Verdades centrais da fé cristã: a importância da ortodoxia e da ortopraxia | Gregg Allison

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Em seu sentido mais elementar, doutrina cristã é a crença cristã baseada na Bíblia. Como exemplo, podemos citar as crenças de que Deus é triúno (Deus é três Pessoas: Pai, Filho e Espírito Santo), Jesus é, ao mesmo tempo, totalmente Deus e totalmente homem e a salvação é pela graça divina. A sã doutrina reflete em forma resumida o que as Escrituras afirmam e aquilo em que a igreja deve crer.

Sã doutrina é o oposto de falsa doutrina, uma crença espúria que interpreta a Escritura de forma errada ou despreza algumas de suas afirmações. Exemplos desse tipo de heresia são o unitarismo (segundo o qual Deus é uma Pessoa, e não três), o arianismo (Jesus não é plenamente Deus) e o legalismo (a salvação é pelo esforço humano). A igreja deve rechaçar a heresia e corrigir seus erros.

A doutrina cristã em suas quatro aplicações

A doutrina é crida. Ortodoxia é crença correta, ou sã doutrina.

A doutrina é praticada. Ortopraxia é prática correta, ou vida santa.

A doutrina é confessada. Confissão é a declaração pública da fé cristã.

A doutrina é ensinada. Ensino (a palavra “doutrina” vem do latim docere, “ensinar”) é a transmissão fiel da crença cristã de uma geração para outra.

Assim, deve-se crer na doutrina, praticá-la, confessá-la e ensiná-la. Ela é fé cristã que envolve não apenas o intelecto, mas todo o nosso ser: mente, emoções, vontade, motivações, atitudes, intenções, comportamento, palavras e instrução.

Doutrina cristã como fé e prática

A doutrina cristã como fé e prática é importante por várias razões. A Bíblia associa a sã doutrina à maturidade cristã e às responsabilidades da liderança. Quanto ao primeiro ponto, a ideia bíblica de ter crentes maduros em igrejas maduras tem este objetivo: “para que não sejamos mais crianças, levados de lá para cá por ondas e carregados por cada vento de doutrina, pelo ardil dos homens, por sua astúcia em esquemas enganosos” (Ef 4.14). A maturidade cristã visa à adoção da sã doutrina e à rejeição de falsas doutrinas e, pelo menos em parte, é avaliada por esse critério.

Igrejas e cristãos maduros são caracterizados por boa teologia.

Quanto às responsabilidades da liderança, a Escritura descreve bons servos de Jesus Cristo como discípulos que são “treinado[s] nas palavras da fé e da boa doutrina que [têm] seguido” (1Tm 4.6). O presbítero, /pastor ou /ministro deve “apegar-se firmemente à palavra fiel tal como ensinada, para que seja capaz tanto de instruir de acordo com a doutrina quanto de convencer os que a contradizem” (Tt 1.9). Os líderes da igreja devem adotar e praticar uma doutrina sólida, além de serem capazes de refutar os que se opõem a ela.

Os líderes da igreja são caracterizados por boa teologia.

Usando um contraste negativo, podemos dizer que alguém alheio à fé cristã “ensina outra doutrina e discorda das sãs palavras de nosso Senhor Jesus Cristo e da doutrina que é de acordo com a piedade” (1Tm 6.3). Aliás, ao final de uma longa descrição de tipos ímpios — “transgressores e desobedientes, irreverentes e pecadores, ímpios e profanos […] mentirosos, perjuros” —, Paulo indica que a lista continua ao acrescentar um tipo de “etc.”: “e […] tudo o que se opõe à sã doutrina” (1Tm 1.9,10). Falsa doutrina ou heresia é o oposto de sã doutrina. Devemos rejeitar a primeira e nos agarrar à última.

Os que não pertencem à fé são caracterizados por teologia falsa.

Portanto, a doutrina cristã como fé e prática é importante.

