grande maioria de nós pode afirmar sem muita dúvida que nossas experiências do mundo são reais e verdadeiras. As imagens que vimos, as emoções que sentimos, os cheiros, sabores, sons, e tudo o mais que trazemos na memória[2] são (v)erdade(s) para cada um de nós e afetam a forma como vemos o mundo ao nosso redor. Não há motivos para descartar estas (v)erdade(s) apenas porque referem-se primariamente às nossas experiências individuais, e tais experiências seguem sendo verdadeiras mesmo que não possuam aplicabilidade universal.[3]

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Finalmente, (V)erdade, singular e com “V” maiúsculo, diz respeito àquilo que é eterno e imutável. É a (V)erdade de referência, que age como régua de medir. Embora esta categoria tenha caído em descrédito nos últimos dois ou três séculos, este é um conceito bastante forte e antigo, com raízes religiosas e filosóficas tão profundas quanto a filosofia grega e a teologia judaica.[4] Por mais antagônicas que Atenas e Jerusalém sejam, a grande diferença entre os nossos dias e os tempos de Moisés e Platão não é que deixamos de acreditar nessa (V)erdade absoluta, mas que elevamos a (v)erdade científica e/ou as (v)erdade(s) individuais ao mesmo patamar dessa (V)erdade singular e maiúscula.

Fazer esta distinção entre os “tipos” de verdade – por assim dizer – ajuda a esclarecer um pouco a conversa na medida em que percebemos que a briga pode estar na forma como nos referimos ao assunto. Também ajuda a trazer à tona qual é, afinal, o motivo da briga: o relacionamento entre a (V)erdade, a (v)erdade, e as (v)erdade(s). A chave da discussão está, portanto, em estabelecer critérios para o relacionamento entre os três tipos de verdade.

Mas isto fica para o próximo texto. Por hora basta afirmar corajosamente, e junto com a igreja de Cristo ao longo dos séculos: toda verdade é verdade de Deus.[5]

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[1] Poderíamos acrescentar que há boas evidências para acreditar que a ciência moderna surgiu apenas depois que a visão cosmológica bíblica, que afirma o mundo criado como “muito bom”, suplantou a ideia grega de que a matéria e o cosmo são absolutamente corruptos.

[2] Para simplificar um pouco, vamos assumir que nossas memórias são confiáveis e relativamente completas.

[3] Vamos deixar de lado, por hora, a questão da interpretação que damos a estas experiências, mas vale adiantar que esta é uma questão fundamental quando nos referimos à(s) (v)erdade(s).

[4] A diferença fundamental entre a filosofia grega e a teologia judaico-cristã ficará evidente quando estivermos falando sobre como relacionar os diferentes tipos de verdade entre si.

[5] O leitor atento percebeu que evitei usar a grafia que empreguei ao longo do texto – (V)erdade, (v)erdade, (v)erdade(s)

Pai e marido, Lucas Vasconcellos Freitas é Mestre em Estudos Teológicos com ênfase em Estudos Interdisciplinares pelo Regent College (Vancouver, Canadá) e em Direito pela Universidade Presbiteriana Mackenzie. É parte da equipe do Claraboia Brasileira e escreve ficção nas horas vagas.

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