Doutrina cristã como confissão e ensino

A doutrina cristã como confissão e ensino é importante por várias razões. As passagens bíblicas que acabamos de ler enfatizam a importância de reter com firmeza a boa teologia e transmiti-la. Em muitas ocasiões e épocas, a igreja confessou publicamente aquilo em que crê. Aqui está um trecho de um credo da igreja primitiva acerca de Jesus Cristo — uma confissão encontrada no Novo Testamento (1Tm 3.16):

Evidentemente, grande é o mistério da piedade:

Ele foi manifestado na carne,
     justificado pelo Espírito,
          contemplado por anjos,
pregado entre as nações,
     crido no mundo,
          recebido na glória.

Cada um dos credos da igreja primitiva expressava, de forma resumida, a sã doutrina que a igreja confessava. O Credo dos Apóstolos, por exemplo, afirma: “Creio em Deus Pai todo-poderoso […] e em Jesus Cristo, seu único Filho, nosso Senhor […] e no Espírito Santo”.

A igreja confessa boa teologia publicamente.

A igreja ensina sã doutrina. Desde o início, a igreja tem a tradição de transmitir sua fé — aquilo em que ela crê — a seus novos membros. Às vezes nos referimos a isso como transmitir uma tradição (lat., traditio, “entrega”). Cristãos mais velhos — particularmente os líderes cristãos — instruem os novos crentes na sã doutrina, a qual, por sua vez, eles põem em prática em sua vida, servindo de modelo. Aliás, o discípulo (lat., discipulus, “estudante”) é um estudante de boa teologia que se torna cada vez mais conforme à imagem de Jesus Cristo. Sem minimizar a importância do papel que escolas, faculdades, universidades e seminários cristãos desempenham no ensino da teologia, a igreja não deve abdicar jamais de sua posição como principal transmissora da sã doutrina.

A igreja transmite boa teologia de geração em geração.

Portanto, a doutrina cristã como confissão e ensino é importante.

Doutrina cristã como sabedoria antiga para a igreja de hoje

Há quase dois mil anos, a igreja vem construindo sã doutrina com base nas Escrituras. Como a Bíblia é a Palavra de Deus escrita e, portanto, a suprema autoridade a respeito daquilo em que a igreja deve crer e de como deve viver, ela constitui a base da boa teologia. Embora constantemente desafiada por falsas doutrinas tendo sucumbido algumas vezes à heresia, a igreja desenvolveu um consenso teológico a respeito de muitas de suas crenças. De forma bem ampla e com importantes discrepâncias em muitos detalhes, essas crenças incluem o seguinte:

  • inspiração, autoridade, veracidade, poder e centralidade da Bíblia como revelação divina;
  • existência, cognoscibilidade e natureza/atributos de Deus;
  • a Trindade (Deus como Pai, Filho e Espírito Santo);
  • criação e providência divinas;
  • realidade e operação dos seres espirituais (anjos, demônios, Satanás);
  • dignidade dos seres humanos como portadores da imagem de Deus;
  • depravação dos seres humanos como seres que caíram em pecado (incluindo o pecado original e os pecados cometidos);
  • divindade e humanidade de Jesus Cristo (incluindo seu nascimento virginal);
  • obra de salvação de Jesus Cristo (p. ex., encarnação, morte, sepultamento, ressurreição, ascensão);
  • a Pessoa e a obra do Espírito Santo;
  • aplicação da salvação (p. ex., perdão dos pecados, regeneração, justificação) como obra da graça de Deus da qual nos apropriamos pela fé;
  • a igreja como o povo de Deus, o corpo de Cristo, o templo do Espírito Santo;
  • a igreja como una, santa, católica (universal) e apostólica;
  • meios da graça (p. ex., batismo e ceia do Senhor) por intermédio da igreja;
  • escatologia pessoal: morte e estado intermediário;
  • escatologia cósmica: a volta de Cristo, a ressurreição, o juízo final e o castigo eterno;
  • novo céu e nova terra como suprema esperança.[1]
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Muitos fatores contribuem para esse extraordinário consenso teológico, e entre os mais importantes estão a Palavra de Deus, sobre a qual o consenso se fundamenta, e o Espírito de Deus, que guia a igreja à sã doutrina. Essa herança é um tesouro de sabedoria teológica que ajuda a igreja contemporânea a construir sua doutrina.

Em algumas igrejas, um lema popular é: “Nenhum credo, exceto a Bíblia”. Se esse sentimento tem o propósito de ressaltar a suprema autoridade das Escrituras, não poderia estar mais certo. Contudo, se rejeita o legado do consenso teológico apresentado acima, impede que a igreja receba a sã doutrina. Além disso, é ingênuo, já que a igreja foi e continua a ser auxiliada por fatores extrabíblicos. Por exemplo, quando a igreja afirma a doutrina da Trindade e confessa que o Filho é “da mesma essência” do Pai, está usando termos (nesses casos, a palavra latina Trinitas e a palavra grega homoousios) que não se encontram na Bíblia para expressar sua sã doutrina.

Quando a igreja crê, pratica, confessa e ensina a sã teologia, ela é auxiliada pela sabedoria teológica do passado.

Resumindo: doutrina cristã é fé cristã com base na Bíblia. À igreja cabe a responsabilidade principal de construir e transmitir boa teologia, com o auxílio essencial da sabedoria teológica acumulada através dos anos. Essa sã doutrina é crida, praticada, confessada e ensinada.

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[1] Essa lista foi extraída de Gregg R. Allison, “The corpus theologicum of the church and presumptive authority”, in: Derek J. Tidball; Brian S. Harris; Jason S. Sexton, orgs., Revisioning, renewing, rediscovering the triune center: essays in honor of Stanley J. Grenz (Eugene: Cascade, 2014), p. 324.

Trecho extraído da obra “50 verdades centrais da fé cristã: um guia para compreender e ensinar teologia“, de Gregg R. Allison, publicada por Vida Nova: São Paulo, 2020, pp. 19-23. Traduzido por Lucília Marques. Publicado no site Tuporém com permissão.

Gregg Allison (PhD, Trinity Evangelical Divinity School) é professor de Teologia Sistemática no Southern Baptist Theological Seminary, em Louisville, Kentucky. Lecionou Teologia e História da Igreja por quase uma década no Western Seminary, em Portland, Oregon. Foi também professor adjunto da Trinity Evangelical Divinity School, da Elgin Community College, da Judson College, do Institute of Biblical Studies in Western Europe and the United States e do Re:Train. É pastor da igreja Sojourn Community Church e estrategista teológico da Sojourn Network, rede de plantação de igrejas composta por aproximadamente 30 igrejas locais. É autor das obras Teologia histórica: uma introdução ao desenvolvimento da doutrina cristã e Teologia e prática da Igreja Católica Romana: uma avaliação evangélica, publicadas por Edições Vida Nova.
Para que os cristãos tenham condição de transmitir a fé com convicção, a doutrina cristã deve ser confessada pela igreja, ensinada de geração em geração e aplicada à vida. Nesta obra, o teólogo Gregg Allison explica 50 doutrinas essenciais da fé cristã de maneira clara e envolvente, fornecendo orientações sobre como ensiná-las com precisão. Allison também mostra como cada doutrina se conecta ao nosso dia a dia, já que, para ele, a doutrina cristã não é apenas crença verdadeira, mas também prática verdadeira.

Este livro abrange os temas fundamentais do cristianismo (a natureza de Deus, sua Palavra, a Trindade, a Criação, a salvação, os últimos dias etc.) e, por isso, é um recurso teológico indispensável para a formação de crentes na sã doutrina e para a transformação de vidas para a glória de Deus. Cada capítulo trata de uma doutrina e é dividido em cinco seções: "Entendendo a doutrina", "Base bíblica", "Principais erros", "Ensinando a doutrina" e "Recursos", com uma lista de obras para quem deseja se aprofundar no tema do capítulo.

Publicado por Vida Nova.

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